A Vazante – fragmentos 1.

jul 26, 2014 by

João Rego.

Acordo no meio da noite e, desobedecendo a orientação da minha nutricionista, preparo um copo de leite com Nescau. Começo a sorvê-lo lenta e deliciosamente com um prazer infantil de quem faz uma trela…. às memórias vêm aos borbotões, como se o inconsciente estivesse de ressaca, vomitando em golfadas os afetos e lembranças recalcados da infância.

Alguém grita:

— Primeiro!!

Outro,

— Segundo!

Mais um,

— Eu já disse segundo antes de você.

— Mas ninguém ouviu, prove!

Estávamos em um dos quartos da Casa da Fazenda Vazante, a mais próxima de Caruaru, onde toda a família, juntos com primos e amigos passavam a invernada das férias de julho. A gritaria, neste quarto amplo e cheio de camas e beliches, ocorria todos os dias às cinco horas da manhã. O motivo?Ser o primeiro na fila do leite das vacas ordenhadas por José Valentão que, às 4:30 já estava na labuta separando os bezerros das vacas.

Nossas mães preparavam os copos com porções de Toddy e saíamos em fila indiana, alguns vestidos ainda de pijama de flanela, em direção a vacaria: Mimosa, Pretinha, Malhada e muitas outras, Zé Valentão as chamava pelos nomes e elas o obedeciam numa cumplicidade mágica para mim. O clima frio, o marmeleiro ainda com o orvalho cobrindo suas folhas, as cocheiras e os currais cheios de gado, o leite ainda quente, que devido aos jatos das tetas manuseadas com maestria por Zé valentão, vinha espumando — nem precisava mexer com a colher— era bebido com a mesma avidez com que bebíamos a vida na infância.

O indefectível e maravilhoso cheiro de bosta de boi coroava o cenário.

O dia estava apenas começando, onde as aventuras trançavam o tempo em momentos de excitação e prazer como a caça ao preá. O cachorro que pertencia a um dos moradores era rápido e certeiro e, por engenhosidade de alguém, deram-lhe o nome mais adequado que se poderia imaginar para um cão de caça: Vai. E Vai ia. A gente gritando vai Vai! vai Vai! no meio do capim elefante, correndo com dificuldades para alcançá-lo na beira do Rio Ipojuca. Vai pulava e desaparecia pelo meio daquele emaranhado e quase sempre saia com um preá na boca. Outra forma de caçar o delicioso rato do mato – sim, o comíamos assado no sal e brasa na casa de Seu Ireno, que sempre tinha paciência para nos receber e fazer o fogo com a lenha apanhada no terreiro — era preparar as aratacas, armadilhas rústicas, engenhosamente preparadas por nós. Trançadas com pequenos gravetos, as fazíamos, em formato retangular as tampas; depois saíamos, qual Sherlocks Holmes a investigar milimetricamente uma vasta área do cercado até identificar o caminho que as pequenas criaturas deixavam no seu vai e vem para se alimentar e caçar. Cavávamos um buraco no meio das minúsculas trilhas, era possível identificar os rastros pelas marcas dos pezinhos, e deixávamos, à noite, as armadilhas prontas para a captura. Um graveto apoiava a tampa aberta tendo, na outra extremidade, uma base de pedra; os preás, confiantes na segurança das suas trilhas, quando saiam à noite para se alimentarem, quase todos apressadinhos, batiam no pau que suportava a tampa e caiam no buraco, não muito profundo, mas suficiente para, com a tampa presa por cima, aprisioná-los. No outro dia fazíamos a coleta, metendo a mão na cumbuca e, rapidamente, torcendo-lhes o pescoço, para matá-los.

***

O Rio Ipojuca, que no inverno era uma beleza, serpenteando toda a extensão da Vazante, vinha lá das bandas de São Caetano e seguia atravessando toda a cidade. A pescaria tinha sempre um ritual, para muitos, nojento, que era apanhar as minhocas no leeiro de Zé Damião. Havia uma arte em enfiar a minhoca no anzol e, quase sempre, a paciência e o trabalho eram recompensados pelas piabas, traíras e acarás que pescávamos. Se déssemos sorte, podíamos pescar um muçum, espécie de enguia preta que vivias nas margens do rio, que assado no toicinho e servido com farinha, comíamos com sofreguidão, aos punhados.

Zé Damião tinha uma casa no extremo norte dos limites da Vazante e plantava coentro, alface, cebolinho, quiabo e tomate para vender na feira. Passava, com a regularidade de um relógio, montado em sua burrinha, coitada, espremida pelo peso dele que era gordo e careca e tinha um caso, soube depois, com Maria Dadá, minha babá. Pois bem, a jumenta com seu passo pinicado parecia os ponteiros de um relógio, com sua passada constante, levando Zé Damião para cidade de manhã e o trazendo a tardezinha, quase anoitecendo.

É muito viva em mim esta volta, por que era a Hora do Ângelus na Rádio Difusora, declamada em tom lacrimosamente solene por Alziro Zarur. Esta era também a hora do coaxar dos sapos; do cheiro de café feito por Dadá no velho coador de pano, que se espalhava e me alcançava na rede da varanda. Na frente da casa, um único poste de luz amarela e fraca preparava o cenário para a burrinha de Zé Damião passar. E lá vinha a dupla, ele com os pés quase arrastando no chão, a barriga enorme e a burrinha firme e forte sem alterar o ritmo do seu trote. Cumprimentava-nos à moda antiga, tirando o chapéu de palha, e seguia estrada adentro. Nesta estrada, 400 metros depois da Casa da Fazenda, tinha uma cova com uma cruz sinalizando que alguém morrera de morte matada. Todos respeitavam e se benziam quando passavam por lá, principalmente à noite.

Não lembro bem do texto da oração do Ângelus, sei que começava com a Ave Maria, mas sentia uma angústia gratuita de tanta culpa e perdão que se falava. Era como se fosse pecado existir e ser feliz, isto me acompanhou até a vida adulta. Não podia ouvir aquela oração que uma tristeza inexplicável mim invadia.

Lá em cima, a Vazante ficava num vale, passavam os caminhões de carga na pista (era como chamávamos a BR232), fazendo com que o barulho característico de seus motores, ampliados pelo eco do vale, nos envolvesse. Dormíamos embalados ao som destes motores ecoando pelo vale, que vinha bem baixinho das bandas do sertão, ia subindo, subindo, subindo… para depois, baixar, baixar, baixar… e desaparecer rumo a cidade. Após curto intervalo de um silêncio total, outro caminhão pegava o bastão, como se tivessem combinado, e começava tudo de novo.

 ***

Foi lá que aprendi, sozinho, a andar de bicicleta. Pegava a velha bicicleta Hércules de meu pai, subia empurrando ladeira acima, aprumava um dos pedais num degrau da casa de um morador que não lembro o nome, só me lembro que lá comia feijão em punhados com farinha, misturado com coentro, cebolinha e um pouquinho de pimenta. Tudo amassado com a mão e com a mão comíamos. Bem, meu método de aprender a andar de bicicleta era bastante eficaz, porém muito doloroso. A ladeira era um caminho que ia dar na entrada da Casa da Fazenda, dos dois lados as cercas de arame farpado e aveloz faziam um estreito corredor, eu munido de coragem e do desejo enorme de aprender a andar na magrela, impulsionava a bicicleta e me lançava ladeira abaixo. Só tinha duas opções: eu acertava no equilíbrio, e ia direto até a entrada da fazenda; ou me lascava nas cercas de arames farpados e aveloz, me estatelando no chão. Obviamente foram necessárias duas ou três tardes da segunda opção, caindo, levantando e empurrando a bicicleta ladeira acima, repetidas vezes até que, no terceiro dia entrei triunfalmente, todo lanhado, sob o olhar animado dos moradores, no pátio da Vazante.

A vida, mais tarde, me mostraria que as quedas e recomeços não eram privilégio da infância.

 Julho, 2014

***

DITOS & ESCRITOS
João Rego
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Introdução ao Grupo País de Caruaru

jul 8, 2014 by

João Rego. Junho de 2014

Sejam bem vindos ao Grupo País de Caruaru!

É um grupo criado no Facebook e formado por caruaruenses de várias gerações, lá pelos anos 60, que hoje vivem em outras terras e desejam, com certa nostalgia, resgatar estórias, causos e fatos&fotos daquela época.

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A Pedra.

jul 7, 2014 by

João Rego, Julho de 2014.

Quando criança em Caruaru, aos meus sete anos, lembro-me de um personagem muito marcante no cenário da minha vida. Era Chico, um negro jovem, alto e muito forte. Era um dos vaqueiros da Fazenda Trapiá, da família Rego, que ficava logo após São Caetano, cidade vizinha a Caruaru.

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A Casa Grande de Seu João do Rego e Dona Ernestina

jul 1, 2014 by

A Casa Grande de Seu João do Rego e Dona Ernestina – Meus avós paternos.

João Rego, junho de 2014.

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três….
(João e Maria – Chico Buarque)

 

A Casa Grande ficava na Praça Cel. Porto, 90, logo após o fim da Rua13 de Maio, que terminava na 312, minha casa. Esta casa, que nos parecia naturalmente eterna, era o símbolo do sucesso do empreendedor que foi Seu João do Rego, meu avô, como era conhecido. Aos dezesseis anos, vindo das bandas de Águas Belas-, chegou em Caruaru, junto com dois irmãos, com a corda e a cachorra, como se diz, e foi trabalhar de auxiliar de açougueiro lá no Mercado de Carne; isso, antes de 1900. Sair Águas Belas, terra da Tribo Fulni-ô, naquela época, era um ato de extrema coragem, pois era um lugar isolado do resto do mundo.

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Rua 13 de Maio, 264 – A Casa de Marcos, Carlinhos e Elaine.

jul 1, 2014 by

RUA 13 DE MAIO, 264 – A Casa de Marcos, Carlinhos e Elaine.

A Casa de Marcos, Carlinhos e Elaine.
Filhos de Sr. Zeza e Dona Débora.

João Rego, Domingo, 8 de junho de 2014

Lembro de Dona Débora, era uma mulher jovem e bela. Tinha um rosto fino e delicado e estava – nas vezes que ia brincar com Carlinho em sua casa – sempre trabalhando em uma máquina de costura.  A máquina de costura ficava na sala, logo na entrada da casa, seguia-se um corredor que levava aos quartos e chegava-se até a copa e a cozinha. É muito viva na memória, o jogo de futebol de botão em um “campo” que ficava na cozinha. Ficávamos horas jogando, cada um com seu time e seus jogadores polidos com esmero para ter um bom desempenho em campo. Após o jogo, todos os jogadores eram zelosamente guardados em um estojo de flanela com várias casinhas – pequenos bolsos – para cada um deles.

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Os locais de bate-papo de Meu Pai.

jul 1, 2014 by

Rua 13 de maio e arredores – Os locais de bate-papo de Meu Pai.

 João Rego, Recife, 14 de Junho de 2013.

 

Maurílio Rego, Seu Lila, como era mais conhecido, como bom contador de estórias, causos e piadas, tinha o dom e o timing para isso. Juntava sempre amigos ao seu redor, ou então, depois do trabalho ia ao encontro dos mais diversos personagens da Rua 13 de maio e arredores; sapateiros, marceneiros; seleiros e, aos sábados, no Bar de Chaguinhas finalizava a semana.

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Rua 13 de Maio, Caruaru – O Circo Dublin.

jul 1, 2014 by

João Rego, Recife 12 de junho de 2014.

Com a ajuda de César Rego, por telefone lá de Fortaleza.

 

O espaço onde aconteciam os espetáculos era um velho curral, por trás da Casa Grande, (Rua 13 de Maio, 90); o camarim, era uma pequena cocheira em desuso, pois construída por meu avô João do Rego, a Casa Grande era um conjunto de construções composto pela Casa Grande, construção principal; ao seu lado havia uma ladeira, que à esquerda encontrava o Escritório de papai; mais para cima, a Sala de Processamento de Mel de Tio Murilo, grande estudioso da apicultura no Estado; logo depois, do lado direito, havia o portão que nos levava ao pomar, na realidade, era um grande quintal que acompanhava toda a extensão da Rua João José do Rego. Essa rua foi construída por meu avô e fica ao “pé” do Morro Bom Jesus. À esquerda, havia uma construção que servia para armazenar o que era produzido nas fazendas: café, milho, feijão, enfim, um suporte para a logística de seu João do Rego. Dali, certamente, estes grãos eram comercializados. Bem vizinho, ainda subindo a ladeira, havia a oficina, que como toda oficina, tinha o piso sujo de óleo e peças e mais peças de tratores utilizados nas fazendas. Aí, logo depois da oficina era a entrada do Circo Dublin. Um portão alto com a bilheteria ao lado, escrito em letras vermelhas, bi-lhe-te-ria em forma de arco, acompanhando a forma do buraco feito na parede pelos meus primos, os idealizadores do Circo.

Estávamos todos entre 10 e 15 anos.

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Introdução ao Módulo Psicanálise

jun 30, 2014 by

João Rego, junho de 2014

Creio que o retorno aos textos freudianos, que foram objeto de meus ensinamentos nos últimos dois anos, deu-me a certeza cada vez maior de que não há apreensão mais ampla da realidade humana do que aquela que é feita pela experiência freudiana.
LACAN, Jacques in Le symbolique, l’imaginaire et le réel – Bulletin de l’Association freudienne, No. 1, nov, 1982.

 

Sobre os Artigos

A psicanálise se impôs à minha vida como uma ajuda possível ao meu espirito quebrado, diante de tantas desconstruções de ideologias, — assim como da práxis política —, e certezas que havia “religiosamente” acreditado e vivido. Nada agora tinha mais validade, uma realidade histórica que, antes sólida, naquele momento, se desmanchava no ar, parafraseando Karl Marx.

Isso foi no período do fim da experiência “comunista” na União Soviética simbolizado em 1989 com a queda do Muro de Berlim.

Após ter perdido o pai biológico, aos treze anos, agora perdia os pais míticos, ou seja, ídolos e ideologias políticas que me sustentaram durante parte importante da minha vida. Estava eu com trinta e três anos quando, destroçado, demandei análise.

Foi na instituição Traço Freudiano, Veredas Lacanianas e, principalmente através da análise pessoal, que fiz minha formação psicanalítica. A prática clínica, veio como decorrência natural da apresentação de trabalhos em Seminários e encontros, possibilitando demandas de analisantes. Durante uma rica década, exerci a prática clínica da psicanálise, sempre associada a prática de leitura nas instituições (Um analista isolado é uma espécie de autista – José Zuberman). Foi um tempo de reconstrução e fortalecimento do meu universo afetivo; da ampliação da minha visão de mundo sobre o sujeito e a sociedade; assim como a compreensão da cultura como “um resto” deste conflito estruturante entre estas duas vertentes que move nossa humanidade: pulsão e civilização, sujeito e sociedade, ou se preferirem, Eros e Thanatos.

São textos, em sua grande maioria, datados—, ou seja, para lê-los é preciso o leitor se situar no momento em que foi escrito—, mas nem por isso os descarto sabendo da sua importância para construção da minha formação intelectual.

Sobre Registros de uma Análise.

Linguagem, memória e inconsciente.

A linguagem é o meio que nos constitui. Não há nada que exista no mundo que não seja por ela nomeado. Se não é nomeado, não tem nome, é por que não existe, ou existe mas não foi ainda descoberto pelos homens. Nosso nome, escolhido pelos pais ou parentes; as palavras da mãe, quando ainda estamos em seu útero; nosso idioma, carregado de história e cultura; são expressões da linguagem que vão preparando os trilhamentos da nossa existência, desde a vida pré-uterina – sim, quando ainda éramos puro desejos dos pais — até muito depois da nossa morte, quando seremos apenas lembranças, em fotos, vídeos e fragmentos nas memórias daqueles que amamos, odiamos, ou simplesmente aqueles que, ao longo desse caminhar da nossa existência conhecemos.

Não há sequer pensamento sem linguagem. Um sintoma psíquico é um afeto, algo ainda em estado bruto, se debatendo em nosso mar de angústia interior, demandando uma fala, uma escrita, para ser nomeado, libertando-se (e nos libertando) das primitivas amarras do inconsciente.

O inconsciente não dá, senão traços. ( J.Lacan)

Resgatar, através da escrita, reminiscências da infância, é uma forma de lidar com um passado que, no mundo real – onde o tempo é o senhor de todas as coisas, pois a ele nada resiste —já acabou. Buscamos dar sentido a afetos vivido e guardados em nosso espírito, quando não tínhamos ainda o acesso as palavras para expressá-los. Eles, estruturados como uma linguagem, estão latentes e, para sempre, fazendo efeito em nossa formação como sujeito.

***

DITOS & ESCRITOS
João Rego
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A TV Trancham e o pai.

jun 27, 2014 by

A TV Trancham e o pai.

João Rego, junho de 2014.

Meu pai não era muito chegado a investir em geringonças tecnológicas e a TV, para ele, era uma delas. Assim, este moderno equipamento veio chegar na nossa casa algum tempo depois que muitas famílias da Rua 13 de Maio, em Caruaru, já tinham essa coisa mágica que iria mudar a forma de vermos o mundo. Era muito comum ficarmos esticando o pescoçoe “pescando” da calçada os filmes, as primeiras novelas da Rede Tupi e outros programas nas casas dos vizinhos. Não sabíamos que a TV iria acabar com uma época onde os vizinhos saiam para conversar na praça ou colocar as cadeiras na calçada, à noite, para prosear.

Ela, ao mesmo tempo em que nos abria um enorme e fantástico universo de conteúdo, qual um monstro bigbrotheano, iria nos enclausurar em nossas casas.

Lembro, muito claramente, eu e mais outras pessoas –  e aí não tinha distinção de idade ou classe social, a única coisa que nos unia era a curiosidade e a enorme cara de pau de não se incomodar em incomodar o vizinho – em pé, na calçada, diante do janelão de Seu Ernesto, assistindo a novela Redenção ou a célebre e lacrimosa o Direto de Nascer. E Seu Ernesto com sua esposa, num gesto de generosa solidariedade para com nós, pobres mortais desprovidos de TV, nos acolhia sem nenhum incômodo. A horda era inconveniente, ficava dando pitacos e só faltava pedir água, café e uma bolachinha. Era como se você estivesse lendo seu jornal com um grupo de pessoas “fungando em seu cangote” para ler junto, sem ter sido convidado

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A Casa da Rua 13 de Maio, 312.

abr 30, 2014 by

João Rego, em 5 de novembro de 1993.

 

Foi nesta casa onde eu me vi construir como ser humano, portanto é também um dos principais cenários de grande parte dos meus sonhos. Ela era sinônima de segurança, era o abrigo do mundo exterior, o qual à medida que eu crescia ia ampliando os horizontes.

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O sofá e o Pai Omnipotente.

abr 30, 2014 by

*João Rego

Na sala me recordo inicialmente do sofá azul, com curvas sinuosas, espuma fina ( o que o deixava um pouco duro) e pernas de ferro. É neste sofá que tenho talvez uma das mais remotas recordação da minha vida com meu pai.

Eu me lembro de papai recém chegado de uma caçada deitado no sofá, sem camisa brincando comigo, pelo meu tamanho é possível imaginar que a minha idade era por volta de 2 anos, no máximo três. Eu pulava brincando de cavalinho em seu peito forte e cheio de cabelos. Me recordo da intensa alegria e da forte sensação de conforto e admiração por ter um pai tão forte e bom[1].

Tempos depois, esse sofá foi substituído por um conjunto de três cadeiras confortáveis separadas por duas tábuas, supostamente colocadas para servir de suporte para cinzeiro. Foram estas três cadeiras que nos acompanhou até Recife após a morte de papai.

***

É importante destacar que essa imagem do pai bom e onipotente vai ao longo da psicanálise assumindo a sua forma mais real, inclusive com características ambivalentes de amor e ódio, fruto da tragédia edipiana, da qual nenhum ser humano escapa e é o próprio momento estruturador do indivíduo.

 

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João Rego
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Caruaru, a feira e o pai.

abr 30, 2014 by

Crônica de um Sábado Chuvoso

João Rego

Recife, 04 de setembro de 1999

Hoje acordei e estava chovendo. Gosto muito da chuva, especialmente se ela ocorre pela manhã e é bem fraquinha. Não tenho dúvidas que isto me remete a um passado cheio de felicidade, que é o período da infância. As férias na Fazenda Vasante em Caruaru onde, junto com os primos e colegas acordávamos o mais cedo possível para avisar, aos gritos, que era o primeiro na fila do leite. Enchíamos as nossas canecas e copos de Toddy e açúcar, e partíamos para a cocheira que ficava a uns 300 m da casa da fazenda.

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O banquinho da bicicleta Hércules, meu pai e a apresentação ao mundo.

abr 30, 2014 by

*João Rego

Vem-me involuntariamente, a memória do meu pai me conduzindo até a fazenda Cachoeira das Onças. O meio de transporte era a sua bicicleta Hércules. Eu ia ainda pequeno, creio 3 ou 4 anos, sentado num banquinho especial que ficava instalado no quadro. Esse banquinho era de madeira e zinco, especialmente desenhado por ele e mandado fazer por um marceneiro, Sr. Miguel. A posição onde o banco era instalado, possibilitava, em um caso de um buraco ou um tropeço qualquer da bicicleta, os braços do meu pai me segurarem de imediato. Portanto era um esquema bastante seguro.

É forte a sensação de alegria e proteção de estar sendo apresentado ao mundo,  através do meu pai. O clima frio e gostoso de Caruaru, o cheiro do mato orvalhado, os pés de avelós utilizados como cerca. Tudo era encantamento e excitação dentro de mim, garantido por uma áurea invisível, naquele momento, que era o amor, a proteção desse pai forte e bom.

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João Rego
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Cenas avulsas da minha infância.

abr 30, 2014 by

*João Rego.

Noto que cenas  da minha infância surgem do inconsciente sem nenhuma solicitação de minha parte. É como um filme antigo que eu tivesse me recusado, durante anos, a ver, e de repente, algum controlador desses filmes (o inconsciente) insiste em me exibir.

Na maioria das vezes são cenas agradáveis, bucólicas que me envolvem com uma sensação de prazer e segurança. Esta segurança é transmitida pela figura dos pais, e pela casa sólida e enorme em que nós morávamos.

Devo anotar item por item dessas lembranças e depois convertê-las em crônicas da minha vida:

-O pé de castanhola próximo ao sobrado da praça Cel. Porto

-A alfaitaria de Sr. Nelson, onde papai costumava ir lá bater papo.

-O cachorro branco, pequeno e chato que pertencia a casa da frente de casa, passava as horas correndo atrás dos carros. Acho que era do vizinho de seu João Rosas – o dono da padaria.

-A sensação de onipotência e o desejo de conquistar o “mundo” que a visão do alpendre da casa de vovô Elídio me causava. De lá era possível se ver o Campo de Monta, o Matadouro público e as curvas do Rio Ipojuca. Sentia um desejo enorme de partir e conquistar o mundo, que na minha visão era logo depois do primeiro morro da linha do horizonte. Acho que eu tinha 9 ou 10 anos, e ficava horas em estado de contemplação.

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As férias na casa de Lulú.

abr 30, 2014 by

*João Rego.

As férias na casa de Lulú eram sempre momentos extremamente prazeirosos. Lá eu era tratado com exclusividade de um filho único. Passava horas vasculhando, no quarto de empregada, a coleção de revistas “O Cruzeiro” de Tio Zezé. Lia seus livros, em sua grande maioria eram atlas geográficos e de Ciências Naturais, ouvia seus discos clássicos (lembro-me que tinha um disco de List). Durante as tardes eu ficava ansiosamente esperando a televisão entrar no ar, e passava as tardes me deleitando com aquela programação que hoje lembro com saudades. A televisão era em preto e branco mas a sensação e a expectativa diante da programação era muito grande.

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Seminários de Lacan com Paulo Medeiros

abr 28, 2014 by

O que é a paranoia? Senão uma tentativa de organizar a razão, de organizar o conhecimento, de organizar o saber. (Paulo Medeiros)

Paulo Medeiros, psicanalista e fundador do Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise, morreu em fevereiro de 2008. Era Carnaval.

Hoje, 28 de abril de 2014, portanto, seis anos depois, organizando meus textos para publicar em meu site joaorego.com encontro estas aulas gravadas por mim, quando participei do Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise.

Já havia perdido os arquivos em meu computador, encontrei estas gravações que publiquei no site da Sony. Estavam, como sempre estiveram, disponíveis ao público só que perdido nesse emaranhado virtual da internet.

Coloco a disposição dos interessados sobre o tema:

Recomenda-se o uso do Internet Explorer.

Curso de Introdução ao Pensamento de Lacan

OBS. Quando clicar no link, você será enviado para o site da Sony. Clique em PLaySong para começar a ouvir nossa conversa.

Aula 1 – Por Paulo Medeiros 1.1.2. O estádio do espelho Aula em 22 SET 06.

Aula 2 – Segunda aula sobre o Estádio do Espelho por Paulo Roberto Medeiros

Aula 3 – Comentário de João Rego sobre a palestra de Lacan em 1956 Freud no século.

Aula 4 – A aula foi iniciada com a continuação dos comentários de João Rego sobre a palestra “Freud no Século” proferida por Lacan em 1956. Paulo Medeiros aborda a questão da relação do significante e do sujeito.

 

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João Rego
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Debate sobre Psicanálise 150 anos nascimento Freud

abr 28, 2014 by

Programa realizado pela Rádio Universitária AM em Maio de 2006 com: Fátima Quintas – entrevistadora João Rego – Psicanalista do Traço Freudiano Sandra Walter – psicanalista da IPB Maria Luiza Rodrigues – Psicanalista da IPB

Entrevista Rádio Universitária AM (UFPE)
Debate 150 anos do nascimento de Freud clique aqui >>

ATT Após abrir a página, clique em Play Song

 

 

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O Complexo de Castração e o percurso da análise

abr 28, 2014 by

O Complexo de Castração e o percurso da análise – anotações esparsas

João Rego[1]

Recife, maio de 1998

 Texto apresentado na II Jornada do Traço Freudiano Veredas Lacaniana

Recife 22/23 de maio de 1998

 

Em psicanálise, o conceito de “castração” não corresponde à acepção habitual de mutilação dos órgãos sexuais masculinos, mas designa uma experiência psíquica completa, inconscientemente vivida pela criança por volta dos cinco anos de idade, e decisiva para a assunção de sua futura identidade sexual. (…) o complexo de castração, que apresentaremos como uma etapa na evolução da sexualidade infantil, não se reduz a um simples momento cronológico. Ao contrário, a experiência inconsciente da castração é incessantemente renovada ao longo de toda a existência e particularmente recolocada em jogo na cura analítica do paciente adulto. Um dos objetivos da experiência analítica é, com efeito, possibilitar e reativar na vida adulta a experiência que atravessamos na infância: admitir com dor que os limites do corpo são mais estreitos do que os limites do desejo. (NASIO, J.D.p13 in Lições sobre os 7 Conceitos Cruciais da Psicanálise)

 

CASTRAÇÃO

O Complexo de Castração esta experiência psíquica que Nasio tão bem define, compõe com o Complexo de Édipo a base onde a estrutura dos desejos que funda e institui o sujeito em sua relação com o mundo, vem operar sua subjetividade. Reconhecer que os limites do corpo estão aquém dos seus desejos é admitir a quebra de um certo sentimento de onipotência que o Eu insiste em sustentar, em nossa relação imaginária com o outro. É a quebra de uma forma idealizada de ser no mundo.

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Reflexões sobre a Instituição e seus vínculos.

abr 28, 2014 by

João Rego

Recife, 11 de agosto de 1998

Aos colegas do Traço:

Havia me comprometido a escrever minhas impressões sobre a decisão do Traço integrar Convergência. A finalidade do texto seria dar início a um outro mais formal que pudesse ser, digamos assim, o documento de formalização da entrado do Traço na Convergência. Apesar de me esforçar não encontrei tempo para fazê-lo, estou envolvido com duas mudanças (casa e consultório) que tem me impossibilitado parar para ler e escrever. Foi, entretanto, instigado pela mensagem de Teodora que na hora de responder saiu o texto que abaixo coloco para vocês. Com lapso e tudo.

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A Formação do Analista: por onde passa?

abr 28, 2014 by

João Rego, agosto de 1999. Texto apresentado na Jornada do Traço Freudiano Veredas Lacanianas – Escola de Psicanálise.

João Rego[1]

 

1.)Primeiro, um princípio: o psicanalista é autorizado apenas por si mesmo. Este princípio está inscrito nos textos originais da École, e decide sua posição

2.)Isto não exclui que a École garanta que um analista depende de sua formação. Ela pode fazê-la por si mesma.

3.)E o analista pode querer esta garantia, coisa que, a partir de então, deve necessariamente ir além: tornar-se responsável pelo progresso da Escola, tornar-se psicanalista de sua própria experiência (Jacques Lacan, in Proposição de 9 de outubro de 1967 – Sobre o Psicanalista da École)

O AUTORIZAR-SE

O primeiro parágrafo destacado acima é certamente o texto mais conhecido e polêmico de Lacan sobre a Formação do Analista. Este autorizar-se, porém, precisa ser necessariamente contextualizado historicamente a fim de evitar equívocos na sua interpretação. Recorremos a Elizabeth Roudinesco (cf. ROUDINESCO, 1989) para darmos um mergulho na compreensão dos fatos que provocaram a dissidência de Lacan com as instituições detentoras da herança deixada por Freud.

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Paulo e a transmissão da psicanálise

abr 28, 2014 by

Paulo e a transmissão da psicanálise ou Wo Es war, soll Ich werden.

*João Rego

“O discurso psicanalítico como efeito da destituição subjetiva, egóica, do sujeito ao inconsciente a partir do discurso histérico, deveria ser capaz, por si só, de assegurar a transmissão da psicanálise, guardando sua diferença na formação de psicanalistas em relação a outros discursos estruturados em torno do mestre e do universitário. Seu traço diferenciador se realiza na castração e subjetivação da morte.

Enfim, essas publicações endereçam-se, sobretudo, àqueles que, por fraqueza ou coragem, se submeteram ao divã de algum analista para falar das suas angústias, dos seus fantasmas, dos seus medos, de suas faltas e de sua incompletude, bem como àqueles que desejam acolher essas falas em sua escuta.” Paulo Medeiros ( apresentando as publicações do Traço)

 

Lembro muito de Lacan, quando disse que tudo que falou e escreveu foi na situação de analisante e não de analista.

É surpreendente esta afirmação, pois aponta para um saber que emerge direto, efeito do inconsciente, com a função de transmitir a psicanálise, herança (Maldita?? A peste?) deixada por Freud para aqueles que o seguiram.

Paulo, não fez outra coisa na vida com tanta intensidade, paixão e método do que transmitir esse saber, na clínica e nas instituições.

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Sobre a Psicanálise.

abr 28, 2014 by

*João Rego

Creio que o retorno aos textos freudianos, que foram objeto de meus ensinamentos nos últimos dois anos, deu-me a certeza cada vez maior de que não há apreensão mais ampla da realidade humana do que aquela que é feita pela experiência freudiana.(LACAN, Jacques in Le symbolique, l’imaginaire et le réel – Bulletin de l’Association freudienne, No. 1, nov, 1982)

Esta ‘experiência freudiana ’ a qual o texto de Lacan se refere, define a dimensão da psicanálise em um contexto que situa o homem e seus desejos de forma antagônica a civilização. Esta última tem a função de interditar, através da lei, grande parte da realização destes desejos. Em Totem e Tabu e no Mal Estar na Civilização, que definimos como as principais obras do pensamento social de Freud, este situa o homem fundado em um impasse insolúvel: o ser e suas pulsões – aquilo que tem de mais primitivo e essencial dentro da gente -, só vem garantir a passagem do estado de natureza para o estado de sociedade, através da interdição da realização desta pulsão.

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Condensação e Deslocamento: uma reflexão sobre os mecanismos da emergência do desejo

abr 28, 2014 by

João Rego[1]

Texto apresentado na 1a. Jornada do Traço Freudiano,

Recife 12 de abril de 1997

 

 Permitam-nos agora, num vôo da imaginação, supor que Roma não é uma habitação, mas uma entidade psíquica, com um passado semelhantemente longo e abundante – isto é, uma entidade onde nada do que outrora surgiu desapareceu e onde todas as fases anteriores de desenvolvimento continuam a existir, paralelamente à última. Isso significaria que em Roma, os palácios dos césares e as Septizonium de Sétimo Severo ainda se estariam erguendo em sua antiga altura sobre o Palatino e que o castelo de Santo Ângelo ainda apresentaria em suas ameias as belas estátuas que o adornavam até a época do cerco pelos godos, e assim por diante. Mais do que isso: no local ocupado pelo Palazzo Caffarelli, mais uma vez se ergueria – sem que o Palazzo tivesse de ser removido  -, o Templo de Júpiter Capitolino, não apenas em sua última forma, como os romanos do império o viam, mas também na primitiva, quando apresentava formas etruscas e era ornamentado por antefixas de terracota. Ao mesmo tempo, onde hoje se ergue o Coliseu, poderíamos admirar a desaparecida Casa Dourada, de Nero. Na Praça do panteão encontraríamos não apenas o atual, tal como legado por Adriano, mas, aí mesmo, o edifício original levantado por Agripa; na verdade, o mesmo trecho de terreno estaria sustentando a Igreja de Santa Maria sobre Minerva e o antigo templo sobre o qual ela foi construída. E talvez o observador tivesse apenas de mudar a direção do olhar ou a sua posição para invocar uma visão da outra. (FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização) (FREUD, S. 1930[1929])

 

Com seu brilhante estilo literário Freud apresenta nesse texto, como o inconsciente se constitui e opera em suas condensações, deslocamentos e na menos famosa – mais nem por isso desprezível -, figurabilidade. Distingue as formas operativas do aparelho psíquico das existentes no mundo fenomenológico, aquele que estamos acostumados a sentir. No exemplo acima, ele tenta com muita objetividade, apresentar as formas de organização do aparelho psíquico descrevendo a simultaneidade como o ambiente onde as representações psíquicas trafegam com desenvoltura. Diante dos elementos que compõem a estrutura psíquica do sujeito, o tempo é absolutamente dissolvido em sua ação transformadora.

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O Homem dos Lobos: reflexões sobre o Fantasma em Freud

abr 28, 2014 by

*João Rego

Responde-me! Não me atormentes com a ignorância! Deixa-me saber porque teus ossos abençoados, sepultos na morte, rasgaram assim a mortalha em que estavam? Por que teu sepulcro, no qual te vimos quietamente depositado, abriu suas pesadas mandíbulas marmóreas para jogar-te novamente para fora? Que significa, corpo defunto, novamente revestido de aço, tua nova visita aos pálidos fulgores da lua, enchendo a noite de pavor? E nós, pobres joguetes da natureza, precisamos contemplar nosso ser tão horrivelmente agitado com pensamentos além do alcance de nossas almas?  Hamlet, pela primeira vez, diante do espectro do pai – (HAMLET, PRÍNCIPE DA DINAMARCA – William Shakespeare – ato primeiro, cena IV)

 

O fantasma, ou fantasia[1], é identificado por Freud, notadamente no caso do Homem dos Lobos (FREUD: 1918[1914]) como marcas inconscientes da estrutura psíquica do sujeito, que se impõem em momentos da pré-história deste como formas de apreensão de uma realidade edípica que estrutura e funda o ser desejante. Diferente de outras formações do inconsciente, é dramaticamente indestrutível, moldando (se), desdobrando (se) e repetindo-se na história do sujeito, definindo sua organização genital, imprimindo sua marca na sexualidade, nas suas relações de objeto e está contido nos sintomas como o agente fantasmaticamente aterrorizante e interrogador do sujeito e de seu dilema de existir.

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A Fobia em Lacan

abr 28, 2014 by

A Fobia em Lacan : reflexões sobre A Relação de Objeto e As Estruturas Freudianas.

*João Rego

 

Ia até o local da água, lambia a umidade da parede, durante uma, duas horas. Isso era uma tortura, o tempo não tinha mais fim, o tempo em que o mundo real lhe queimava a pele. Arrancava alguns pedaços de musgo e líquen das pedras, engolia-os, agachava-se, cagava enquanto comia, – rápido, rápido, tudo tinha que ser rápido – e, como se fosse caçado, como se fosse um animalzinho de carne macia e lá no céu já andassem os urubus em círculos, ele corria de volta à sua caverna, até o fim da galeria, onde estava estendida a manta. Aí finalmente estava seguro.(O PERFUME, Patrick Süskind)

 

O texto lido acima relata o autoexílio do personagem Jean-Baptiste Grenouille. Sete anos vivendo dentro de uma caverna, se alimentando de musgos, insetos e de seus desejos, os quais  tão bem sabia realizá-los em seus delírios. Um isolamento involuntário do mundo. É possível também interpretá-lo como uma excelente metáfora para a ágorafobia.

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Pulsão e repetição: tecendo a vida e a morte.

abr 28, 2014 by

João Rego*

 Texto apresentado na X Jornada Freud Lacaniana, Recife 5 e 6 de novembro de 2004.

 A morte tece seu fio de vida feita ao avesso. (Desenredo. Dori Caymmi e Paulo Cezar Pinheiro)

Em seu Mais Além do Princípio do Prazer, Freud introduz o conceito da pulsão de morte. Até então havia em seu modelo do aparelho anímico[2] a predominância do principio do prazer como uma força constante na operação do inconsciente. O sujeito do inconsciente teria então como contrapeso a obediência da realização deste princípio, a realidade, ou seja, a cultura com suas leis e impedimentos à realização de tais desejos. É o que Freud chama da prova de realidade. Este prazer é percebido como a descarga de uma “tensão desagradável” que busca um objeto e um sentido para sua finalização. A pulsão seria o estágio mais primitivo do aparelho anímico, uma espécie de combustível, que de forma latente utiliza-se das instâncias do Eu, do supereu e do Isso para dar vazão a sua natureza, o princípio do prazer. É uma quantidade de energia que alimenta incessantemente a estrutura psíquica do sujeito. Parte dessa pulsão, entretanto, não encontra a possibilidade de satisfação, pois são recalcadas aos níveis inferiores do aparelho anímico. Este inconsciente recalcado esforça-se para, por outras vias, dar vazão à descarga pulsional que é sentida pelo Eu como desprazer. O mecanismo de satisfação desse recalcado é através da compulsão a repetição, uma forma possível de lidar com sentimentos e emoções oriundos dessa instância mais intima e primitiva do homem.

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Cultura, Pulsão e psicanálise.

abr 28, 2014 by

*João Rego

Creio que o retorno aos textos freudianos, que foram objeto de meus ensinamentos nos últimos dois anos, deu-me a certeza cada vez maior de que não há apreensão mais ampla da realidade humana do que aquela que é feita pela experiência freudiana.(LACAN, Jacques in Le symbolique, l’imaginaire et le réel – Bulletin de l’Association freudienne, No. 1, nov, 1982)

 

Esta ‘experiência freudiana ’a qual o texto de Lacan se refere, define a dimensão da psicanálise em um contexto que situa o homem e seus desejos de forma antagônica a civilização. Esta última tem a função de interditar, através da lei, grande parte da realização destes desejos.

Em Totem e Tabu e no Mal Estar da Civilização, que definimos como as principais obras do pensamento social de Freud, este situa o homem fundado em um impasse insolúvel: o ser e suas pulsões – aquilo que tem de mais primitivo e essencial dentro da gente -, só vem garantir a passagem do estado de natureza para o estado de sociedade, através da interdição da realização desta pulsão.

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Hamlet, psicanálise e ciência.

abr 25, 2014 by

Hamlet, psicanálise e a tentativa de captura do sujeito pela ciência.

João Rego*

Recife, 21 de abril de 2014.

É muito comum aparecer em revistas (especializadas ou não) entrevistas com neurocientistas e outras espécimes nos comunicando um novo aparelho de alta tecnologia capaz de desvendar os mistérios do homem em seu mais recôndito universo: sua estrutura psíquica.

São milhões de dólares investidos nesta desesperada e inútil tentativa de capturar o humano e suas vicissitudes.

Esta biologização do sujeito certamente tem um fim comercial ou de dominação – sempre ela -, para produzir algo que nos afaste da depressão ou alivie uma angustiazinha aqui, outra acolá. Enfim, se eu sei tudo sobre você, principalmente sobre aquilo ao que você é alienado e determina sua existência, fazendo-o sofrer com isso, tenho a faca o queijo para sobre você impor meu saber que o fará dependente de mim, e pagará por isso.

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O Sujeito, o Desejo e a Política.

out 28, 2013 by

*João Rego

O conceito de sujeito, para a psicanálise, é o do sujeito constituído por uma falta que o funda como ser desejante. Essa é uma operação que ocorre em nossa alma e que tem sua origem no momento em que, como criança, viemos ao mundo. A princípio temos uma relação fusional com a mãe, ou seja, não somos constituídos ainda como sujeito. Nos confundimos e nos nutrimos desta fonte de vida original, que é o corpo da mãe. Com a interferência da figura paterna dá-se a interdição, que nos castra da mãe. A partir daí, seguimos a vida condenados a buscar, de forma incessante e sem êxito, o preenchimento desta falta.

É movido por esta falta que nos constituímos como sujeito, sentimos os limites do nosso corpo, criamos, amamos, e sofremos.

Sem ela cessaria o desejo, o que é a morte.

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