Trilha na mata do Bituri.

mar 27, 2006 by

Ou de quando Guimarães Rosa foi criticado na frente de Boião.

João Rego, Recife, 27 de março de 2006.

 

Elba, minha esposa, já havia participado de várias trilhas através dos Retirantes Urbanos, e eu sempre com um pé atrás achando que não era bem a minha praia. Mas desta vez decidi ir. A trilha era em Brejo da Madre Deus, numa reserva de mata atlântica.

Chegamos às 5:30 da manhã no Derby, ponto de partida da Van que nos levaria até a cidade de Brejo.

Para nossa agradável surpresa lá estava nosso colega e vizinho, o Clemente Rosas, economista, poeta e escritor. Ele também ficou muito alegre em encontrar gente conhecida, pois era sua primeira vez nos Retirantes Urbanos. Clemente, porém, levava uma vantagem danada sobre a gente: tinha feito Machu Pichu, com seu filho no ano passado, viagem que relatara brilhantemente através de seis artigos no Jornal do Comércio.

Logo depois o grupo foi se compondo, Bárbara Kreuzig, arquiteta e amiga, trilheira já de grande experiência. Em Boa Viagem pegamos o resto do grupo e partimos rumo ao nosso destino, com direito a uma breve parada no Rei das Coxinhas, em Gravatá, para relaxar, ir ao banheiro e tomar um cafezinho.

O percurso da viagem foi muito bom, pois aproveitamos para atualizar o papo, eu e Clemente. Clemente foi diretor de Relações Internacionais da UNE, em 1962, e esteve no epicentro do golpe Militar. É sempre uma valiosa fonte de informação sobre a nossa história política passada e recente.

Marx, Stalin, Churchil, Revolução Russa, os filmes, os livros, tudo vinha à tona em nossa conversa, tornando a viagem muito agradável. Bárbara, que é cinéfila e fã de carteirinha de cinema de arte, nos falou sobre um belo filme canadense “A Grande Sedução” que fiquei morrendo de vontade de assistir.

Ah, tinha uma colega, a Karina, advogada e deficiente visual que estava no grupo. Karina, vinte e poucos anos, é um exemplo de pessoa que vive a vida com intensidade, não importa os obstáculos que ela ofereça.

Ela já é veterana em trilhas. Alto astral e muito simpática.

Chegamos a Brejo de Madre de Deus às 11:00, e após uma rápida circulada na feira livre, ficamos esperando a Toyota que nos levaria até Fazenda Buriti, 280 hectares de mata atlântica preservada, que fica a uma altitude de 1050 metros em relação ao nível do mar.

Comprei um saco de azeitonas pretas e ficamos nos deliciando enquanto a Toyota não vinha. Demorou um pouco mais do que se esperava e a impaciência já tomava conta de alguns mais obsessivos com horário, como Clemente.

Finalmente subimos na Toyota, cada um com sua mochila nas costas carregando água, barra de cereais e frutas.

Após uns 20 minutos subindo a ladeira chegamos ao ponto de partida da trilha. Tudo muito organizado por Heloísa e Washington, os dois coordenadores do Grupo. Fez-se o aquecimento e alongamento muscular, foram distribuídos apitos para o caso de alguém se perder do grupo e, o que me deu mais confiança, havia como apoio, uma égua do dono da fazenda, o Paulo, que logo a apelidei de “ambulância”.

Começamos logo subindo uma ladeira de uns 500 metros. Era uma estrada trafegável, e o que me lembro foi Clemente comentando, “Mas não precisava desse aparato todo para  a gente caminhar numa trilha dessa. Isso é muito fácil. Acho que eles fazem isso para criar um clima de aventura”. De repente Boião, era esse o apelido do mateiro – mateiro é o cara que vai a frente com um facão abrindo a picada e nos guiando-, parou e meteu seu facão no mato fechado, sentimos que a moleza tinha se acabado. A coisa era pra valer.

Começamos a entrar na mata fechada, o que foi uma experiência que me remeteu a infância, na fazenda dos meus pais, o Brejo Vertentes, lá pra’s bandas de Agrestina.

É tudo muito bonito, claustrofóbico – pelo menos para mim, marinheiro de primeira viagem – e encantador. Pisar naquele chão cheio de folhas úmidas, não ver a luz do sol, a qual entrava apenas alguns rasgos de luz pelas frestas das grandes árvores, e não ver o colega que estava a poucos metros de você, confesso que senti certa insegurança.

Boião vai à frente, calado manejando seu facão. Vai num ritmo preciso. Era necessário freá-lo de vez em quando. Havia a Karina que vinha atrás, no ritmo mais lento, sendo guiada por Rômulo, o estagiário que Heloísa contratara há pouco. Figura simpática que não parava de falar.

Washington também ficara no grupo de trás, junto com Rômulo e Karina. Comunicava-se com um walk-talkie com Heloísa que estava no grupo da frente. Senti que a segurança era uma das preocupações deles. Mas mesmo assim “ambulância” não saia da minha mente. Essa sim me confortava para um caso de qualquer emergência.

Descemos até um ponto onde havia uma cerca e aí Boião toma o rumo de uma subida margeando a cerca. Bárbara aos gritos apontou uma orquídea lá no alto de uma árvore.

O grupo todo parou para admirar, como se fosse uma mercadoria exposta em uma vitrine de um shopping center. Descobri depois que seu avô havia sido um orquidófilo, ela tinha um olho de águia para achar orquídeas.

A primeira parada foi na beira de um regato. Sentamo-nos para esperar o Paulo que já havia deixado a Toyota no final do percurso e voltara para se juntar ao grupo.

Enquanto isso, Boião preparava uns cajados para alguns do grupo. Eu peguei logo o meu e depois fui sentir a importância dele no restante da caminhada. Lanchamos, chegou Paulo e partimos para mais uma subida.

Agora o mato começava a se fechar mais, Boião com suas machete nos livrava dos espinhos e da tiririca, um capim que corta como uma navalha. Uma delas já havia deixado sua assinatura na minha perna, que insisti em ir de bermuda, quando todos estavam de calças.

Foi aqui que a caminhada começou a se tornar mais intensa. Eu, que a princípio, como mecanismo de defesa, havia feito o esforço de memorizar o caminho de volta, agora estava completamente nas mãos de Boião, junto com o grupo. Fiquei logo atrás dele, e em seguida vinha, Clemente e Bárbara. O mateiro, para mim era “caixa preta” do grupo.

Foi aí que começamos a conversar sobre literatura. Clemente passou a falar de Guimarães Rosa fazendo uma crítica ao seu estilo. Pensei em como Boião poderia ser um dos personagens de Grande Sertão Veredas. Fazia o trabalho dele calado, só falava quando alguém lhe perguntava algo e o danado nem água tomava.

Depois foi a vez de Clemente elogiar Nikos Kazantzakis, autor de Zorba o Grego, e Boião com a gota serena quebrando o mato na frente. Falou sobre sua obra “O Cristo Recrucificado” Cada vez mais o mato se fechava. Eu prestava atenção na crítica literária de Clemente, mas estava começando a ficar preocupado, pois notava que o mateiro já não seguia uma linha reta.

Senti que ele estava meio perdido. O calor era forte, mas as árvores nos protegiam do sol. Boião finalmente admite que se enganara e levara a gente para outra direção.

Seria necessário, portanto, descermos uma ladeira íngreme que ia dar numa plantação de banana e mandioca, e… depois…..(ufa!!!)  subirmos para chegarmos até a “rodagem” como dizia Boião.

Você sabe aquele momento que sua ansiedade, alimentada pelo seu cansaço, em sair da mata já chegara ao limite? Cansado, eu só pensava em ter que ultrapassar meus limites interiores físicos e mentais, para poder chegar ao final da jornada. Apesar de fazer minha ginástica diária, estou pesado que só, 112 quilos. Se três quilos que carregava nas costas já é pesado, depois de algumas horas na mata, imagina o resto.

Eu olhava pra trás via o grupo tranqüilo, Karina – impressionante!- alegre e excitada pegava nas plantas e as reconhecia. Washington a guiava com segurança e dedicada competência. As outras mulheres também, caladas, não transpareciam nenhuma insegurança ou receio que algo pudesse dar errado. Afinal já tinham experiências anteriores com Heloísa, e todas muito bem sucedidas.

Acho que o único frouxo era eu. Comecei a controlar a água, para o caso de ter que andar muito mais do que o inicialmente planejado.

Descemos na clareira, já sair da mata fechada me deu um alívio. Bem, o perdido de Boião não é perdiiido, ele apenas se enganou e nos forçou a caminhar um pouco mais.

Estávamos no fundo do vale, e para chegarmos a “rodagem” tínhamos que subir uma ladeira íngreme, onde tinha uma plantação de mandioca. Senti que era bronca, pois o sol agora ia bater pra valer nas nossas costas.

Mas, começamos: Boião na frente, Bárbara e Elba logo atrás dele e eu atrás de Elba. Subimos quase de quatro, tamanha a inclinação. Elba só dizia “Mas está muito ruim, está muito ruim!” Eu tentava dar força empurrando-a pela bunda.

Pensei “Se eu escorregar nessa ladeira não há força humana que me faça subir novamente. Só saio daqui com ‘ambulância’ me carregando”

Foi no meio da subida que achamos uma sombra para esperarmos o resto do grupo. Foi uma parada estratégica, havia maracujá por todos os lados. Bárbara começou a chupar um feito quem chupa manga, rasgando a casca com os dentes. Alguns do grupo também. Foi uma ótima forma de relaxarmos um pouco.

Agora estávamos a poucos metros da rodagem e a subida havia acabado. Como é bom descida!

Chegamos na estrada cansados e felizes. Andamos um pouco mais de 500 metros ladeira abaixo e chegamos na bica.

Ô beleza!!!!!!!!!!!!!!!

Menino eu embaixo d’água dava o meu velho grito de guerra.

Iahhhhhhhhhhhhhhuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!!!!!!! [1]

Elba foi a primeira que entrou embaixo do chuveiro, pois já estava de bikini. A água gelada parecia que tinha o poder de recompor nossas forças. Foi arretado! A sensação é muito estranha, um cansaço feliz, algo como um sentimento de uma coisa que você realiza e completa você. O Toyota nos levou para uma casa de apoio onde comemos banana e trocamos de roupa. Foi somente na volta, já na carroceria da Toyota que pude perceber a grandiosidade das montanhas e das matas da região. É tudo muito bonito. Já era quase noite quando chegamos à cidade. Havia um jantar com galinha, carne guisada (deliciosa) e uma cerveja bem geladinha nos esperando. Comi quase com mesma intensidade com que me adentrei na mata, como diria um jurista.

Na volta alguns dormiam, outros conversavam ouvindo uma ótima seleção de músicas organizadas por Washington.

Um bom programa.

 ***

[1] Agora que escrevo, me lembrei de Jaminho com o filho dele, quando morávamos no Edf. 12 de Outubro. Ele perguntava ao seu filho de três anos: como é que o gatinho faz? E o menino fazia miaaaaau. Como é que o pintinho faz? E ele piu-piu; e como é que Tio João faz? Aí o menino gritava iahuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!! E o danado ouvia meu grito do meu apartamento.

 

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