Cultura, Pulsão e psicanálise.

abr 28, 2014 by

*João Rego

Creio que o retorno aos textos freudianos, que foram objeto de meus ensinamentos nos últimos dois anos, deu-me a certeza cada vez maior de que não há apreensão mais ampla da realidade humana do que aquela que é feita pela experiência freudiana.(LACAN, Jacques in Le symbolique, l’imaginaire et le réel – Bulletin de l’Association freudienne, No. 1, nov, 1982)

 

Esta ‘experiência freudiana ’a qual o texto de Lacan se refere, define a dimensão da psicanálise em um contexto que situa o homem e seus desejos de forma antagônica a civilização. Esta última tem a função de interditar, através da lei, grande parte da realização destes desejos.

Em Totem e Tabu e no Mal Estar da Civilização, que definimos como as principais obras do pensamento social de Freud, este situa o homem fundado em um impasse insolúvel: o ser e suas pulsões – aquilo que tem de mais primitivo e essencial dentro da gente -, só vem garantir a passagem do estado de natureza para o estado de sociedade, através da interdição da realização desta pulsão.

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STF, elite política e sociedade civil.

abr 27, 2014 by

*João Rego

Eu vi uma negra. Ela era jovem e carregava, como um burro de carga, uma carroça cheia de lixo e dejetos, colhidos ao longo do dia para ganhar algum. Sentia-se a força de uma mulher que, com brilho nos olhos, braços musculosos, avançava puxando aquele fardo que insiste em imprimir a marca da miséria e do subdesenvolvimento do Brasil.

Aquela carroça, puxada por um homemanimal, é um símbolo multinacional da miséria que perpassa os países pobres. Como o logo da Dell ou da Microsoft, é a logomarca da miséria humana, que nos transporta para o Congo, o Haití ou a Índia.

Ao seu lado, um esquálido auxiliar – quase branco, quase negro – cuidava para que a frágil proteção de papelão não deixasse cair o fruto do seu trabalho. E eu, dentro do meu carro com ar condicionado, smartphone na mão com a internet e o mundo de conhecimento à distância de um arrastar de dedos, tive, a princípio, receio que a carroça, a qual iria passar entre meu carro e o ônibus…arranhasse meu carro.

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A Política, a religião e o engodo

abr 27, 2014 by

João Rego

 

Oito de dezembro, dia da Nossa Senhora da Conceição, padroeira do Recife. Todos os anos é a mesma correria: grande parte da classe política se empenha sofregamente em subir o morro, contrita, juntos aos fiéis. Marxistas, pós-comunistas, liberais, conservadores, neoliberais, todos unidos em devoção ao árduo trabalho da conquista do voto, por mais esdrúxula que seja a situação.

Se o grande enigma para a ciência política é porque a sociedade civil, muito maior que a minúscula classe política, não toma as rédeas do poder e controla o Estado, para a Religião é o eterno enigma indecifrável da morte e do pecado. O da Política: porque nos submetemos ao controle do Estado através da classe política? O da Religião porque precisamos de um Deus com um aparato moral para guiar as nossas vidas?

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O Pulso ainda pulsa….(Titãs)

abr 26, 2014 by

Reflexões sobre sociedade, internet e as manifestações sociais de julho de 2013.

 Para Marília que acabou de nascer. *João Rego

Tenho em minhas mãos a Revista Civilização Brasileira No. 16 de Novembro de 1967. Em sua a capa a foto de uma manifestação política, onde um jovem com óculos de intelectual carrega um cartaz que diz: NÃO SAIREMOS ENQUANTO NÃO FOREM LIBERTADOS ESTUDANTES E PADRES PRESOS! O conteúdo da revista, denso e instigante, tem artigos sobre marxismo, arte, desenvolvimento e pobreza, literatura, sindicalismo, inflação e ainda uma carta de Louis Altusser aos leitores brasileiros.

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O político, o homem e a razão cética.

abr 26, 2014 by

* João Rego

Recife, 22 de março de 2014.

Ao meu amigo David Hulak que teve parentes
incinerados nos fornos crematórios, durante o holocausto.

 

Peço licença aos leitores para apresentar algumas reflexões, que considero importantes, para aprofundarmos um pouco mais o nível da compreensão (e discussão) sobre o universo da política. A primeira é sobre a relação entre políticos e eleitores.

Esta é uma relação antiga que só a fome: sempre haverá aqueles que dominam e aqueles que são dominados. Antes do surgimento das instituições democráticas, as que temos atualmente, esta separação se dava na base da porrada mesmo. A história da humanidade, vista dessa ótica, é um enorme rio de sangue e crueldade que, incessantemente, verte sobre o domínio do tempo as guerras e as atrocidades do sujeito humano (?). Isto denuncia que nossa humanidade é uma visão idealizada, falsa, a qual, o processo civilizatório[1] tenta, de forma desesperada, domesticar, controlar ou, em alguns casos, empurrar para baixo do tapete.

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O Estado, a pulsão o sujeito.

abr 26, 2014 by

Reflexões sobre alguns conceitos utilizados em meu artigo Viva a Diferença!

 *João Rego

A visão despersonalizada do Estado (lembro que o Estado é sempre constituído de pessoas) identificando-o como uma “expressão do sentimento dominante na sociedade” dá a impressão de que nada mais resta a fazer, uma vez que esta visão ampla e generosa coloca o Estado como uma instância superior e fruto impune de uma “expressão dominante”.

Imagino um judeu em Auschwitz prestes a ir para o forno crematório pensando nessa expressão do sentimento dominante na sociedade.

É claro que a Solução Final foi uma estratégia secreta de guerra e de extrema crueldade nazista, e Hitler, mesmo tendo sido eleito (expressão da maioria), com essa política certamente não estava correspondendo à vontade da maioria. Mas era o Estado que estava lá, com sua logística macabra, com metas, prêmio de melhor funcionário, visão, análise SWOT e tudo mais.

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Viva a diferença!

abr 26, 2014 by

*João Rego

 

Duas notícias recentes me chamaram a atenção esta semana: a primeira, na Rússia, com leis que punem as expressões de afetos homossexuais em público; a segunda, na França, assim como já ocorreu em vários países, discutem no parlamento a união entre pessoas do mesmo sexo, a esquerda é favorável e a direita conservadora contra. Vem-me uma questão inquietante: em que a sexualidade dos seus cidadãos é identificada pelo Estado como ameaça? Por que uma instituição, construída ao longo de séculos de processos civilizatórios fruto de guerras, revoluções, dominações imperialistas, avanços e recuos políticos e sociais se importa com aspectos íntimos da singularidade humana?

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Hamlet, psicanálise e ciência.

abr 25, 2014 by

Hamlet, psicanálise e a tentativa de captura do sujeito pela ciência.

João Rego*

Recife, 21 de abril de 2014.

É muito comum aparecer em revistas (especializadas ou não) entrevistas com neurocientistas e outras espécimes nos comunicando um novo aparelho de alta tecnologia capaz de desvendar os mistérios do homem em seu mais recôndito universo: sua estrutura psíquica.

São milhões de dólares investidos nesta desesperada e inútil tentativa de capturar o humano e suas vicissitudes.

Esta biologização do sujeito certamente tem um fim comercial ou de dominação – sempre ela -, para produzir algo que nos afaste da depressão ou alivie uma angustiazinha aqui, outra acolá. Enfim, se eu sei tudo sobre você, principalmente sobre aquilo ao que você é alienado e determina sua existência, fazendo-o sofrer com isso, tenho a faca o queijo para sobre você impor meu saber que o fará dependente de mim, e pagará por isso.

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O Sujeito, o Desejo e a Política.

out 28, 2013 by

*João Rego

O conceito de sujeito, para a psicanálise, é o do sujeito constituído por uma falta que o funda como ser desejante. Essa é uma operação que ocorre em nossa alma e que tem sua origem no momento em que, como criança, viemos ao mundo. A princípio temos uma relação fusional com a mãe, ou seja, não somos constituídos ainda como sujeito. Nos confundimos e nos nutrimos desta fonte de vida original, que é o corpo da mãe. Com a interferência da figura paterna dá-se a interdição, que nos castra da mãe. A partir daí, seguimos a vida condenados a buscar, de forma incessante e sem êxito, o preenchimento desta falta.

É movido por esta falta que nos constituímos como sujeito, sentimos os limites do nosso corpo, criamos, amamos, e sofremos.

Sem ela cessaria o desejo, o que é a morte.

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Muito além dos moinhos.

abr 28, 2012 by

Resposta às críticas do meu artigo “O Socialismo e a Síndrome de Salieri”

*João Rego

Dom Quixote – A aventura nos vai guiando melhor as coisas do que pudéramos desejar; ali estão, amigo Sancho Pança, trinta desaforados gigantes, ou pouco mais, a quem penso combater e tira-lhes, a todos, as vidas, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; será boa guerra, pois é grande serviço prestado a Deus o de extirpar tão má semente da Face da Terra.

Sancho Pança – Que gigantes?”

 

Este trecho da grande obra de Cervantes relata o delírio do nosso mais célebre herói da literatura, Dom Quixote. Após passar grande parte de sua vida lendo obsessivamente apenas os livros de história de Cavaleiros andantes, sai pelo mundo afora com uma missão nobre de lutar contra o mal, onde este se apresentasse. O problema é que, tendo sua percepção da realidade enublada pelo delírio, esta lhe escapa, deixando-o aprisionado em seu mundo interior. Capturado por uma lógica delirante, fechada, acabada, segue com sua certeza cega a errar por um mundo que só a ele pertence.

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O Socialismo e a Síndrome de Salieri

abr 28, 2012 by

*João Rego

No filme Amadeus de Peter Shaffer, dirigido por Milos Forman, se constrói uma relação de amor e ódio de Salieri por Mozart. A principal fonte do ódio de Salieri deve-se ao fato que este, desde pequeno, havia se oferecido celibatariamente a Deus, abrindo mão de todos os prazeres terrenos para que, em troca, Deus lhe desse o dom da música. E assim foi por certo tempo. Salieri acreditava ser o escolhido e estava muito bem instalado como diretor musical do Rei da Áustria, gozando de todos os privilégios, dentre os quais o reconhecimento e a fama. Até que…entra em cena Mozart, que já era conhecido como menino prodígio e, agora adulto, havia sido contrato para a mesma corte. Mozart é um personagem totalmente hedonista, sem nenhum limite quanto aos prazeres do sexo e da boemia. Entretanto, compunha uma música  que aos olhos (neste caso, ouvidos)de Salieri  era a máxima perfeição da expressão do divino na terra. Um ódio crescente e obsessivo se instala no espírito de Salieri passando a conviver, simultaneamente, com a paixão deste pela música de Mozart.

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