Cultura, Pulsão e psicanálise.

abr 28, 2014 by

*João Rego

Creio que o retorno aos textos freudianos, que foram objeto de meus ensinamentos nos últimos dois anos, deu-me a certeza cada vez maior de que não há apreensão mais ampla da realidade humana do que aquela que é feita pela experiência freudiana.(LACAN, Jacques in Le symbolique, l’imaginaire et le réel – Bulletin de l’Association freudienne, No. 1, nov, 1982)

 

Esta ‘experiência freudiana ’a qual o texto de Lacan se refere, define a dimensão da psicanálise em um contexto que situa o homem e seus desejos de forma antagônica a civilização. Esta última tem a função de interditar, através da lei, grande parte da realização destes desejos.

Em Totem e Tabu e no Mal Estar da Civilização, que definimos como as principais obras do pensamento social de Freud, este situa o homem fundado em um impasse insolúvel: o ser e suas pulsões – aquilo que tem de mais primitivo e essencial dentro da gente -, só vem garantir a passagem do estado de natureza para o estado de sociedade, através da interdição da realização desta pulsão.

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A Camille Claudel de Ceronha Pontes.

abr 27, 2014 by

A Camille Claudel de Ceronha Pontes.

* João Rego

Uma luz abre suavemente o cenário. Deitada sobre um monte de barro vermelho começa a surgir a silhueta sensual de um corpo de mulher. É uma jovem e bela mulher, que durante uma hora meia irá nos emocionar representando Camille Claudel, a genial escultora francesa abandonada por Rodin, seu mestre e ex-amante, que após surtos psicóticos é trancafiada em um manicômio onde irá viver seus últimos anos de vida. Foram trinta anos internada, na maior parte do tempo, sedada e amarrada em uma cama.

Ceronha incorpora de forma surpreendente Camille aprisionada em uma relação de amor-ódio por Rodin, realidade que, para ele, já fazia parte de um passado, mas para sua loucura era o seu alimento diário. Sabia-se genial, e de fato era, tanto que alguns historiadores comparam suas obras com a mesma qualidade do seu famoso mestre.

A peça de Ceronha explora com intensidade inusitada o drama e a angústia de uma alma que navega, a cada instante, entre o delírio e a dura realidade em que ela, Camille, vive seus últimos anos de vida. Seus mecanismos de defesa, se é possível identificá-los, era lembrar-se da sua infância em Villeneuve brincando com a argila vermelha em busca de desenterrar ‘diabinhos’ na areia. Em outros momentos delira, vendendo suas obras para um público imaginário onde a atriz nos puxa, de forma hábil e corajosa, para o centro da peça. Somos de fato, parte concreta dos seus delírios e suporte para sua atuação. Comemos com ela, sofremos e nos assustamos com a intensidade do seu sofrimento. É possível ouvir risos nervosos na plateia, certamente reflexo de algum efeito que a atuação desta jovem e talentosa atriz provoca em nosso espírito.

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O Minotauro e o Labirinto da vida.

abr 27, 2014 by

O Minotauro e o Labirinto da vida.

* João Rego

Sou um admirador de obras de arte. Os clássicos, os modernos e os pós-modernos com suas diversas escolas -, se é possível organizar a criação dos artistas ao longo do tempo de forma tão estanque e segmentada -,são inspirações para que contemplando suas obras, nos posicionemos diante da vida.

Vejo na obra de arte uma expressão do inconsciente do autor diante de seus desejos e limites para dar conta da sua inserção na realidade. A arte é assim uma expressão criativa de um indivíduo, a qual realiza sua função (ou causa um efeito no outro) quando é levada ao público.

Assim como a literatura e a ciência, é algo do subjetivo que irrompe para o universal espraiando seus efeitos sobre a humanidade.

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Spok e as raízes pernambucanas da música instrumental.

abr 27, 2014 by

Spok e as raízes pernambucanas da música instrumental.

*João Rego

Na Casa de Seu Jorge assisti, no ano passado (maio de 2012), um show de raríssima qualidade. Spok com seu grupo de artistas, Renato Bandeira na guitarra e viola de 12 cordas, entre outros. Durante três horas, no espaço intimista da Casa, nos deslumbraram com o virtuosismo do grupo.

Spok é tão bom com as palavras e sua paixão pelo frevo quanto é com seu sax. Ao longo do show foi cativando a todos, dando uma aula sobre o frevo, seus principais compositores, suas raízes e seu papel fundante na alma pernambucana. Com suas palavras e sua música, aos poucos foi transformando a Casa de Seu Jorge na Bluenote do Frevo. Não estávamos em Nova Iorque, nem ouvindo Jazz no BlueNote. Estávamos no Recife ouvindo o frevo de Spok, mas a atmosfera e o prazer eram absolutamente os mesmos.

Aí começaram a surgir das mesas Cláudio com seu pandeiro de lascar, Luciano Magno, guitarrista consagrado e outros. Transportei-me para uma Jam Session que presenciei no famoso Bud Guy Legend  em Chicago. Era então uma segunda feira e os monstros sagrados estavam todos por lá se revezando, tudo misturado, professor de música da Chicago University com um gaitista de rua, tudo harmonizado pela música que os unia.

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STF, elite política e sociedade civil.

abr 27, 2014 by

*João Rego

Eu vi uma negra. Ela era jovem e carregava, como um burro de carga, uma carroça cheia de lixo e dejetos, colhidos ao longo do dia para ganhar algum. Sentia-se a força de uma mulher que, com brilho nos olhos, braços musculosos, avançava puxando aquele fardo que insiste em imprimir a marca da miséria e do subdesenvolvimento do Brasil.

Aquela carroça, puxada por um homemanimal, é um símbolo multinacional da miséria que perpassa os países pobres. Como o logo da Dell ou da Microsoft, é a logomarca da miséria humana, que nos transporta para o Congo, o Haití ou a Índia.

Ao seu lado, um esquálido auxiliar – quase branco, quase negro – cuidava para que a frágil proteção de papelão não deixasse cair o fruto do seu trabalho. E eu, dentro do meu carro com ar condicionado, smartphone na mão com a internet e o mundo de conhecimento à distância de um arrastar de dedos, tive, a princípio, receio que a carroça, a qual iria passar entre meu carro e o ônibus…arranhasse meu carro.

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A Política, a religião e o engodo

abr 27, 2014 by

João Rego

 

Oito de dezembro, dia da Nossa Senhora da Conceição, padroeira do Recife. Todos os anos é a mesma correria: grande parte da classe política se empenha sofregamente em subir o morro, contrita, juntos aos fiéis. Marxistas, pós-comunistas, liberais, conservadores, neoliberais, todos unidos em devoção ao árduo trabalho da conquista do voto, por mais esdrúxula que seja a situação.

Se o grande enigma para a ciência política é porque a sociedade civil, muito maior que a minúscula classe política, não toma as rédeas do poder e controla o Estado, para a Religião é o eterno enigma indecifrável da morte e do pecado. O da Política: porque nos submetemos ao controle do Estado através da classe política? O da Religião porque precisamos de um Deus com um aparato moral para guiar as nossas vidas?

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O Pulso ainda pulsa….(Titãs)

abr 26, 2014 by

Reflexões sobre sociedade, internet e as manifestações sociais de julho de 2013.

 Para Marília que acabou de nascer. *João Rego

Tenho em minhas mãos a Revista Civilização Brasileira No. 16 de Novembro de 1967. Em sua a capa a foto de uma manifestação política, onde um jovem com óculos de intelectual carrega um cartaz que diz: NÃO SAIREMOS ENQUANTO NÃO FOREM LIBERTADOS ESTUDANTES E PADRES PRESOS! O conteúdo da revista, denso e instigante, tem artigos sobre marxismo, arte, desenvolvimento e pobreza, literatura, sindicalismo, inflação e ainda uma carta de Louis Altusser aos leitores brasileiros.

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O político, o homem e a razão cética.

abr 26, 2014 by

* João Rego

Recife, 22 de março de 2014.

Ao meu amigo David Hulak que teve parentes
incinerados nos fornos crematórios, durante o holocausto.

 

Peço licença aos leitores para apresentar algumas reflexões, que considero importantes, para aprofundarmos um pouco mais o nível da compreensão (e discussão) sobre o universo da política. A primeira é sobre a relação entre políticos e eleitores.

Esta é uma relação antiga que só a fome: sempre haverá aqueles que dominam e aqueles que são dominados. Antes do surgimento das instituições democráticas, as que temos atualmente, esta separação se dava na base da porrada mesmo. A história da humanidade, vista dessa ótica, é um enorme rio de sangue e crueldade que, incessantemente, verte sobre o domínio do tempo as guerras e as atrocidades do sujeito humano (?). Isto denuncia que nossa humanidade é uma visão idealizada, falsa, a qual, o processo civilizatório[1] tenta, de forma desesperada, domesticar, controlar ou, em alguns casos, empurrar para baixo do tapete.

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O Estado, a pulsão o sujeito.

abr 26, 2014 by

Reflexões sobre alguns conceitos utilizados em meu artigo Viva a Diferença!

 *João Rego

A visão despersonalizada do Estado (lembro que o Estado é sempre constituído de pessoas) identificando-o como uma “expressão do sentimento dominante na sociedade” dá a impressão de que nada mais resta a fazer, uma vez que esta visão ampla e generosa coloca o Estado como uma instância superior e fruto impune de uma “expressão dominante”.

Imagino um judeu em Auschwitz prestes a ir para o forno crematório pensando nessa expressão do sentimento dominante na sociedade.

É claro que a Solução Final foi uma estratégia secreta de guerra e de extrema crueldade nazista, e Hitler, mesmo tendo sido eleito (expressão da maioria), com essa política certamente não estava correspondendo à vontade da maioria. Mas era o Estado que estava lá, com sua logística macabra, com metas, prêmio de melhor funcionário, visão, análise SWOT e tudo mais.

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Viva a diferença!

abr 26, 2014 by

*João Rego

 

Duas notícias recentes me chamaram a atenção esta semana: a primeira, na Rússia, com leis que punem as expressões de afetos homossexuais em público; a segunda, na França, assim como já ocorreu em vários países, discutem no parlamento a união entre pessoas do mesmo sexo, a esquerda é favorável e a direita conservadora contra. Vem-me uma questão inquietante: em que a sexualidade dos seus cidadãos é identificada pelo Estado como ameaça? Por que uma instituição, construída ao longo de séculos de processos civilizatórios fruto de guerras, revoluções, dominações imperialistas, avanços e recuos políticos e sociais se importa com aspectos íntimos da singularidade humana?

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Drácula de Bram Stoker – o desejo, o sujeito e a falta.

abr 26, 2014 by

Drácula de Bram Stoker – Uma interpretação sobre o desejo e a falta do sujeito.

 João Rego, 12 de abril de 2014.

 

A interpretação que trago aqui sobre a obra Drácula, de Bram Stoker, de maio de 1897, é baseada na abordagem psicanalítica sobre o homem e sua relação com mundo. Trata-se do universo construído por Freud que teve início com o estudo da histeria, no qual ele descobre a instância do inconsciente, um dos pilares da descoberta da psicanálise sobre o homem. A estrutura psíquica do homem tem seu leit motiv no desejo. Não o desejo explícito, do qual temos consciência em nosso dia-a-dia, mas sim o desejo inconsciente, ao qual somos alienados e que molda as nossas vidas, determinando o nosso caminhar pelo mundo.

O sujeito humano é constituído pelos desejos que as figuras parentais sobre ele depositam.

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Hamlet, psicanálise e ciência.

abr 25, 2014 by

Hamlet, psicanálise e a tentativa de captura do sujeito pela ciência.

João Rego*

Recife, 21 de abril de 2014.

É muito comum aparecer em revistas (especializadas ou não) entrevistas com neurocientistas e outras espécimes nos comunicando um novo aparelho de alta tecnologia capaz de desvendar os mistérios do homem em seu mais recôndito universo: sua estrutura psíquica.

São milhões de dólares investidos nesta desesperada e inútil tentativa de capturar o humano e suas vicissitudes.

Esta biologização do sujeito certamente tem um fim comercial ou de dominação – sempre ela -, para produzir algo que nos afaste da depressão ou alivie uma angustiazinha aqui, outra acolá. Enfim, se eu sei tudo sobre você, principalmente sobre aquilo ao que você é alienado e determina sua existência, fazendo-o sofrer com isso, tenho a faca o queijo para sobre você impor meu saber que o fará dependente de mim, e pagará por isso.

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Introdução ao módulo Cultura e Política.

abr 24, 2014 by

João Rego, junho de 2014.

Os termos Cultura e Política condensam meu percurso por duas riquíssimas áreas do conhecimento: a ciência política, com o mestrado em 1993, e depois com a formação psicanalítica, — esta, muito mais longa— e que se desdobrou no exercício da prática clínica durante uma década.

Quando deixei a área da gestão pública para fazer o mestrado e ciência política, em 1989, o mundo enfrentava o fim de uma era com a Queda do Muro de Berlim. Foi o fim da experiência fracassada do comunismo, iniciada em 1917 na Rússia e o começo da era da democracia como um valor universal. Nessa atmosfera dediquei quatro anos de estudos sobre teoria política clássica e contemporânea; sobre métodos de pesquisa social e comportamento eleitoral. Estávamos no meio para o fim da transição de uma ditadura para a democracia. Partidos políticos e sistemas partidários eram os temas de maior relevância na agenda da pesquisa em ciência política no Brasil, pois tratava-se de compreender o trilhamento institucional que possibilitaria o trem da democracia partir rumo ao futuro. Minha tese foi sobre a formação do Sistema Partidário Brasileiro durante o período de 1982 a 1990.

A psicanálise se impôs à minha vida como uma ajuda possível ao meu espirito quebrado, diante de tantas desconstruções de ideologias, — assim como da práxis política —, e certezas que havia “religiosamente” acreditado e vivido, e não tinham mais validade diante de uma realidade histórica que, antes sólida, naquele momento se desmanchava no ar, parafraseando Karl Marx.

Foi na instituição Traço Freudiano, Veredas Lacanianas e, principalmente através da análise pessoal, que fiz minha formação psicanalítica. A prática clínica, veio como decorrência natural da apresentação de trabalhos em Seminários e encontros, possibilitando demandas de analisantes. Durante uma rica década, exerci a prática clínica da psicanálise, sempre associada a prática de leitura nas instituições ( Um analista isolado é uma espécia de autista – José Zuberman). Foi um tempo de reconstrução do meu universo afetivo; da ampliação da minha visão de mundo sobre o sujeito e a sociedade; assim como a compreensão da cultura como “um resto” deste conflito estruturante entre estas duas vertentes que move nossa humanidade: pulsão e civilização, sujeito e sociedade, ou se preferirem, Eros e Thanatos.

Política e Sociedade

Neste subitem serão publicados meus artigos que abordam a política, o sujeito e o Estado, sempre pelo viés da ciência política e da psicanálise. Todos eles são originalmente publicados na Revista Será?. A Revista Será?, é uma revista online de opinião e debate, da qual sou fundador, juntos com alguns amigos. Criada em 2012, como um meio de expressão das nossas inquietações intelectuais, apresenta uma crescente aceitação por parte do público interessado nos temas.

www.revistasera.info

 

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João Rego
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إيروس وثانتوس

 

 

 

 

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O Sujeito, o Desejo e a Política.

out 28, 2013 by

*João Rego

O conceito de sujeito, para a psicanálise, é o do sujeito constituído por uma falta que o funda como ser desejante. Essa é uma operação que ocorre em nossa alma e que tem sua origem no momento em que, como criança, viemos ao mundo. A princípio temos uma relação fusional com a mãe, ou seja, não somos constituídos ainda como sujeito. Nos confundimos e nos nutrimos desta fonte de vida original, que é o corpo da mãe. Com a interferência da figura paterna dá-se a interdição, que nos castra da mãe. A partir daí, seguimos a vida condenados a buscar, de forma incessante e sem êxito, o preenchimento desta falta.

É movido por esta falta que nos constituímos como sujeito, sentimos os limites do nosso corpo, criamos, amamos, e sofremos.

Sem ela cessaria o desejo, o que é a morte.

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Muito além dos moinhos.

abr 28, 2012 by

Resposta às críticas do meu artigo “O Socialismo e a Síndrome de Salieri”

*João Rego

Dom Quixote – A aventura nos vai guiando melhor as coisas do que pudéramos desejar; ali estão, amigo Sancho Pança, trinta desaforados gigantes, ou pouco mais, a quem penso combater e tira-lhes, a todos, as vidas, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; será boa guerra, pois é grande serviço prestado a Deus o de extirpar tão má semente da Face da Terra.

Sancho Pança – Que gigantes?”

 

Este trecho da grande obra de Cervantes relata o delírio do nosso mais célebre herói da literatura, Dom Quixote. Após passar grande parte de sua vida lendo obsessivamente apenas os livros de história de Cavaleiros andantes, sai pelo mundo afora com uma missão nobre de lutar contra o mal, onde este se apresentasse. O problema é que, tendo sua percepção da realidade enublada pelo delírio, esta lhe escapa, deixando-o aprisionado em seu mundo interior. Capturado por uma lógica delirante, fechada, acabada, segue com sua certeza cega a errar por um mundo que só a ele pertence.

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O Socialismo e a Síndrome de Salieri

abr 28, 2012 by

*João Rego

No filme Amadeus de Peter Shaffer, dirigido por Milos Forman, se constrói uma relação de amor e ódio de Salieri por Mozart. A principal fonte do ódio de Salieri deve-se ao fato que este, desde pequeno, havia se oferecido celibatariamente a Deus, abrindo mão de todos os prazeres terrenos para que, em troca, Deus lhe desse o dom da música. E assim foi por certo tempo. Salieri acreditava ser o escolhido e estava muito bem instalado como diretor musical do Rei da Áustria, gozando de todos os privilégios, dentre os quais o reconhecimento e a fama. Até que…entra em cena Mozart, que já era conhecido como menino prodígio e, agora adulto, havia sido contrato para a mesma corte. Mozart é um personagem totalmente hedonista, sem nenhum limite quanto aos prazeres do sexo e da boemia. Entretanto, compunha uma música  que aos olhos (neste caso, ouvidos)de Salieri  era a máxima perfeição da expressão do divino na terra. Um ódio crescente e obsessivo se instala no espírito de Salieri passando a conviver, simultaneamente, com a paixão deste pela música de Mozart.

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Europa 2010 – Grenoble

out 5, 2010 by

Europa 2010

Grenoble

Elba Rego

Eu e Jô deixamos Louise na escola e caminhamos uma hora.

Arrumar casa e partir para Grenoble. Almoço com César no centro.

Almoçamos num restaurante charmoso e antigo. Comida gostosa e um vinho Shiraz muito bom.

Joâo estranhou o banheiro misto, enquanto o homem está fazendo xixi com aquela portinhola lhe protegendo, ao seu lado está cheio de senhoras muito a vontade lavado as mãos e fofocando.

Fomos na FENAC comprar o HG externo para dar de presente a Carlota + uma bateria de João, ou melhor , da máquina fotográfica de Joâo. Não conseguimos comprar o transformador da outra, a Nikon.

Decatlon e IKEA.

Acabamos a maratona das compras tarde. Voltamos com muita chuva, chegamos em casa igual a Cesar.

Após jantar arrumar malas, João instalando o HD e ensinando a Carlota como fazer o backup.

Rose veio jantar conosco um prato típico da região com bacon, cebola e batatas – delicioso – creme de leite, queijo, salada, pão e um bom vinho.

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Europa 2010 – 3º dia Deux Alpes

out 3, 2010 by

Elba Rego

Organizar café da manhã e lanche para onze pessoas é muito complicado e demorado. Saímos finalmente às 12:00 com Tati com uma queimadura e Lulu chorando porque queria entrar em casa de novo para pegar algo que esquecera.
Fomos em dois carros e João dirigindo a Van com César de co-piloto.
Deux Alpes
Cidade estação de esqui. Impressionante, estava tudo fechado!
O teleférico estava funcionando. Subimos de carro até onde deu e depois de alguma fotos a paradas para o xixi voltamos procurando um lugar para lanchar na estrada. Foi difícil comprar uma coca-cola .
Paramos na beira da estrada e lanchamos numa pequena elevação
A noite o jantar foi na casa de Miguel e Cláudia, uma lingüiça deliciosa (chourisso) saladas e sopa. Tudo muito bom e acolhedor como a bela família portuguesa sempre nos trata.

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João Rego
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Europa 2010 – Annecy

out 2, 2010 by

 

João Rego, 2º Dia 02 de Outubro de 2010

O Café da manhã na casa de Carlota.

Após uma noite de sono, recuperados, tomamos o nosso café, sempre preparado por Cesar atrás da ilha da cozinha, que fica entre o fogão e a mesa.

Penso como nossa arquitetura carrega os traços de uma sociedade fundada na escravidão. Nossas cozinhas, ainda hoje, são separadas da sala de visitas, uma vez que é para empregados e estes, historicamente, não se misturam com os patrões.

Bem, o café aqui é aquela confusão, pois são quatro filhos e dois pequenos. Então o pão, a manteiga e o queijo estão cercados de Batmans, dinossauros e carros de corrida. Todos falando ao mesmo tempo, uma folia gostosa.

Annecy

Carlota nos levou até Annecy, cidade que fica a pouco mais de uma hora de Voiron. Se você andar uma hora mais vai bater em Genebra, Suiça. As estradas e o trânsito nos surpreendem pela organização e qualidade.

Annecy é talvez a cidade mais cara da França. Fica à beira de um belo lago e tem o centro histórico bem preservado e muito charmoso, ou seja, lugar de gente com muita grana para viver e curtir sua aposentadoria. Soube depois, por Miguel, nosso colega português, que uma casa no lago custa de 700 mil a um milhão de euros. Uma casa simples.

Após alguns minutos para achar estacionamento fomos andar pela Velha Annecy, um labirinto de ruas da idade média, cheia de gente nos cafés e nas compras. O grupo andava sem rumo, só curtindo a agradável atmosfera da cidade. Eu, como fotógrafo oficial escolhi alguns pontos para registrar a visita, como a ponte que fica ao lado de uma prisão medieval.

Era quase 14:00 quando decidimos fazer o nosso lanche. Como bons turistas já trazemos nossos pães, queijos e presuntos na mochila. Nada de gastar 9 euros por um sanduíche.

Compra-se uma coca para cada um e está feita a farra.

Sentamos numa escadaria um pouco mais isolada do burburinho, liguei o meu celular para tocar o Renato Braz e ficamos ali sentados, comendo e conversando naquele espaço cercado por casas seculares.

Os pães aqui são deliciosos, o que é um problema grave para mim que estou muito acima do peso. Bem, espero recuperar com as caminhadas pela manhã…..na Itália.

Após o bairro antigo fomos na direção do lago que é de uma beleza estonteante. No caminho demos de cara com uma passeata de trabalhadores protestando contra a nova lei que aumenta a idade para aposentar-se. Cerca de 3.000 pessoas passeavam com um carro de som tocando uma música bate-estaca na frente com vários cartazes e faixas na mão. O resto era de uma tranquilidade que parecia mais aquelas procissões do interior, ordeira e calma.

As mulheres pararam numa loja de roupas Mango, eu fiquei do lado de fora olhando as pessoas. O legal é ver como eles andam de bicicleta, e como as prefeituras organizam as ciclovias. É comum você encontrar pessoas idosas e extremamente saudáveis com sua bike, pedalando num ritmo forte.

Da Mango fomos caminhando na direção do lago. Havia um movimento incomum pois tinha havido uma corrida. Tudo cheio de barracas vendendo equipamento para corredores, ciclistas e outros esportes.

O clima era fresco com muito sol. Eu, Elba e Juliana fomos para um pequeno deck molhar os pés na água, que está sempre fria. Depois deitamos na grama, as mulheres conversando e eu cochilando com a cabeça na mochila.

Voltamos para casa por Grenoble, graças a um erro de Carlota na estrada.

A estrada tem ao seu lado esquerdo as montanhas dos Alpes, com destaque para a Belladona, uma cadeia de montanha que circunda Grenoble.

Clique na imagem abaixo para acessar a galeria:

O jantar com os amigos

Na chegada a Voiron às 19:00, só foi o tempo de usar o banheiro para começar o terceiro turno, era o jantar preparado por Cesar (seu famoso Confit de Pato, leva horas para prepará-lo….é só abrir a lata e esquentá-lo. Já vem tudo pronto).

Os principais amigos de Cesar e Carlota vieram para o jantar. Nossos amigos Miguel, Cláudia e seus belos filhos Ana, João e Inês. Vincent e Stephanie. Cristoban e sua esposa e suas duas filhas. Uma festa.

Cesar comandando a cozinha caprichou: patê de fois grás servido com geleia e vinho branco. Muita conversa e muita alegria das crianças espalhadas pela casa.

Havia trazido de Lisboa uns charutos cubanos (calma gente… eram cubanos dos baratos) e fomos, eu e o Miguel fumar lá fora e atualizar o papo, pois havíamos nos conhecido três anos atrás na nossa primeira vez em Voiron. Miguel é pedreiro de mão cheia e teve um acidente na coluna tendo que passar dois anos desempregado. O governo cobriu tudo, inclusive a prestação da casa que ele havia comprado. Ele e Cláudia formam um belo casal. O papo foi rolando até chegar em cinema que é uma das nossas paixões. E por aí fomos noite adentro.

O jantar estava excelente, vou levar umas latas com este pato para fazer em casa.

Fomos dormir, após várias garrafas de vinho, às duas horas da manhã.

Amanhã iríamos para os Alpes, umas “serras” que eles tem por aqui, altas de lascar.

Beijos e abraços a todos.

João Rego, Voiron 2010.

***

Annecy por Elba

Fomos com Carlota para Annecy. César e os meninos ficaram em casa. A cidade é linda, o dia estava maravilhoso, muitos turistas circulando pela cidade. Annecy é uma das mais belas cidades da França, é cortada por um canal de água cristalina. Estava havendo uma manifestação contra o governo que estava aumentando o tempo de aposentadoria. Muita gente, carro de som, mas um clima pacífico e civilizado.

Depois de circulamos pela cidade – com direito a lanche na escadaria – fomos para o lago que é deslumbrante, cercado por enormes montanhas cobertas de neve.

Sentamos em um píer aliviando os pés na água gelada.

Na volta Carlota se perdeu e fizemos um caminho maior, o que foi ótimo pois passamos por Grenoble.

A noite foi uma farra total, César caprichando como chef, amigos portugueses e franceses. Muita conversa, alegria regado a muito vinho e charuto cubano, obviamente fumados do lado de fora, num frio de lascar.

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Europa 2010 Partida Recife-Voiron

out 1, 2010 by

João Rego

Partimos de Recife às 21:00.

O nível de excitação é sempre mais elevado, afinal esta viagem foi planejada e organizada por Elba, com detalhes, durante mais de um ano.

Partimos assim, eu, Elba, Norma, Iara e Juliana.

O voo da TAP foi excelente – céu de brigadeiro – e como sempre, não consigo dormir mais de 30 minutos. O resto do voo foi me mexendo dentro de uma cadeira que não me cabe.

Lisboa estava com um dia ensolarado e temperatura de 25 graus. Excelente para quem tinha apenas três horas líquidas para sair do aeroporto e dar um giro no centro da cidade.

Tínhamos que estar de volta às 14:30 pois nosso voo para Lion era 14:45.

Tivemos a sorte de sermos atendidos no aeroporto por uma funcionária excelente que deu todas as dicas para fazer este tour Express na cidade.

Pegamos um taxi a caímos na Praça do Rossio, coração de Lisboa. De imediato estava a nossa frente à Rua Augusta, bela, elegante e tranquila. A coisa que impressiona em Lisboa é que, apesar de ser uma cidade grande, o clima é de tranquilidade. A Augusta ontem transmitia esta tranquilidade. Andamos até a beira do rio, onde antes funcionou a Escola de Sagres – conferir – tiramos algumas fotos e nos dirigimos através da Rua Garret até o Largo do Chiado, famoso pela Brasileira, um secular café que foi frequentado por Fernando Pessoa e outros intelectuais portugueses.

O passeio é muito agradável, Rua Garret, Largo do Chiado e vizinhança.

Eu estava com um olho em Lisboa e outro no relógio pois Carlota ia sair de Voiron para nos pegar em Lion e nada poderia atrasar nossa chegada lá.

Chegamos na Praça do Rossio às 14:00 de lá partimos em dois taxis para o aeroporto.

Sempre tem algo que nos pega de surpresa.

Quando chegamos ao aeroporto, todos tranquilos e confiantes até…. que na fila de embarque tinha umas 700 a 1000 pessoas! Pelos meus cálculos não iríamos nunca chegar a tempo no avião. Aí a adrenalina começa a carregar e o grupo começa a se mexer. Acabou-se o clima de curtição e a tensão se instalou. Saímos com a gota serena furando fila com os cartões de embarque na mão e negociando com os funcionários, levando esporro de outros, e tome pressa. No alto falando o aviso de última chamada para Lion, martelando nas nossas cabeças. Passaporte na mão o grupo se distribui em várias filas.

Quando estou passando na revista, Elba dispara, e eu com meu notebook e cinturão na mão, ou seja estava agora com o desafio de correr pelo aeroporto cerca de 800 metros com as calças frouxas ameaçando cair. E foi o que fiz, o grupo todo correndo carregando suas bagagens de mão – nesta hora você se arrepende de ter trazido notebook e outras coisas mais –  para complicar o portão que era o 13 havia mudado para 12 – somente um ninja num sufoco destes vai prestar atenção ao sistema de aviso do aeroporto – pois ouvi e gritei para o grupo “ É no 12!!!, É no 12!!!”.

Chego na frente de todos resfolegante e segurando as calças.

A atendente manda eu relaxar pois haviam muitos passageiros atrasados. Explicou que era um feriadão em Lisboa daí este mundo de gente saindo de Lisboa.

Norma e Iara estão de parabéns, correram bem, mostrando pique.

A merda é que depois desse sufoco todo, ficamos 40 minutos dentro do avião num calor arretado. Bem, mas avião bom é que leva e chega com você.

Chegamos às 19:00 e lá estava Carlota nos esperando. É sempre uma alegria este reencontro. Para Iara e Juliana era a primeira vez na casa de Carlota. A viagem de Lion para Voiron leva cerca de uma hora.

Na chegada aquela folia de abrir presente e atualizar as fofocas, acompanhada a vinhos e uma deliciosa Raclette.

Fomos dormir cansados mas com uma grande expectativa sobre o Sábado, quando iríamos com Carlota passar o dia em Annecy, uma bela cidade à beira de um lago e com charme de cidade mais cara para turismo na França.

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João Rego
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Lisboa 2007 – O Músico no Mundo

maio 30, 2007 by

João Rego, 2007

Algumas pessoas quando viajam tentam reter suas melhores lembranças registrando com suas câmeras digitais os passeios; os museus; as ruas, praias, bares, etc… Enfim, tudo que de bom lhe marcou aquele lugar.

Eu também faço tudo isso, só que existe um evento que pelo seu poderoso efeito em mexer com as minhas emoções, se destaca de todos os outros: a música.

Com sua universalidade, a música é uma forma de linguagem que ultrapassa todas as barreiras culturais, territoriais e políticas nos perpassando através dos nossos sentidos, deixando um efeito, muitas vezes arrebatador na alma.

Uma obra de arte também tem este poder de lhe revolver os sentimentos, mas é através do olhar que ela faz este efeito na gente.

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Trilha na mata do Bituri.

mar 27, 2006 by

Ou de quando Guimarães Rosa foi criticado na frente de Boião.

João Rego, Recife, 27 de março de 2006.

 

Elba, minha esposa, já havia participado de várias trilhas através dos Retirantes Urbanos, e eu sempre com um pé atrás achando que não era bem a minha praia. Mas desta vez decidi ir. A trilha era em Brejo da Madre Deus, numa reserva de mata atlântica.

Chegamos às 5:30 da manhã no Derby, ponto de partida da Van que nos levaria até a cidade de Brejo.

Para nossa agradável surpresa lá estava nosso colega e vizinho, o Clemente Rosas, economista, poeta e escritor. Ele também ficou muito alegre em encontrar gente conhecida, pois era sua primeira vez nos Retirantes Urbanos. Clemente, porém, levava uma vantagem danada sobre a gente: tinha feito Machu Pichu, com seu filho no ano passado, viagem que relatara brilhantemente através de seis artigos no Jornal do Comércio.

Logo depois o grupo foi se compondo, Bárbara Kreuzig, arquiteta e amiga, trilheira já de grande experiência. Em Boa Viagem pegamos o resto do grupo e partimos rumo ao nosso destino, com direito a uma breve parada no Rei das Coxinhas, em Gravatá, para relaxar, ir ao banheiro e tomar um cafezinho.

O percurso da viagem foi muito bom, pois aproveitamos para atualizar o papo, eu e Clemente. Clemente foi diretor de Relações Internacionais da UNE, em 1962, e esteve no epicentro do golpe Militar. É sempre uma valiosa fonte de informação sobre a nossa história política passada e recente.

Marx, Stalin, Churchil, Revolução Russa, os filmes, os livros, tudo vinha à tona em nossa conversa, tornando a viagem muito agradável. Bárbara, que é cinéfila e fã de carteirinha de cinema de arte, nos falou sobre um belo filme canadense “A Grande Sedução” que fiquei morrendo de vontade de assistir.

Ah, tinha uma colega, a Karina, advogada e deficiente visual que estava no grupo. Karina, vinte e poucos anos, é um exemplo de pessoa que vive a vida com intensidade, não importa os obstáculos que ela ofereça.

Ela já é veterana em trilhas. Alto astral e muito simpática.

Chegamos a Brejo de Madre de Deus às 11:00, e após uma rápida circulada na feira livre, ficamos esperando a Toyota que nos levaria até Fazenda Buriti, 280 hectares de mata atlântica preservada, que fica a uma altitude de 1050 metros em relação ao nível do mar.

Comprei um saco de azeitonas pretas e ficamos nos deliciando enquanto a Toyota não vinha. Demorou um pouco mais do que se esperava e a impaciência já tomava conta de alguns mais obsessivos com horário, como Clemente.

Finalmente subimos na Toyota, cada um com sua mochila nas costas carregando água, barra de cereais e frutas.

Após uns 20 minutos subindo a ladeira chegamos ao ponto de partida da trilha. Tudo muito organizado por Heloísa e Washington, os dois coordenadores do Grupo. Fez-se o aquecimento e alongamento muscular, foram distribuídos apitos para o caso de alguém se perder do grupo e, o que me deu mais confiança, havia como apoio, uma égua do dono da fazenda, o Paulo, que logo a apelidei de “ambulância”.

Começamos logo subindo uma ladeira de uns 500 metros. Era uma estrada trafegável, e o que me lembro foi Clemente comentando, “Mas não precisava desse aparato todo para  a gente caminhar numa trilha dessa. Isso é muito fácil. Acho que eles fazem isso para criar um clima de aventura”. De repente Boião, era esse o apelido do mateiro – mateiro é o cara que vai a frente com um facão abrindo a picada e nos guiando-, parou e meteu seu facão no mato fechado, sentimos que a moleza tinha se acabado. A coisa era pra valer.

Começamos a entrar na mata fechada, o que foi uma experiência que me remeteu a infância, na fazenda dos meus pais, o Brejo Vertentes, lá pra’s bandas de Agrestina.

É tudo muito bonito, claustrofóbico – pelo menos para mim, marinheiro de primeira viagem – e encantador. Pisar naquele chão cheio de folhas úmidas, não ver a luz do sol, a qual entrava apenas alguns rasgos de luz pelas frestas das grandes árvores, e não ver o colega que estava a poucos metros de você, confesso que senti certa insegurança.

Boião vai à frente, calado manejando seu facão. Vai num ritmo preciso. Era necessário freá-lo de vez em quando. Havia a Karina que vinha atrás, no ritmo mais lento, sendo guiada por Rômulo, o estagiário que Heloísa contratara há pouco. Figura simpática que não parava de falar.

Washington também ficara no grupo de trás, junto com Rômulo e Karina. Comunicava-se com um walk-talkie com Heloísa que estava no grupo da frente. Senti que a segurança era uma das preocupações deles. Mas mesmo assim “ambulância” não saia da minha mente. Essa sim me confortava para um caso de qualquer emergência.

Descemos até um ponto onde havia uma cerca e aí Boião toma o rumo de uma subida margeando a cerca. Bárbara aos gritos apontou uma orquídea lá no alto de uma árvore.

O grupo todo parou para admirar, como se fosse uma mercadoria exposta em uma vitrine de um shopping center. Descobri depois que seu avô havia sido um orquidófilo, ela tinha um olho de águia para achar orquídeas.

A primeira parada foi na beira de um regato. Sentamo-nos para esperar o Paulo que já havia deixado a Toyota no final do percurso e voltara para se juntar ao grupo.

Enquanto isso, Boião preparava uns cajados para alguns do grupo. Eu peguei logo o meu e depois fui sentir a importância dele no restante da caminhada. Lanchamos, chegou Paulo e partimos para mais uma subida.

Agora o mato começava a se fechar mais, Boião com suas machete nos livrava dos espinhos e da tiririca, um capim que corta como uma navalha. Uma delas já havia deixado sua assinatura na minha perna, que insisti em ir de bermuda, quando todos estavam de calças.

Foi aqui que a caminhada começou a se tornar mais intensa. Eu, que a princípio, como mecanismo de defesa, havia feito o esforço de memorizar o caminho de volta, agora estava completamente nas mãos de Boião, junto com o grupo. Fiquei logo atrás dele, e em seguida vinha, Clemente e Bárbara. O mateiro, para mim era “caixa preta” do grupo.

Foi aí que começamos a conversar sobre literatura. Clemente passou a falar de Guimarães Rosa fazendo uma crítica ao seu estilo. Pensei em como Boião poderia ser um dos personagens de Grande Sertão Veredas. Fazia o trabalho dele calado, só falava quando alguém lhe perguntava algo e o danado nem água tomava.

Depois foi a vez de Clemente elogiar Nikos Kazantzakis, autor de Zorba o Grego, e Boião com a gota serena quebrando o mato na frente. Falou sobre sua obra “O Cristo Recrucificado” Cada vez mais o mato se fechava. Eu prestava atenção na crítica literária de Clemente, mas estava começando a ficar preocupado, pois notava que o mateiro já não seguia uma linha reta.

Senti que ele estava meio perdido. O calor era forte, mas as árvores nos protegiam do sol. Boião finalmente admite que se enganara e levara a gente para outra direção.

Seria necessário, portanto, descermos uma ladeira íngreme que ia dar numa plantação de banana e mandioca, e… depois…..(ufa!!!)  subirmos para chegarmos até a “rodagem” como dizia Boião.

Você sabe aquele momento que sua ansiedade, alimentada pelo seu cansaço, em sair da mata já chegara ao limite? Cansado, eu só pensava em ter que ultrapassar meus limites interiores físicos e mentais, para poder chegar ao final da jornada. Apesar de fazer minha ginástica diária, estou pesado que só, 112 quilos. Se três quilos que carregava nas costas já é pesado, depois de algumas horas na mata, imagina o resto.

Eu olhava pra trás via o grupo tranqüilo, Karina – impressionante!- alegre e excitada pegava nas plantas e as reconhecia. Washington a guiava com segurança e dedicada competência. As outras mulheres também, caladas, não transpareciam nenhuma insegurança ou receio que algo pudesse dar errado. Afinal já tinham experiências anteriores com Heloísa, e todas muito bem sucedidas.

Acho que o único frouxo era eu. Comecei a controlar a água, para o caso de ter que andar muito mais do que o inicialmente planejado.

Descemos na clareira, já sair da mata fechada me deu um alívio. Bem, o perdido de Boião não é perdiiido, ele apenas se enganou e nos forçou a caminhar um pouco mais.

Estávamos no fundo do vale, e para chegarmos a “rodagem” tínhamos que subir uma ladeira íngreme, onde tinha uma plantação de mandioca. Senti que era bronca, pois o sol agora ia bater pra valer nas nossas costas.

Mas, começamos: Boião na frente, Bárbara e Elba logo atrás dele e eu atrás de Elba. Subimos quase de quatro, tamanha a inclinação. Elba só dizia “Mas está muito ruim, está muito ruim!” Eu tentava dar força empurrando-a pela bunda.

Pensei “Se eu escorregar nessa ladeira não há força humana que me faça subir novamente. Só saio daqui com ‘ambulância’ me carregando”

Foi no meio da subida que achamos uma sombra para esperarmos o resto do grupo. Foi uma parada estratégica, havia maracujá por todos os lados. Bárbara começou a chupar um feito quem chupa manga, rasgando a casca com os dentes. Alguns do grupo também. Foi uma ótima forma de relaxarmos um pouco.

Agora estávamos a poucos metros da rodagem e a subida havia acabado. Como é bom descida!

Chegamos na estrada cansados e felizes. Andamos um pouco mais de 500 metros ladeira abaixo e chegamos na bica.

Ô beleza!!!!!!!!!!!!!!!

Menino eu embaixo d’água dava o meu velho grito de guerra.

Iahhhhhhhhhhhhhhuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!!!!!!! [1]

Elba foi a primeira que entrou embaixo do chuveiro, pois já estava de bikini. A água gelada parecia que tinha o poder de recompor nossas forças. Foi arretado! A sensação é muito estranha, um cansaço feliz, algo como um sentimento de uma coisa que você realiza e completa você. O Toyota nos levou para uma casa de apoio onde comemos banana e trocamos de roupa. Foi somente na volta, já na carroceria da Toyota que pude perceber a grandiosidade das montanhas e das matas da região. É tudo muito bonito. Já era quase noite quando chegamos à cidade. Havia um jantar com galinha, carne guisada (deliciosa) e uma cerveja bem geladinha nos esperando. Comi quase com mesma intensidade com que me adentrei na mata, como diria um jurista.

Na volta alguns dormiam, outros conversavam ouvindo uma ótima seleção de músicas organizadas por Washington.

Um bom programa.

 ***

[1] Agora que escrevo, me lembrei de Jaminho com o filho dele, quando morávamos no Edf. 12 de Outubro. Ele perguntava ao seu filho de três anos: como é que o gatinho faz? E o menino fazia miaaaaau. Como é que o pintinho faz? E ele piu-piu; e como é que Tio João faz? Aí o menino gritava iahuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!! E o danado ouvia meu grito do meu apartamento.

 

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