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DITOS & ESCRITOS

RECIFE: HISTÓRIA E VIDA.

Rua Bom Jesus, antiga dua dos Judeus em Recife
Rua Bom Jesus, antiga dua dos Judeus em Recife

Uma cidade, se olharmos pelo corte da história, é composta de camadas de tempo e vida, as quais, condensadas, constituem o seu presente. Sua cultura é expressão de desejos, conquistas, derrotas e desafios daqueles que lá viveram, deixando um legado para as gerações atuais. No Recife, raças, religiões e valores forjaram o que somos hoje, uma miscigenação caleidoscópica, impossível de nela isolar-se uma categoria sem que esta carregue traços de outra. Um exemplo são os negros que, trazidos como escravos, foram desumanizados e tratados como meras mercadorias, ou recursos produtivos como mulas e ferramentas, e hoje, quando fazem soar no Recife Antigo seus tambores de maracatus, trazem uma evocação do passado,  lembrança da presença a(l)tiva da cultura africana em nossa música, nossa comida, na maneira de nos expressarmos, e na ocupação do espaço social: tão diverso e tão desigual. Carregamos em nosso sangue traços da tragédia humana da escravidão.

Outro grupo, milenarmente perseguido, os judeus, constituem peça importante da nossa história. O primeiro capítulo foi quando os holandeses dominaram a região, de 1630 a 1654. Havia na Holanda, desde 1496, quando os judeus foram expulsos de Portugal, importante comunidade judaica concentrada em Amsterdã. Já com mais de um século e meio naquele país, destacava-se nas atividades do comércio, na gestão pública e nas atividades intelectuais, sendo Baruch Espinoza ( 1632-1677) um dos grandes filósofos do século XVII, seu mais significativo representante. Com a expulsão dos holandeses em 1654, muitos judeus foram forçados a voltar para a Holanda, sendo que um pequeno grupo foi bater na, hoje, Ilha de Manhattan, contribuindo de forma expressiva para a consolidação daquela cidade, atual Nova Iorque. Muitos destes judeus, convertidos em cristãos-novos  – uma “liberalidade” da Santa Inquisição da Igreja Católica – decidiram permanecer em Pernambuco.

Sob a camada de tempo de três séculos e meio, oprimidas pela perseguição religiosa, apenas resquícios materiais destas comunidades encontram-se aqui. Um deles, resultado de trabalhos arqueológicos recentes na antiga Rua dos Judeus, é a reconstruída Sinagoga Kahal Zur Israel, a primeira sinagoga das Américas, hoje Centro Cultural Judaico. Lá é possível encontrar bases de dados, como nomes de centenas de famílias de novos-cristãos pernambucanos, tendo como principal fonte os processos do Tribunal do Santo Ofício, a Inquisição Portuguesa. É possível, entretanto, encontrar também, na memória e nos costumes, o espraiamento dos novos cristãos por todo o Estado de Pernambuco.

A segunda onda migratória deu-se no final do século XIX e começo do século XX, em decorrência dos terríveis “pogroms” que varreram o sul da Rússia, entre 1881 e 1884. Neste período, o Estado recebeu judeus de origem russa, ucraniana e romena. A comunidade judaica, instalada inicialmente na Rua da Glória, já nos anos 40 nutria uma biblioteca com cerca de 8.000 volumes – traço fundamental de um povo que, perseguido desde a primeira diáspora (586 AC), finca sua resistência na preservação do conhecimento, da sua cultura e de seus valores. Recife tem hoje centenas de descendentes das famílias judaicas da segunda onda migratória: são engenheiros, médicos, advogados, pesquisadores e cientistas, artistas, empreendedores e intelectuais, uma rica e prolífica infusão de valores culturais que forja nossa cidade.

P.S Texto originalmente publicado na Revista Textos no 1, em janeiro de 2020

João Rego
Ditos & Escritos
É engenheiro, consultor, mestre em ciência política com formação em psicanálise.
www.joaorego.com
www.facebook.com/politica.psicanalise

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