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DITOS & ESCRITOS

GRANADA

PALÁCIO DE ALLAMBRA. 19 DE OUTUBRO DE 2017.

Descendo a ladeira da nossa casa em Granada

“Quando um aluno importante havia terminado de aprender uma ciência, ou sabia alguma matéria, ou concluía sua formação literária, se celebrava uma sessão acadêmica nessa casa, em um dia festivo, e à mesma acudiam os habitantes do reino. O jovem com uma coroa na cabeça e com suas vestimentas adornadas de predarias, subia as escadas para alcançar um trono de mármore adornado com pinturas e esculturas; discutia perante o público sobre a ciência que havia aprendido e recitava fragmentos literários de memória. Seu mestre lhe saudava, e com orgulho lhe dava presentes; o jovem era acolhido com respeito e tratado como um sábio, em consequência de seu engenho e inteligência. “ in Sentenças morais dos filósofos, obra vertida para o espanhol na idade média por Banü Musá.

Fiz questão de abrir o dia de hoje com esse impressionante relato sobre o sistema de ensino, durante a idade média, na Espanha islâmica. O que me deixou mais intrigado foi a sensação de que, após séculos, houve uma involução na forma como nossas sociedades modernas tratam a formação e transmissão do conhecimento para as novas gerações, ou colocando de outra forma: nossa formação está calcada em uma especialização ditada pelo mercado e pronto, não há a preocupação de formar sábios.

Outro aspecto relevante foi descobrir que durante a Espanha Islâmica havia uma atmosfera de tolerância religiosa e enorme atividade intelectual, que envolvia muçulmanos, judeus e castellanos. Toledo era famosa por ser um centro de tradução das mais diversas obras – inclusive e principalmente do pensamento grego – das três culturas, numa rica tessitura de saberes, deixados como legado, para as futuras gerações.

Tudo isso foi abaixo com a vitória do império cristão, quando em 1492, tomaram Granada, último reduto de sete séculos de Espanha Islâmica. E não foi por coincidência, que o judeus sefarditas foram expulsos da Espanha e Portugal. Amsterdam, Calvinista e mais tolerante, acolheu parte importante desses judeus, forçados a migrarem de seu local, onde, durante séculos fincaram suas raízes. O Reino de Fernando é Isabel I de Castela, responsáveis pela pela unificação da nova Espanha, em nome do catolicismo, destruíram séculos de cultura marcada pela tolerância (com algumas exceções de califados ortodoxos) entre as diversas culturas da época e impuseram, a ferro e fogo, o terror e a intolerância sobre os dominados. Tudo isso em nome da ideologia e estratégia de dominação da “Santa Igreja Católica “… Allambra foi parcialmente destruída, hoje, ao lado daquele maravilha arquitetônica há o Palácio de Carlos V, um “casebre” perto do que restou de Allambra, monumentos que nos desafia a interpretá-los, muito além de uma valiosa e bem cuidada atração turística.

Enquanto isso… na sala de justiça.. , após cerca de 120 anos, da Holanda, foram enviados judeus- descendentes dos refugiados espanhóis – para o Recife sob a gestão de Maurício de Nassau (1630-1657) onde fundaram uma comunidade efervescente. Depois, como se sabe, com a vitória dos portugueses sobre os holandeses, foram obrigados a retornarem para a Holanda. Destes, alguns navios, em circunstâncias difíceis, foram desviados para uma pequena ilha na América do Norte, hoje Manhattan, colonizada com importante contribuição dessa pequena comunidade.

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Pronto. Cessou a aula de história, que torço para que vocês não tenham achado enfadonha.

Ontem eu havia sugerido preparamos nosso café da manhã na varanda da nossa casa que, como viram, tem uma vista belíssima. Acontece que a 11 graus e o vento batendo no pé do cangote não há cristão que aguente. Ainda pensei em simular uma cena, mas sob risos fui convencido que seria um desastre, principalmente para Tonho que é friorento que só. Gravatá para ele, no inverno, é mesmo que a Islândia.

Bem, resignado, após escrever o diário, preparei um bom café da manhã para o grupo. Descemos a ladeira felizes – há, como eu gosto de descidas! – pois hoje era o dia de visitarmos o Palácio de Allambra. Elba, nossa tutora, que havia comprado com antecedência os tickets, decidiu passar no centro de informações turísticas. Menino! pra que!?

Ela foi convencida a irmos andando ( já fui logo pensando, fudeu! Vai sobrar escada pra min) uma íngreme subida, tudo aqui é íngreme, até o Mirador de San Nicolás. Deu uma meia hora de subida, com o maps na mão pois é um labirinto de ruas estreitas para chegar até lá. Mas, de fato, vale a pena pois se vê, de longe, toda a grandiosidade do Palácio. Tiramos algumas fotos e descemos pois tínhamos que chegar às 14:00 para entrar no Palácio, creio que por conta do controle do fluxo de turistas.

Galeria Mirador de San Nicolas

Descemos até a Plaza Nueva onde a atmosfera é muito acolhedora para o turista. Todos muito amigáveis e orgulhosos de sua cidade, se desdobram para responder uma questão, nos deixando muito à vontade.

Pegamos um táxi e por cinco euros nos deixou na entrada de Allambra. Iván, o motorista simpático, danou-se a falar quando eu apertei a tecla mágica: falei de Andrés Segovia, um dos ícones da história do violão clássico, e Garcia Lorca, importante poeta assassinado pelo governo do General Franco -, dois ilustres filhos de Granada.

O PALÁCIO DE ALHAMBRA

O esquema do Palácio de Allambra é super organizado. O clima de 15 graus com sol estava perfeito para caminhar. Tirei algumas fotos de dentro do Palácio e é de embasbacar mesmo o sujeito. Caminhamos lentamente pelas diversas salas e áreas, sempre nos surpreendendo pela beleza arquitetônica com seus detalhes.

Galeria Palácio de Alhambra

Descansamos um pouco em um dos diversos jardins e o grupo seguiu para o Palácio Carlos V. Fiquei na entrada pois já estava satisfeito e, confesso, cansado e com as costas doendo.

Descemos de táxi felizes e satisfeitos e fomos passear pelas ruas de Granada. Tonho comprou um bela calça jeans que estava em promoção e Elba e Fabiana foram numa Sephora. Já sabendo que iam demorar achamos um praça cheia de bares, escolhemos um e pedimos um chope. Saboroso, encorpado e com personalidade. Já era seis da noite e, quando elas chegaram, decidimos ir jantar no mesmo restaurante de ontem. Além de muito bem recomendado não queríamos correr o risco de variar e errar.

Pedimos três pratos, em ordem consecutiva, e fomos provando no mesmo ritual de sempre.

Gravem o nome do lugar, Carmela.

Depois de outra passagem na Sephora (há indecisão, teu nome é mulher) pegamos a Gran Via com destino a nossa casa que fica uma perpendicular a Calle Elvira, histórica rua de comércio árabe. Eu, já estava andando no automático, pé ante pé, de tão cansado, já tendo tomado três chopes e jantado.

Nunca pensei que fosse desejar vê uma escadaria mas passei a desejar intensamente chegar a nossa. Depois de mais duas paradas, uma para comprar comida e outra souvenirs, finalmente chegamos no pé da escadaria que dá acesso à nossa casa.

Chegamos esbaforidos, eu sonhando em desmaiar no sofá mas… a porta não abria nem a pau. Tenta Tonho, Fabiana, e agora Elba e nada. Eu semimorto e com celular descarregado, aliás tudo estava descarregado em mim. O celular era nossa única saída para chamar Asun para nos socorrer. Foi a minha vez, cutuquei pra lá, cutuquei prá cá e, finalmente consegui abrir.

Finalizamos o dia com ritual do vinho de pijama (Elba e Fabiana) fazendo planos para, antes de Córdoba com destino a Sevilha, passarmos em Sierra Nevada, um belo parque e estação de esquí que fica a setenta quilômetros de Granada. Amanhã o dia promete.

Galeria – Curtindo Granada

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Espanha 2017 – Índice 1234

João e Elba Rego
São casados há 40 anos e adoram viajar. Os registros das nossas viagens são uma forma de compartilhar nossas experiências com os amigos.
www.joaorego.com/viagens

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