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DITOS & ESCRITOS

LULA E O DISCURSO HISTÉRICO

Acabei de assistir à entrevista de Lula, após um ano preso, promovida pela Folha de São Paulo. É impressionante sua capacidade em negar a realidade. Na verdade, ele constrói, com incrível “veracidade” em sua narrativa, uma “realidade” ajustada ao seu delírio. Os incautos, seus seguidores, são capturados pelos significantes dessa narrativa de forma inarredável, posto que o seguem pelas trilhas do afeto e não do intelecto. Esse discurso é da mesma ordem do discurso religioso, que leva centenas de milhares de pessoas a acreditarem – e assim seguirem até a morte – em algo que só existe no seu imaginário.

O poder do líder carismático sobre as massas passa pelas vias inconscientes das identificações. Nosso Eu é constituído pelas infinitas identificações que experimentamos, desde nossa pré-infância até a morte. Nelas, as funções parentais exercem um papel fundamental no caminhar do sujeito pela sua existência. Fundam, numa complexa operação psicoafetiva, nossa essência como sujeito: nossa matriz desejante.

Sobre o líder carismático, as massas projetam valores imaginários infantis. Inconscientemente, veem o líder impregnado de significantes das figuras parentais. Assim, o sujeito, infantilizado e impotente, naufraga sua consciência numa relação muitas vezes perigosamente perversa. Alienado, coloca o líder no lugar da sua verdade, e assim sente-se completo, regozija-se e goza, dando um sentido à sua fugaz e muitas vezes medíocre existência.

Submergem nesse naufrágio a autocrítica e a tolerância à diversidade, cegando o indivíduo diante da verdade do outro, aquele que pensa e vê a mesma realidade de forma diferente.

As democracias modernas, onde o Estado é laico e o respeito à diversidade humana são ganhos civilizatórios, estão cercadas, de forma latente, por várias ameaças. Uma das mais perigosas – porque legitimada pelo voto, momento nuclear da democracia – talvez seja o discurso histérico de líderes carismáticos, e sua capacidade de manipular as massas.

*

P.S.  Lula foi apenas um objeto que me instigou à reflexão, que vale também para Bolsonaro – dependendo da forma como seu seguidor o vê – assim como para outros que estabeleceram tal relação com seus acólitos de forma perversa, como Hitler, Mussolini e muitos mais.

Recife, 28 de abril de 2019.

João Rego
Ditos & Escritos
É engenheiro, consultor, mestre em ciência política com formação em psicanálise.
www.joaorego.com
www.facebook.com/politica.psicanalise

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