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DITOS & ESCRITOS

O HOMEM ENTRE A BARBÁRIE E A CULTURA.

Reflexões sobre Leviatã (Hobbes) e o Mal-estar na Civilização(Freud)


Saturno devorando um filho – Francisco Goya

Enquanto, em Hobbes, a questão da barbárie, ou das paixões naturais que imperam sobre a vontade humana no estado de natureza, deve ser domada em sua totalidade através do Estado, este com as suas funções absolutizadas, exercendo forte e amplamente o seu domínio sobre a condição humana, em Freud, a civilização, apesar de apresentar evidentes melhoras em relação ao estado de natureza, não é vista como vitoriosa, ou como uma solução completa e acabada.

Contrário ao ponto de vista estático e determinista com que Hobbes imagina o seu modelo de Estado como solução para a humanidade, Freud apresenta uma visão dialética (Eros x Tanatos) e dinâmica, sem nenhuma certeza se haverá algum dia uma civilização capaz de resolver os conflitos estruturais entre o ser humano, com as suas forças pulsionais, e a civilização, esta última resultante do processo de regulação das pulsões dos homens.

Embora identificada esta diferença entre os dois autores, tendo percorrido este trajeto entre Leviatã e o Mal-Estar na Civilização, a primeira impressão que se destaca é a forte influência do pensamento hobbesiano sobre o que aqui foi classificado como o pensamento social de Freud.

Toda a base do pensamento social de Freud, aqui definido como o conjunto das reflexões sobre tudo aquilo que, transcendendo o sujeito, como objeto de uma prática clínica, vem desaguar no social, ou na civilização – e que tem no Mal-Estar na Civilização uma importante sinopse destas ideias -, segue a mesma trilha da descoberta central do pensamento hobbesiano: o Estado como uma função de restrição sobre o ser humano. A tese de Hobbes se assenta na necessidade de um Estado investido das suas funções restritivas às paixões naturais do homem. É esta função restritiva que garante a ultrapassagem de um estado primitivo de relação social para o estado de sociedade, preservando a manutenção e o desenvolvimento da civilização ao longo da história da humanidade. Entretanto, enquanto Hobbes parte para sistematizar o Estado elevando-o à categoria de supremo ordenador do mundo civilizado, não se preocupando em olhar para as suas consequências sobre a vida humana, principalmente sobre o que restou destas ‘paixões naturais’, Freud é taxativo em admitir que tamanha carga de repressão sobre a natureza pulsional do homem tem um elevado custo.

Para Freud, a civilização é construída sobre a renúncia do homem à pulsão – aquilo que Hobbes chamou de ‘paixões naturais’ -, viabilizando a organização social. Este, diferentemente de Hobbes, acredita e volta a sua investigação sobre os prejuízos desta repressão sobre a natureza humana.

É impossível desprezar o ponto até o qual a civilização é construída sobre uma renúncia à pulsão, o quanto ela pressupõe exatamente a não-satisfação (pela opressão, repressão, ou algum outro meio?) de pulsões poderosas. Essa ‘frustração cultural’ domina o grande campo dos relacionamentos sociais entre os seres humanos ( p.118)

Na verdade, é esta visão que o permite associar parte das causas das patologias do homem à repressão das pulsões.

Não é fácil entender como pode ser possível privar de satisfação uma pulsão. Não se faz isso impunemente. Se a perda não for economicamente compensada, pode-se ficar certo de que sérios distúrbios decorrerão disso. (p.118)

Percebe-se assim, que a influência de Hobbes sobre o pensamento social de Freud se faz presente apenas na visão de um Estado[1] como uma entidade essencialmente restritiva aos desejos naturais do homem.

A partir deste ponto, Hobbes parte para uma abordagem positiva, digamos assim, e excessivamente confiante no papel do Estado, absolutizando as suas funções, acreditando que, por maior que fossem as restrições, e estas atingem o cerne da liberdade individual, ainda assim o homem estaria levando vantagem, uma vez que a vida anterior ao Estado era terrivelmente pior do que a vida em sociedade.

A abordagem freudiana é pautada por um ceticismo fundamental, ou por uma visão aparentemente negativa da civilização. Reconhece que o estado anterior é ruim, pelas mesmas razões apresentadas por Hobbes: existe liberdade individual, teoricamente sem limites, porém esta tem pouco valor, uma vez que tal liberdade se desvanece quando o ser humano encontra um outro mais forte. Já a civilização, apesar de qualitativamente superior, coloca o ser humano em um impasse existencial difícil de solucionar: a repressão às pulsões vai de encontro ao motor pulsante da vida humana: o princípio do prazer. Aqui se estabelece um conflito permanente entre o ser humano e a sua civilização. Freud identifica nesta hostilidade não resolvida do homem contra a sua civilização, o foco de um conflito que, ao tentar se superar, gera as revoluções que impulsionam a humanidade para um novo patamar civilizatório. O que está em jogo, diz Freud, é a liberdade individual contra a vontade imposta pela lei e a justiça do grupo. (Cf. p.116).

Em Freud, o ser humano está aprisionado a um dilema que o coloca entre a barbárie, para onde não é mais possível (nem desejável) voltar atrás, e a civilização, que cobra um elevado preço (a repressão das pulsões) ao homem para se tornar viável. Esta última, se produz na medida que apresenta uma capacidade de restringir as pulsões do homem. Este por sua vez, impedido de realizar o que o move à vida, o princípio do prazer, por onde flui a sua sexualidade e agressividade, é obrigado a se amoldar a esta situação (princípio de realidade), onde a lei imporá os limites dos desejos do indivíduo.

É em Totem e Tabu ( FREUD:1912), onde Freud se utiliza de pesquisas antropológicas sobre sociedades primitivas, para melhor compreender certos mecanismos e patologias da vida mental do homem moderno. Nesta obra, é possível encontrar traços do conceito de poder no pensamento social freudiano, identificado este, inicialmente, como sendo o poder do pai da horda primitiva sobre todos os homens e mulheres do clã. Este poder, que será socializado entre os filhos após o banquete canibalesco, retorna em forma de Totem. O pai morto se torna mais poderoso do que em vida. Das sociedades totêmicas a humanidade evolui para sociedades com religiões mais elaboradas, porém essencialmente fundadas na figura mítica de um pai poderoso: Deus, o pai absoluto. Poder e Religião se fundem no seu necessário jogo de dominação social, sendo o Estado moderno, apesar de representar um importante salto de qualidade sobre a religião, o legítimo herdeiro de parte desta forma de poder, que vem acompanhando o homem em todo o seu processo civilizatório. Pode-se inferir que o poder político, na visão freudiana, teria traços de uma herança, constituída das experiências arcaicas das sociedades primitivas, onde a figura paterna atuava como polo central do poder. Os líderes, políticos ou religiosos, incorporam com maior ou menor intensidade, traços significantes deste pai simbólico, fantasmático, que marca sua presença perene no imaginário da humanidade. Assim, em Freud, a formação social encontra seu núcleo gerador nas relações intra-familiares, origem mais remota da organização social do homem.

A originalidade no pensamento social de Freud se encontra na proposição de que as relações sociais são, em sua essência, relações de caráter libidinal entre os seres humanos. (Cf. FREUD: 1921). Na verdade, esta abordagem se apresenta como uma importante ferramenta teórica para se entender processos de dominação e relação política em uma sociedade.

Sumariando sua leitura do processo civilizatório, Freud conclui:

Posso agora acrescentar que a civilização constitui um processo a serviço de Eros, cujo propósito é combinar indivíduos humanos isolados, depois famílias e, depois ainda, raças, povos e nações numa única grande unidade, a unidade da humanidade. Porque isso tem de acontecer, não sabemos; o trabalho de Eros é precisamente este. Essas reuniões de homens devem estar libidinalmente ligadas umas às outras. A necessidade, as vantagens do trabalho em comum, por si sós, não as manterão unidas. Mas a natural pulsão agressiva do homem, a hostilidade de cada um contra todos e de todos contra cada um, se opõe a esse programa da civilização. Essa pulsão agressiva é o derivado e o principal representante da pulsão de morte, que descobrimos lado a lado de Eros e que com este divide o domínio do mundo. Agora, penso eu, o significado da evolução da civilização não mais nos é obscuro. Ele deve representar a luta entre Eros e a Morte, entre a pulsão de vida e a pulsão de destruição, tal como se elabora na espécie humana. Nessa luta consiste essencialmente toda a vida, e, portanto, a evolução da civilização pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela vida. (p.145)

Voltando à Hobbes, é possível identificar que o seu principal valor está em que, através das suas proposições, apresentou importantes mecanismos impulsionadores das relações entre os homens. Através de um mergulho profundo e corajoso sobre a natureza humana, construiu o perfil do homem hobbesiano, com suas paixões naturais prevalecendo sobre os seus desejos, conduzindo-o a conquistar cada vez mais poder sobre o seu próximo. Na construção do seu modelo conceitual de Estado, imaginando estar propondo uma solução para a sua época – proposição esta que a experiência histórica não aceitou, tendo caminhado para o Estado lockeano -,[2] Hobbes elaborou um profundo e complexo levantamento das vicissitudes dessa entidade que molda a vida em sociedade. Assim, o valor das suas descobertas e proposições, – abstraindo-se o valor de conceitos jurídicos encontrados na obra, os quais não são objetos desta investigação -, está em desnudar o lado mais negativo do Estado. As funções de um Estado que restringe e controla a vida humana, como única forma de manter a vida em sociedade; o poder deste, em dispor do ser humano das mais diversas formas, tudo isto são traços de um tipo de Estado, identificado por Hobbes, que se encontram ainda hoje, nas mais modernas democracias.

As guerras, onde o Estado dispõe dos corpos dos jovens com a frieza e a crueldade exaustivamente registradas e analisadas, são fenômenos que se repetem dando vazão à agressividade humana, numa demonstração evidente do fracasso da civilização sobre as pulsões do ser humano. Aí, é possível se auscultar a pulsação do Leviatã, uma pulsação marcada pelo ritmo da luta incessante de dominação entre povos e nações. Outra forma sutil de dominação, onde se é capaz de identificar traços do Leviatã, é o controle exercido pelo Estado sobre os meios de comunicação, estes definidos como o poder de moldar e direcionar os desejos do ser humano.

É evidente que se reconhece os avanços das sociedades modernas. A democracia, como um valor que se impõe cada vez mais universal, é um exemplo contundente da evolução da civilização. As formas modernas de comunicação entre os seres humanos, – cita-se aqui como exemplo a Internet e de suas facilidades -, são avanços que jogam a favor da unidade da humanidade. Entretanto, basta uma desestabilização no ambiente em torno de um povo, de uma comunidade ou nação, ser interpretada como uma ameaça hostil, para que o monstro acorde com toda a sua força e fúria.

Quanto às formas de abordagem desses dois autores sobre o processo de formação social, observa-se que, enquanto Hobbes elabora a sua compreensão sobre o Estado identificando este como uma imperiosa necessidade para o homem viver em sociedade, uma vez que o homem hobbesiano é movido por uma incessante motivação para conquistar o poder, Freud, através da investigação de patologias da estrutura psíquica do homem, consegue aprofundar um conhecimento sobre o microcosmo do ser humano, jogando luzes sobre o comportamento humano e desvendando estruturas constitutivas até então consideradas inexistentes, ou de menor importância. Assim, questões referentes à formação de um ser humano, de como se dá o seu desenvolvimento, o que move os seus desejos, como se constitui o seu Eu, como se relaciona este Eu com o mundo externo, dentre outros, são elementos conceituais na teoria e no método de investigação psicanalítico que possibilitam a Freud uma rica e original compreensão do macrocosmo onde este ser está imerso.

Freud, com o seu ceticismo crítico-radical diante do homem e da sua civilização, pode, para o leitor desatento, ser interpretado como um pensador responsável por uma visão negativa, extremamente realista e carregada de desesperanças sobre a natureza humana. Na realidade, o que se compreende é que toda a força e impacto do seu pensamento traduzem a luta incessante de um homem profundamente movido por um idealismo utópico de proporções gigantescas sobre o homem e seu processo civilizatório. Senão, de onde ele iria buscar referências de desejos e padrões de qualidade de vida entre os homens tão elevados, para poder julgar, como julga, a humanidade, de forma tão rigorosa? Com certeza, uma importante fonte destes ideais, foi a poesia e a literatura, duas áreas de enorme influência na formação intelectual do mesmo.

A força do pensamento freudiano, não só está centrada nas importantes descobertas da psicanálise, a qual se impôs como importante área do conhecimento, revelando a natureza humana com as suas fragilidades, mas também possibilitando a descoberta das suas potencialidades. Ela reside também na enorme capacidade intelectual de não se deixar aprisionar pelo conhecimento e a moral vigente da época. Freud, qual ousado caminhante, desbravou fronteiras, enfrentou batalhas, sofreu obstinadamente o peso da caminhada solitária e da incompreensão dos seus pares. Com a sua obra ele abriu um enorme horizonte, produzindo um saber libertário e inquietante sobre a condição humana, apontou caminhos nunca antes imaginados, jogou luzes onde antes reinavam apenas as trevas e a ignorância. A diversidade, a abrangência e a profundidade das suas descobertas, continuam até hoje demandando uma incessante e heterogênea produção intelectual sobre a condição humana.

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CURLEY, Edwin. Introduction to Hobbes’ Leviathan in Leviathan – with selected variants from the Latin edition 1668, ed. Hackett Publishing Company Inc.1994.

FREUD, Sigmund. O Futuro de uma Ilusão(1927). [ Die Zukunft einer Illusion (G.W.,11, 411-66) Trad. Inglês: The Future os an Illusion. London. Hogarth Press]:Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud Vol.XXI. Rio de Janeiro. IMAGO 1974

FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização(1930[1929]) [ Das Unbehagen in der Kultur (Viena, G.S., 12, 29; G.W., 14,421)Trad. Inglês: ‘Civilization and its Discontents’ (Londres, 1930; Nova Iorque, 1961; Standard Ed., 21, 59)] Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud Vol.XXI. Rio de Janeiro. IMAGO 1974

HOBBES, Thomas. Leviatã, ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. Col. Os Pensadores. São Paulo: Ed. Abril Cultural, 1979.

HOBBES, Thomas. Leviathan, with selected variants from the Latin edition of 1668. USA: Hackett Publishing             Company, Inc, 1994


[1] Observe-se que este estudo compara o conceito de Estado em Hobbes com o conceito de Civilização (kultur) em Freud. Uma questão que se apresenta de imediato, é o fato do termo Civilização ser muito mais abrangente do que o termo Estado. Entretanto, Civilização subsume o conceito de Estado, sendo possível, portanto, elaborar-se tal comparação  levando-se em consideração as devidas reservas referentes aos níveis de abrangência dos termos. O fato é que, em ambos os casos, se tenta investigar como estes autores pensaram o processo de formação das sociedades humanas.

[2] ‘Na realidade política em que vivia, optou pelo fortalecimento extremado da autoridade, pelo militarismo do executivo e pelo controle severo de todas as formas de criação intelectual. A história não lhe deu razão, preferindo a solução liberal de seu conterrâneo John Locke. Em 1689, as forças liberais que predominavam no parlamento inglês derrotaram definitivamente o absolutismo real, instituindo a separação e a autonomia  dos poderes, fazendo prevalecer a mentalidade civil, admitindo a pluralidade de confissões religiosa e proporcionando a liberdade de pensamento e expressão’  in Vida e Obra de Hobbes Col. Os Pensadores (HOBBES:1979)

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João Rego
Ditos & Escritos
É engenheiro, consultor, mestre em ciência política com formação em psicanálise.
www.joaorego.com
www.facebook.com/politica.psicanalise

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