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DITOS & ESCRITOS

ZART NA FAMÍLIA

Zart com Guilherme

O registro, através da escrita e das imagens, é uma tentativa possível de se eternizar algo que já foi vivido e que não voltará nunca mais. Como a memória nem sempre garante a fidelidade do que se viveu – isso sem contar que é biologicamente degradável -, decidi registrar, em forma de crônicas, alguns momentos da presença de Zart na vida da família.

A CLARINETA.

Recentemente tomei a decisão de realizar um desejo há muito contido, estudar música no conservatório. Pesquisei e vi que havia um curso para alunos mais velhos. Consegui uma vaga para estudar clarineta, um belo instrumento. Essas decisões sempre levam tempo de pesquisa em sites na Internet, confabulando com a esposa, analisando os custos, enfim mastigando o desejo até ele poder ser digerido.

Compro a clarineta, a mais barata, para iniciantes mesmo, vou para minha primeira aula e venho extremamente excitado para casa, imaginando as dificuldades de dominar o novo instrumento, mas motivado pelo desafio. Quem conhece o instrumento, sabe que leva um certo tempo para você conseguir dominá-lo. A palheta, a firmeza do queixo, o sopro, são etapas que você vai vencendo com a prática, fazendo seu corpo se acostumar com ele até chegar à simbiose perfeita entre músico e instrumento, extraindo um som limpo, puro e belo. Enquanto isso não acontece,……

… o som, digamos, não é um dos mais agradáveis para os ouvidos. Ora, se para um humano é dureza ficar perto de um iniciante, imagine para um cão que ouve várias vezes mais do que nós e ainda capta harmônicos que nosso ouvido não capta.

Sento na rede que temos na varanda, preparo o instrumento e começo a soprar, imediatamente Zart, que estava ao meu lado, olha para mim e dana-se a uivar:

Auuuuuuuuuuuuuuu!!!
Auuuuuuuuuuuuuuu!!!
Auuuuuuuuuuuuuuu!!!

Quanto mais eu insistia no meu treino mais ele uivava. Chegou ao ponto de eu não poder mais soprar, por que estava rindo por conta dele.

E assim, foi, a semana inteira de guinchos da clarineta e uivos de Zart. Ficava trancado no banheiro ou no quarto para ver se resolvia a situação, mas não adiantava, ele ficava do lado de fora, na porta, uivando a cada nota que eu emitia.

Só consegui fazê-lo parar quando acertei o sopro e o som saiu perfeito.

Dias depois, estávamos jantando com convidados e como estava muito quente, abrimos à porta. Nossa simpática vizinha, Teresa, vai chegando e a convidamos para um cafezinho. No meio da conversa ela sai com essa:

“João, parabéns pela sua persistência na clarineta. Noto que melhorou, pois nunca mais ouvi o uivo de Zart!”.

Caímos todos na risada, pois ela disse que ficava, ela e o marido, Cláudio, rindo baixinho na varanda vizinha ouvindo o som desse estranho dueto.

A EDUCAÇÃO NA ‘MESA’.

Zart tinha um hábito que até hoje ainda me intriga, pois não entendo como um “animal irracional”, como dizem os cientistas, poderia fazer algo tão elaborado.

Todas as vezes que se colocava comida para ele, à noite, – e sua área era a área de serviço, que dava visada para a cozinha, onde tem uma pequena mesa para as refeições do dia-a-dia -, ele ficava esperando a gente se sentar e começar a comer. Só então, ele começava a comer sua ração.

Até aí tudo bem, pode ser um hábito desses que chamamos de atávicos, afinal o cão acompanha o homem a pelo menos sessenta mil anos, quando o homem compartilhava sua caça com o seu cão. Isso eu li numa revista da National Geographic. É muito tempo juntos. Para se ter uma ideia, nós começamos a escrever nossa história há quinze mil anos.

O mais intrigante era que se eu, ou alguém da família estava fora, e, portanto, só jantaria mais tarde, ele sempre deixava um pouco de ração para comer com o retardatário, tarde da noite. Como ele sabia disso? E porque continha seu impulso de sobrevivência, adiando a realização de uma pulsão, esperando pelo outro? Nem todos os humanos são tão refinados. Eu mesmo, não consigo. Sou glutão e quando estou com fome, como tudo que tem no meu prato, até me satisfazer.

A NOSSA CHEGADA EM CASA

Era um show !. Zart, não sei como, já previa nossa chegada – segundo Bené, nossa empregada, ele ouvia o ruído do motor do nosso carro já na esquina-, e corria, fuçava um dos meus sapatos, tirava uma meia e vinha correndo com o troféu pendurado na boca, para nos presentear. Elba voltava a ser menina, saia correndo atrás dele pelo apartamento gritando ui, ui, ui e ele na frente dando piruetas pela casa.

Temos, em nosso quarto, um suporte para pendurar roupas. Lá ficam penduradas minhas calças e camisas do dia-a-dia. E para evitar ele estragar minhas meias, assim que as tirava, as enfiava em um dos bolsos de trás da calça.

Me pego até hoje, já sem Zart em casa, repetindo automaticamente esse gesto.

Quando chegamos ontem em casa, vindo de um restaurante, ao abrir a porta da casa só encontramos o vazio dele, bate aquela dorzinha na alma, você tenta minimizar ” Era só um cachorro”, mas não adianta, a dor fica.

UMA PASSAGEM DE ANO LÁ EM CASA.

Recife, janeiro de 2006.

Estávamos eu, Elba, Maurílio, Norma, Juliana e Davi. Depois, lá para as dez, chegaram Luciano , Inalba e Dona Teresa.

Ficamos por lá, e como sei que Luciano e sua turma não bebem, começamos servindo o jantar logo. Claro que havia o sério risco de alguém arriar logo na rede de barriga cheia.

Além das nozes, e outras frutas secas, tínhamos um pernil de porco delicioso que Bené havia preparado. Dona Norma trouxe o seu clássico filé, delicioso. Tudo isso enfeitado com fios de ovos e pêssegos. Um show!

Ricardo, Fernanda e Vinícius passaram apenas para dar um alô, pois iam romper o ano com a família de Fernanda, uma vez que já passaram o Natal conosco em Porto de Galinhas.

Corta a cena e retrocede alguns minutos antes de todos chegarem.

Estávamos todos distraídos, esperando ainda os “convidados” chegarem quando entro na cozinha e vejo aquela cena: Zart havia subido na mesa e arrastara o pernil de porco para o chão. Estava se refestelando, igual aos leões dos filmes de Animal Planet quando matam uma gazela.

Eu danei-me a gritar e a chutar o porco com a minha sandália, um medo arretado de levar uma mordida. (acho que ele se achava um leão mesmo, tamanha sua ferocidade em defender o resultado da sua caça). Elba gritando do outro lado, uma confusão da gota. Nessa hora me veio o pensamento de como a família real inglesa administraria uma situação dessa. Será que eles gritam tanto quanto a gente? Finalmente, com a ponta da faca peixeira, consegui arremessar o “bicho” para cima do balcão da cozinha.

Após uma investigação detalhada, decidi, tal qual um cirurgião, que se tirasse um pouquinho aqui, outro pouquinho ali, algo se salvaria. E foi o que fiz, mas juro, foi movido pelo mais profundo espírito de natal, que como todos vocês sabem, ele costuma nos acompanhar até o último dia do ano.

Volta à cena com os convidados.

Maurílio recebe Norma com aquela alegria dele.

Colocamos a conversa em dia, falamos do passado e comemos nozes com passa de figo. 
Ligamos para Iara e Emanuel que estavam em Florianópolis, terra do namorado de Adriana.

Evidente que, após uma reunião do comitê de recepção, ficou decidido que nada se falaria sobre o incidente animal. Até mesmo porque o porco já havia sido cortado e estava na mesa antes do ataque canino, portanto, ninguém haveria de correr o risco de comer porco com baba de cocker spaniel.

Se aproximou a hora e Luciano e Maurilio já estavam deitados na rede.

O vinho, um Concho y Toro dos bons, e, como todo mundo sabe, há uma relação direta entre a qualidade do vinho e um desejo compulsivo de se deitar numa rede.

A expectativa era o show pirotécnico do Country Club. Foram quinze minutos de fogos, tudo muito bonito.

Depois, cada um seguiu o seu rumo, para suas casas. Elba, que estava com uma disposição danada, lavou tudo, me deixando com um forte sentimento de culpa por não tê-la ajudado.

O resto do pernil rendeu ainda uma semana.

***

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João Rego
Ditos & Escritos
É engenheiro, consultor, mestre em ciência política com formação em psicanálise.
www.joaorego.com
www.facebook.com/politica.psicanalise

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