Zé Valentão.

ago 2, 2014 by

João Rego.

 

Zé Valentão era baixinho e musculoso. Moreno, trazia a coragem, a honra e a fortaleza do homem do sertão. Quando chegou na Vazante, nossa fazenda próxima a Caruaru, eu tinha uns nove anos. Chegou com mulher e dois filhos pequenos, também baixinhos e surpreendentemente musculosos para sua idade. Foi contratado para ser o capataz da fazenda, ou seja, o principal gestor das atividades ligadas a produção da Vazante.

Uma das coisas valiosas que meu pai me legou foi desprezar as barreiras sociais e conviver com todos de igual para igual, no que pesassem as diferenças de riqueza e tradição da família. E era assim que me sentia, um igual, juntos aos filhos dele e, como seus filhos, um ávido e obediente aprendiz no fazer das coisas da fazenda, desde ações simples como cortar palma na cocheira até as mais complexas como cavalgar pelo meio das caatingas, com um cavalo resfolegando desenfreado perseguindo uma rês.

Impressionava-me a habilidade e a firmeza de Zé Valentão no domínio de um cavalo chucro. Havia um campolino arisco que ele montava sem sela e tinha um jeito de pegar na crina do bicho que o fazia empinar com as duas patas dianteira no ar. Isto eu pensava que só o cavalo branco de Zorro fazia, no seriado da televisão. Conhecia e passava para mim todo seu saber sobre árvores e plantas diversas: o juá, o cipó, o marmeleiro, etc. É necessário ser do mato para compreender e valorizar a riqueza destes conhecimentos, seus diversos detalhes, passados de geração para geração, ao longo do tempo. O amolar de uma peixeira; escolher o pedaço certo da madeira para fazer um bom cipó; o banho do cavalo na beira do rio, como encilhá-lo e tratá-lo. Ele tinha um carinhoso hábito de conversar com os animais, acalmando-os nas horas de tensão, como o momento de marcá-los com o ferro quente. Foi dele que, pela primeira vez, ouvi as estórias de Cumadre Fulôzinha e outros mitos atávicos do sertão. Muitas vezes, de manhã, na hora do leite no pé da vaca, ficávamos espantados em ver as crinas dos cavalos todas trançadas como se Cumadre Fulôzinha tivesse passado a noite por lá.

Tudo isto Zé Valentão me passava como um mestre a um discípulo. Lembro da gente caminhado pela Queimada do Milho, este era o nome dado a uma das áreas internas de uma mesma fazenda, possivelmente uma fazenda que meu avô comprara e integrara a Vazante.Ele cortando as plantas, me mostrando e pedindo para fazer o mesmo, cheirando, mastigando as folhas, observando e classificando na mente como se daquele gesto dependesse sua relação com a natureza. Neste dia, acho que ele estava feliz pois me apresentou a dança do coco cantando e dançando com as alpercatas levantando poeira e emulando uma roda de coco.

Uma vez, ele tinha que trazer uma boiada de outra fazenda. Houve um pacto entre ele e papai e eu fui junto com ele e mais três vaqueiros. Montado em meu cavalo, Passageiro, contra a vontade e a apreensão de mamãe, partimos bem cedo para nosso destino.

O trabalho levaria quase um dia de cavalgada, contando com o recolhimento das reses espalhadas pelos cercados. Este dia foi para mim um rito de passagem: deixava de ser criança e começava a assumir responsabilidades de gente grande. Foi na volta, tangendo o gado pela estrada, que ouvi o aboio, um belo e triste som, cantado por ele, ao ritmo das passadas do boi. Não tem palavras, apenas um som, um lamento que ecoa pela mata, uma elegia sobre a relação homem-animal, como se naquele momento o vaqueiro fundisse seu destino com o do boi, sabendo que agora era a vez do boi ir para o matadouro; mais tarde, o destino e a vida, esta sempre finita, determinariam o fim dele, o vaqueiro.

Chegamos à noite, encharcados pela chuva que nos pegara no meio do caminho. Eu, cansado e orgulhoso de ter cumprido bem minha primeira missão – me vem agora à mente o cheiro do suor do cavalo – desço e encontro minha mãe aos prantos, chorando de ansiedade e alívio por ter corrido tudo bem. O pai orgulhoso, calado, observava a cena, convencido que havia tomado a decisão correta no momento certo da minha vida.

Este cenário se dissolveria, como que por encanto, marcado pela morte de meu pai pouco tempo depois. Viemos para o Recife e sempre evitei, já adulto, deparar-me com este passado e estes personagens. Soube depois que Zé Valentão fora morar em um bairro da periferia de Caruaru e, longe do seu habitat, se afundara na cachaça e na depressão. Sua fortaleza fora enfim minada pelo “progresso” da cidade.

Julho, 2014

***

 

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João Rego
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A Vazante – fragmentos 1.

jul 26, 2014 by

João Rego.

Acordo no meio da noite e, desobedecendo a orientação da minha nutricionista, preparo um copo de leite com Nescau. Começo a sorvê-lo lenta e deliciosamente com um prazer infantil de quem faz uma trela…. às memórias vêm aos borbotões, como se o inconsciente estivesse de ressaca, vomitando em golfadas os afetos e lembranças recalcados da infância.

Alguém grita:

— Primeiro!!

Outro,

— Segundo!

Mais um,

— Eu já disse segundo antes de você.

— Mas ninguém ouviu, prove!

Estávamos em um dos quartos da Casa da Fazenda Vazante, a mais próxima de Caruaru, onde toda a família, juntos com primos e amigos passavam a invernada das férias de julho. A gritaria, neste quarto amplo e cheio de camas e beliches, ocorria todos os dias às cinco horas da manhã. O motivo?Ser o primeiro na fila do leite das vacas ordenhadas por José Valentão que, às 4:30 já estava na labuta separando os bezerros das vacas.

Nossas mães preparavam os copos com porções de Toddy e saíamos em fila indiana, alguns vestidos ainda de pijama de flanela, em direção a vacaria: Mimosa, Pretinha, Malhada e muitas outras, Zé Valentão as chamava pelos nomes e elas o obedeciam numa cumplicidade mágica para mim. O clima frio, o marmeleiro ainda com o orvalho cobrindo suas folhas, as cocheiras e os currais cheios de gado, o leite ainda quente, que devido aos jatos das tetas manuseadas com maestria por Zé valentão, vinha espumando — nem precisava mexer com a colher— era bebido com a mesma avidez com que bebíamos a vida na infância.

O indefectível e maravilhoso cheiro de bosta de boi coroava o cenário.

O dia estava apenas começando, onde as aventuras trançavam o tempo em momentos de excitação e prazer como a caça ao preá. O cachorro que pertencia a um dos moradores era rápido e certeiro e, por engenhosidade de alguém, deram-lhe o nome mais adequado que se poderia imaginar para um cão de caça: Vai. E Vai ia. A gente gritando vai Vai! vai Vai! no meio do capim elefante, correndo com dificuldades para alcançá-lo na beira do Rio Ipojuca. Vai pulava e desaparecia pelo meio daquele emaranhado e quase sempre saia com um preá na boca. Outra forma de caçar o delicioso rato do mato – sim, o comíamos assado no sal e brasa na casa de Seu Ireno, que sempre tinha paciência para nos receber e fazer o fogo com a lenha apanhada no terreiro — era preparar as aratacas, armadilhas rústicas, engenhosamente preparadas por nós. Trançadas com pequenos gravetos, as fazíamos, em formato retangular as tampas; depois saíamos, qual Sherlocks Holmes a investigar milimetricamente uma vasta área do cercado até identificar o caminho que as pequenas criaturas deixavam no seu vai e vem para se alimentar e caçar. Cavávamos um buraco no meio das minúsculas trilhas, era possível identificar os rastros pelas marcas dos pezinhos, e deixávamos, à noite, as armadilhas prontas para a captura. Um graveto apoiava a tampa aberta tendo, na outra extremidade, uma base de pedra; os preás, confiantes na segurança das suas trilhas, quando saiam à noite para se alimentarem, quase todos apressadinhos, batiam no pau que suportava a tampa e caiam no buraco, não muito profundo, mas suficiente para, com a tampa presa por cima, aprisioná-los. No outro dia fazíamos a coleta, metendo a mão na cumbuca e, rapidamente, torcendo-lhes o pescoço, para matá-los.

***

O Rio Ipojuca, que no inverno era uma beleza, serpenteando toda a extensão da Vazante, vinha lá das bandas de São Caetano e seguia atravessando toda a cidade. A pescaria tinha sempre um ritual, para muitos, nojento, que era apanhar as minhocas no leeiro de Zé Damião. Havia uma arte em enfiar a minhoca no anzol e, quase sempre, a paciência e o trabalho eram recompensados pelas piabas, traíras e acarás que pescávamos. Se déssemos sorte, podíamos pescar um muçum, espécie de enguia preta que vivias nas margens do rio, que assado no toicinho e servido com farinha, comíamos com sofreguidão, aos punhados.

Zé Damião tinha uma casa no extremo norte dos limites da Vazante e plantava coentro, alface, cebolinho, quiabo e tomate para vender na feira. Passava, com a regularidade de um relógio, montado em sua burrinha, coitada, espremida pelo peso dele que era gordo e careca e tinha um caso, soube depois, com Maria Dadá, minha babá. Pois bem, a jumenta com seu passo pinicado parecia os ponteiros de um relógio, com sua passada constante, levando Zé Damião para cidade de manhã e o trazendo a tardezinha, quase anoitecendo.

É muito viva em mim esta volta, por que era a Hora do Ângelus na Rádio Difusora, declamada em tom lacrimosamente solene por Alziro Zarur. Esta era também a hora do coaxar dos sapos; do cheiro de café feito por Dadá no velho coador de pano, que se espalhava e me alcançava na rede da varanda. Na frente da casa, um único poste de luz amarela e fraca preparava o cenário para a burrinha de Zé Damião passar. E lá vinha a dupla, ele com os pés quase arrastando no chão, a barriga enorme e a burrinha firme e forte sem alterar o ritmo do seu trote. Cumprimentava-nos à moda antiga, tirando o chapéu de palha, e seguia estrada adentro. Nesta estrada, 400 metros depois da Casa da Fazenda, tinha uma cova com uma cruz sinalizando que alguém morrera de morte matada. Todos respeitavam e se benziam quando passavam por lá, principalmente à noite.

Não lembro bem do texto da oração do Ângelus, sei que começava com a Ave Maria, mas sentia uma angústia gratuita de tanta culpa e perdão que se falava. Era como se fosse pecado existir e ser feliz, isto me acompanhou até a vida adulta. Não podia ouvir aquela oração que uma tristeza inexplicável mim invadia.

Lá em cima, a Vazante ficava num vale, passavam os caminhões de carga na pista (era como chamávamos a BR232), fazendo com que o barulho característico de seus motores, ampliados pelo eco do vale, nos envolvesse. Dormíamos embalados ao som destes motores ecoando pelo vale, que vinha bem baixinho das bandas do sertão, ia subindo, subindo, subindo… para depois, baixar, baixar, baixar… e desaparecer rumo a cidade. Após curto intervalo de um silêncio total, outro caminhão pegava o bastão, como se tivessem combinado, e começava tudo de novo.

 ***

Foi lá que aprendi, sozinho, a andar de bicicleta. Pegava a velha bicicleta Hércules de meu pai, subia empurrando ladeira acima, aprumava um dos pedais num degrau da casa de um morador que não lembro o nome, só me lembro que lá comia feijão em punhados com farinha, misturado com coentro, cebolinha e um pouquinho de pimenta. Tudo amassado com a mão e com a mão comíamos. Bem, meu método de aprender a andar de bicicleta era bastante eficaz, porém muito doloroso. A ladeira era um caminho que ia dar na entrada da Casa da Fazenda, dos dois lados as cercas de arame farpado e aveloz faziam um estreito corredor, eu munido de coragem e do desejo enorme de aprender a andar na magrela, impulsionava a bicicleta e me lançava ladeira abaixo. Só tinha duas opções: eu acertava no equilíbrio, e ia direto até a entrada da fazenda; ou me lascava nas cercas de arames farpados e aveloz, me estatelando no chão. Obviamente foram necessárias duas ou três tardes da segunda opção, caindo, levantando e empurrando a bicicleta ladeira acima, repetidas vezes até que, no terceiro dia entrei triunfalmente, todo lanhado, sob o olhar animado dos moradores, no pátio da Vazante.

A vida, mais tarde, me mostraria que as quedas e recomeços não eram privilégio da infância.

 Julho, 2014

***

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João Rego
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Introdução ao Grupo País de Caruaru

jul 8, 2014 by

João Rego. Junho de 2014

Sejam bem vindos ao Grupo País de Caruaru!

É um grupo criado no Facebook e formado por caruaruenses de várias gerações, lá pelos anos 60, que hoje vivem em outras terras e desejam, com certa nostalgia, resgatar estórias, causos e fatos&fotos daquela época.

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A Pedra.

jul 7, 2014 by

João Rego, Julho de 2014.

Quando criança em Caruaru, aos meus sete anos, lembro-me de um personagem muito marcante no cenário da minha vida. Era Chico, um negro jovem, alto e muito forte. Era um dos vaqueiros da Fazenda Trapiá, da família Rego, que ficava logo após São Caetano, cidade vizinha a Caruaru.

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A Casa Grande de Seu João do Rego e Dona Ernestina

jul 1, 2014 by

A Casa Grande de Seu João do Rego e Dona Ernestina – Meus avós paternos.

João Rego, junho de 2014.

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três….
(João e Maria – Chico Buarque)

 

A Casa Grande ficava na Praça Cel. Porto, 90, logo após o fim da Rua13 de Maio, que terminava na 312, minha casa. Esta casa, que nos parecia naturalmente eterna, era o símbolo do sucesso do empreendedor que foi Seu João do Rego, meu avô, como era conhecido. Aos dezesseis anos, vindo das bandas de Águas Belas-, chegou em Caruaru, junto com dois irmãos, com a corda e a cachorra, como se diz, e foi trabalhar de auxiliar de açougueiro lá no Mercado de Carne; isso, antes de 1900. Sair Águas Belas, terra da Tribo Fulni-ô, naquela época, era um ato de extrema coragem, pois era um lugar isolado do resto do mundo.

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Rua 13 de Maio, 264 – A Casa de Marcos, Carlinhos e Elaine.

jul 1, 2014 by

RUA 13 DE MAIO, 264 – A Casa de Marcos, Carlinhos e Elaine.

A Casa de Marcos, Carlinhos e Elaine.
Filhos de Sr. Zeza e Dona Débora.

João Rego, Domingo, 8 de junho de 2014

Lembro de Dona Débora, era uma mulher jovem e bela. Tinha um rosto fino e delicado e estava – nas vezes que ia brincar com Carlinho em sua casa – sempre trabalhando em uma máquina de costura.  A máquina de costura ficava na sala, logo na entrada da casa, seguia-se um corredor que levava aos quartos e chegava-se até a copa e a cozinha. É muito viva na memória, o jogo de futebol de botão em um “campo” que ficava na cozinha. Ficávamos horas jogando, cada um com seu time e seus jogadores polidos com esmero para ter um bom desempenho em campo. Após o jogo, todos os jogadores eram zelosamente guardados em um estojo de flanela com várias casinhas – pequenos bolsos – para cada um deles.

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Os locais de bate-papo de Meu Pai.

jul 1, 2014 by

Rua 13 de maio e arredores – Os locais de bate-papo de Meu Pai.

 João Rego, Recife, 14 de Junho de 2013.

 

Maurílio Rego, Seu Lila, como era mais conhecido, como bom contador de estórias, causos e piadas, tinha o dom e o timing para isso. Juntava sempre amigos ao seu redor, ou então, depois do trabalho ia ao encontro dos mais diversos personagens da Rua 13 de maio e arredores; sapateiros, marceneiros; seleiros e, aos sábados, no Bar de Chaguinhas finalizava a semana.

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Rua 13 de Maio, Caruaru – O Circo Dublin.

jul 1, 2014 by

João Rego, Recife 12 de junho de 2014.

Com a ajuda de César Rego, por telefone lá de Fortaleza.

 

O espaço onde aconteciam os espetáculos era um velho curral, por trás da Casa Grande, (Rua 13 de Maio, 90); o camarim, era uma pequena cocheira em desuso, pois construída por meu avô João do Rego, a Casa Grande era um conjunto de construções composto pela Casa Grande, construção principal; ao seu lado havia uma ladeira, que à esquerda encontrava o Escritório de papai; mais para cima, a Sala de Processamento de Mel de Tio Murilo, grande estudioso da apicultura no Estado; logo depois, do lado direito, havia o portão que nos levava ao pomar, na realidade, era um grande quintal que acompanhava toda a extensão da Rua João José do Rego. Essa rua foi construída por meu avô e fica ao “pé” do Morro Bom Jesus. À esquerda, havia uma construção que servia para armazenar o que era produzido nas fazendas: café, milho, feijão, enfim, um suporte para a logística de seu João do Rego. Dali, certamente, estes grãos eram comercializados. Bem vizinho, ainda subindo a ladeira, havia a oficina, que como toda oficina, tinha o piso sujo de óleo e peças e mais peças de tratores utilizados nas fazendas. Aí, logo depois da oficina era a entrada do Circo Dublin. Um portão alto com a bilheteria ao lado, escrito em letras vermelhas, bi-lhe-te-ria em forma de arco, acompanhando a forma do buraco feito na parede pelos meus primos, os idealizadores do Circo.

Estávamos todos entre 10 e 15 anos.

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A TV Trancham e o pai.

jun 27, 2014 by

A TV Trancham e o pai.

João Rego, junho de 2014.

Meu pai não era muito chegado a investir em geringonças tecnológicas e a TV, para ele, era uma delas. Assim, este moderno equipamento veio chegar na nossa casa algum tempo depois que muitas famílias da Rua 13 de Maio, em Caruaru, já tinham essa coisa mágica que iria mudar a forma de vermos o mundo. Era muito comum ficarmos esticando o pescoçoe “pescando” da calçada os filmes, as primeiras novelas da Rede Tupi e outros programas nas casas dos vizinhos. Não sabíamos que a TV iria acabar com uma época onde os vizinhos saiam para conversar na praça ou colocar as cadeiras na calçada, à noite, para prosear.

Ela, ao mesmo tempo em que nos abria um enorme e fantástico universo de conteúdo, qual um monstro bigbrotheano, iria nos enclausurar em nossas casas.

Lembro, muito claramente, eu e mais outras pessoas –  e aí não tinha distinção de idade ou classe social, a única coisa que nos unia era a curiosidade e a enorme cara de pau de não se incomodar em incomodar o vizinho – em pé, na calçada, diante do janelão de Seu Ernesto, assistindo a novela Redenção ou a célebre e lacrimosa o Direto de Nascer. E Seu Ernesto com sua esposa, num gesto de generosa solidariedade para com nós, pobres mortais desprovidos de TV, nos acolhia sem nenhum incômodo. A horda era inconveniente, ficava dando pitacos e só faltava pedir água, café e uma bolachinha. Era como se você estivesse lendo seu jornal com um grupo de pessoas “fungando em seu cangote” para ler junto, sem ter sido convidado

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A Casa da Rua 13 de Maio, 312.

abr 30, 2014 by

João Rego, em 5 de novembro de 1993.

 

Foi nesta casa onde eu me vi construir como ser humano, portanto é também um dos principais cenários de grande parte dos meus sonhos. Ela era sinônima de segurança, era o abrigo do mundo exterior, o qual à medida que eu crescia ia ampliando os horizontes.

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O sofá e o Pai Omnipotente.

abr 30, 2014 by

*João Rego

Na sala me recordo inicialmente do sofá azul, com curvas sinuosas, espuma fina ( o que o deixava um pouco duro) e pernas de ferro. É neste sofá que tenho talvez uma das mais remotas recordação da minha vida com meu pai.

Eu me lembro de papai recém chegado de uma caçada deitado no sofá, sem camisa brincando comigo, pelo meu tamanho é possível imaginar que a minha idade era por volta de 2 anos, no máximo três. Eu pulava brincando de cavalinho em seu peito forte e cheio de cabelos. Me recordo da intensa alegria e da forte sensação de conforto e admiração por ter um pai tão forte e bom[1].

Tempos depois, esse sofá foi substituído por um conjunto de três cadeiras confortáveis separadas por duas tábuas, supostamente colocadas para servir de suporte para cinzeiro. Foram estas três cadeiras que nos acompanhou até Recife após a morte de papai.

***

É importante destacar que essa imagem do pai bom e onipotente vai ao longo da psicanálise assumindo a sua forma mais real, inclusive com características ambivalentes de amor e ódio, fruto da tragédia edipiana, da qual nenhum ser humano escapa e é o próprio momento estruturador do indivíduo.

 

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João Rego
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Caruaru, a feira e o pai.

abr 30, 2014 by

Crônica de um Sábado Chuvoso

João Rego

Recife, 04 de setembro de 1999

Hoje acordei e estava chovendo. Gosto muito da chuva, especialmente se ela ocorre pela manhã e é bem fraquinha. Não tenho dúvidas que isto me remete a um passado cheio de felicidade, que é o período da infância. As férias na Fazenda Vasante em Caruaru onde, junto com os primos e colegas acordávamos o mais cedo possível para avisar, aos gritos, que era o primeiro na fila do leite. Enchíamos as nossas canecas e copos de Toddy e açúcar, e partíamos para a cocheira que ficava a uns 300 m da casa da fazenda.

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O banquinho da bicicleta Hércules, meu pai e a apresentação ao mundo.

abr 30, 2014 by

*João Rego

Vem-me involuntariamente, a memória do meu pai me conduzindo até a fazenda Cachoeira das Onças. O meio de transporte era a sua bicicleta Hércules. Eu ia ainda pequeno, creio 3 ou 4 anos, sentado num banquinho especial que ficava instalado no quadro. Esse banquinho era de madeira e zinco, especialmente desenhado por ele e mandado fazer por um marceneiro, Sr. Miguel. A posição onde o banco era instalado, possibilitava, em um caso de um buraco ou um tropeço qualquer da bicicleta, os braços do meu pai me segurarem de imediato. Portanto era um esquema bastante seguro.

É forte a sensação de alegria e proteção de estar sendo apresentado ao mundo,  através do meu pai. O clima frio e gostoso de Caruaru, o cheiro do mato orvalhado, os pés de avelós utilizados como cerca. Tudo era encantamento e excitação dentro de mim, garantido por uma áurea invisível, naquele momento, que era o amor, a proteção desse pai forte e bom.

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João Rego
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إيروس وثانتوس

 

 

 

 

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Cenas avulsas da minha infância.

abr 30, 2014 by

*João Rego.

Noto que cenas  da minha infância surgem do inconsciente sem nenhuma solicitação de minha parte. É como um filme antigo que eu tivesse me recusado, durante anos, a ver, e de repente, algum controlador desses filmes (o inconsciente) insiste em me exibir.

Na maioria das vezes são cenas agradáveis, bucólicas que me envolvem com uma sensação de prazer e segurança. Esta segurança é transmitida pela figura dos pais, e pela casa sólida e enorme em que nós morávamos.

Devo anotar item por item dessas lembranças e depois convertê-las em crônicas da minha vida:

-O pé de castanhola próximo ao sobrado da praça Cel. Porto

-A alfaitaria de Sr. Nelson, onde papai costumava ir lá bater papo.

-O cachorro branco, pequeno e chato que pertencia a casa da frente de casa, passava as horas correndo atrás dos carros. Acho que era do vizinho de seu João Rosas – o dono da padaria.

-A sensação de onipotência e o desejo de conquistar o “mundo” que a visão do alpendre da casa de vovô Elídio me causava. De lá era possível se ver o Campo de Monta, o Matadouro público e as curvas do Rio Ipojuca. Sentia um desejo enorme de partir e conquistar o mundo, que na minha visão era logo depois do primeiro morro da linha do horizonte. Acho que eu tinha 9 ou 10 anos, e ficava horas em estado de contemplação.

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João Rego
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As férias na casa de Lulú.

abr 30, 2014 by

*João Rego.

As férias na casa de Lulú eram sempre momentos extremamente prazeirosos. Lá eu era tratado com exclusividade de um filho único. Passava horas vasculhando, no quarto de empregada, a coleção de revistas “O Cruzeiro” de Tio Zezé. Lia seus livros, em sua grande maioria eram atlas geográficos e de Ciências Naturais, ouvia seus discos clássicos (lembro-me que tinha um disco de List). Durante as tardes eu ficava ansiosamente esperando a televisão entrar no ar, e passava as tardes me deleitando com aquela programação que hoje lembro com saudades. A televisão era em preto e branco mas a sensação e a expectativa diante da programação era muito grande.

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