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DITOS & ESCRITOS

FRAGMENTOS DO PASSADO.

05Murilo R. Loyo Rego – Murilinho

Dream world painting by Jack Yerka.

Há muito que eu queria escrever sobre Murilinho, meu primo que faleceu há poucos anos. Escrever sobre a morte de amigos próximos e parentes, com os quais convivemos, é também, sob certo aspecto, encarar um pouco nossa própria morte – sim, morremos há cada dia, a cada hora e segundo que se passa. Este é um grande mistério da vida: rara, fugaz e valiosa se olharmos sob a perspectiva do tempo – essa onda portadora da morte.

O tempo, impulso aliado da história, com sua inexorável marcha batida para o futuro, a tudo destrói, reduzindo impérios e pessoas a pó, nos transformando em meros espectros na memória daqueles com que vivemos, amamos e sofremos. É sobre fragmentos da memória do meu convívio com Murilinho que se trata essa crônica, e aí levarei você leitor para os anos sessenta em Caruaru, cidade da nossa família.

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Corrida de patins.

A adrenalina estava a mil pelas veias. Corríamos pelos corredores da Casa Grande, Murilinho ia na frente, mas eu estava no seu calcanhar, e tome um quarto, desvia pela cama de Tia Júlia, passa pelo quarto de Vovó Ernestina, passa pela sala com suas enormes mesas e, em curva acentuada, embocávamos no corredor. Era ali que alcançávamos a velocidade máxima. Sabendo que o longo corredor era minha única chance de ultrapassá-lo, acelerei o movimento e comecei a encostar. Ele, percebendo que estava ameaçado de perder sua hegemonia de primo mais velho e sem dar o braço a torcer, quando chegou no final do corredor, blam!!! Fechou, ainda em velocidade sem nem olhar para trás, as duas portas do final do corredor na minha cara. Me estatelei no chão sem entender como era possível mudar bruscamente as regras do jogo.

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A caminho do Colégio Diocesano.

A caminhada a pé era longa. Saíamos da Rua 13 de Maio, nosso território, para o Colégio Diocesano, lá do outro lado da cidade. Íamos os quatro, eu e meus três primos: Murilinho, César e Caiço. Para atenuar o enfado da caminhada usávamos todos os recursos, tais como tocar a campainha do vizinho e sair correndo, achando a maior graça imaginado a cara da dona da casa “ golando o ovo” quando abrisse a porta; outra, de grande valor, era provocar os cachorros das casas. Começávamos pelo belo vira-lata de Dona Marieta, a mulher do Cartório, e terminávamos com o miniatura pinscher de Márcia Teixeira, já na rua do Colégio. Esse era chato. Tinha uns buracos no muro e ele sempre nos surpreendia com o focinho saindo do nada com aquele latido irritante. Tome bolsada! Falando em bolsas, usávamos aquelas “clássicas” de couro marrom avermelhado, com duas partes que se abriam, unidas por uma alça com trava. Eu, mais novo e ainda no primário, tinha a minha quase vazia, com uma inveja danada da bolsa de Murilinho, o mais velho, que vinha estufada com livros de capa dura e tudo mais, propus trocarmos as bolsas, durante o longo percurso. Proposta aceita de imediato. Ele feliz por ter se livrado do peso, acho que pensando “que primo besta”. Eu, inchado de uma falsa aparência intelectual, estufando os peitos, seguia orgulhoso carregado de livros.

Quando meu tio se mudou para o Recife, agora sem os primos, passei a encher minha bolsa com Seleções Readers Digest, da coleção do meu pai.

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Migrando para o Recife

Depois da morte do meu pai, quando migramos para Recife, ele foi um suporte fundamental para mim que, aos treze anos, me encolhia da vida, desamparado e assustado com o mundo, agora sem a proteção do pai. Não conseguia ver nada além de angústia, sombras e escuridão em meus dias. Estava com a alma ferozmente grampeada pelo significante da morte que, sem aviso, destruíra minha infância. Meu refúgio eram os livros da biblioteca de minha mãe, minha cadela fox terrier Kafka, meu violão e uma jandaia que brincava de entrar dentro do violão, chamada Einstein.

Claro que eu tinha minha brava mãe trabalhando três expedientes para garantir o sustento da família, composta por duas irmãs mais próximas de minha idade e meu irmão caçula, com apenas três anos – todos, desnorteados.

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O Edf. Itapuã.

Quando nos mudamos para o Recife já reencontro Murilinho preparando-se para o vestibular de medicina. Viemos morar em uma rua sem saída no Parque Amorim, onde na esquina havia a Cantina Bella Triestre. Ele morava no Edf. Itapuã, na rua do Consulado Americano. Lembro do apartamento e suas janelas estrategicamente posicionadas para nosso excitante exercício de voyeurismo. Nelas, ficávamos à noite, brechando as mulheres da vizinhança. Em um dos apartamentos, tinha a jovem violinista que ensaiava em seu banheiro; noutro, umas irmãs vindas do interior, digamos, mais evoluídas, que terminei dando uns “amassos” com uma delas. Qualquer vulto, qualquer silhueta em movimento, eram, imediatamente capturados pela nossa imaginação nutrida de hormônios que se encarregava de transformar, depois, em valiosa “matéria prima” para fazermos “justiça com as próprias mãos”. Até que um dia a coisa ficou séria. Um cara montou apartamento para a sua amante no prédio vizinho, bem ao alcance do nosso posto de observação. Uma morena voluptuosa que desfilava nua pelas sala e quartos do seu apartamento. Quando descobrimos que eles gostavam de fazer sexo sem nenhuma preocupação de apagar as luzes, o posto de observação triplicou a população de donzelos. Os cuidados elevaram-se ao extremo, luz apagada, respiração baixa e sussurros, mesmo que estivéssemos a centenas de metros de distância. Cláudio, nosso vizinho, certa vez entrou fumando no quarto de observação. Os gritos de todos foram em uníssono protesto: “Apaga esse cigarro porra!”; “Tá querendo nos denunciar?”; “Logo agora que ela passou só de calcinha!”. Ora, para uma turma que disputava à tapa os “catecismos” de Carlos Zéfiro, aquilo foi um valioso “salto de qualidade” em nosso rarefeito portfolio imaginário adolescente.

Foi lá, na sala, que assistimos com intensa emoção a Copa de 70. Éramos uns vinte… espalhados pelo ambiente, acompanhando o futebol espetáculo do Brasil com Pelé, Gerson, Tostão, Rivelino e Jairzinho. Foi na frente do Edifício Itapuã, na Conde da Boa Vista, que fomos comemorar quando vencemos a final contra a Itália.

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O Gordini cinza.

Com sua ajuda fui conquistando os espaços desse novo mundo. Ele tinha um Gordini cinza. Carrinho feio e miúdo, mas que quebrava o galho em nossos deslocamentos. Era nele que íamos ao encontro dos seus amigos da turma de medicina para beber e conversar. Cantinho da Ilha, Bar Ouro Branco, ao lado da Cantina Star e outros. Como a lei de trânsito contra beber dirigindo só viria a vigorar décadas depois, se bebia e dirigia como se fosse a coisa mais natural do mundo. Lembro do isopor cheio de gelo dentro do carro, copos e whiskies baratos indo para Águas Finas, lá em Aldeia. Era uma viagem, hoje, um bairro verde do Recife. Murilinho teve muita sorte do Gordini ser carro de potência baixa. Foram tantas as batidas que, lembro bem, de nós dois esperando durante horas e horas na oficina, supervisionando o conserto do carro. Acho que por castigo seu pai o obrigava a acompanhar os serviços de reparo. Li, certa vez, “Os Libertinos” de Harold Robbins, em um dos consertos do Gordini.

Foi nele que, em 20 de julho de 1969, ouvimos no radio a narração do locutor da Rádio Tamandaré transmitindo com emoção o astronauta Neil Armstrong pisando na lua. Estávamos no Bar Ouro Branco com os amigos e paramos todos para ouvir perplexos e comovidos “um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a humanidade”.

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As discussões políticas.

Enquanto eu lia com o sangue fervendo “A Mãe”, de Máximo Gorki e a Revista Civilização Brasileira, muitas vezes sem entender um artigo de Altusser, por exemplo, ele colecionava fascículos da Coleção Abril da Segunda Guerra Mundial e era contumaz leitor de Seleções. Não que também não se revoltasse contra a ditadura, passeara no trote pela Rua da Imperatriz com faixas de protesto contra os militares, mas era no fundo um neoliberal. Para mim e meus amigos secundaristas, Seleções era uma revista usada pelo imperialismo americano para fazer lavagem cerebral, aplacando o ímpeto revolucionário dos jovens. Foram discussões sem fim e, como sempre, ninguém convencia ninguém, cada um em sua trincheira sem ceder um milímetro. Mas nada que atenuasse o orgulho que sentia por ele ser o aluno mais novo da turma de medicina e um dos mais brilhantes dos que se formaram em psiquiatria.

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Os desvios do destino.

Quis o destino que ele conhecesse Madalena, uma bela e sedutora jovem cearense. Casou e formou família em Fortaleza, onde atuou como psiquiatra em instituição pública. Cada um de nós seguiu seu rumo e nossas vidas foram se afastando, pontuadas por esporádicas visitas quando ele vinha ao Recife. Soube do seu AVC e das sequelas sofridas. Pouco tempo depois, da sua morte calma, sentado diante da TV.

Só com o acesso ao Facebook foi que entrei em contato com seu filho, o Erich Rego, engenheiro civil. Mas nada além disso.

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O Reencontro depois da morte.

Deito, após assistir mais uma série de notícias e debates sobre a crise política brasileira e, antes de dormir, por mais que não seja recomendável, vou no Facebook e lá encontro Erich Rego, um dos filhos de Murilinho com Madalena. Anunciava, ao lado da sua bela família, “mais um empreendimento de sucesso” da construtora Record. Adormeço e me vem um sonho onde encontro Murilinho jovem e saudável no apartamento do seu pai, locus da nossa adolescência. Nos abraçamos de forma efusiva, num intenso clima de emoção como se num passe de mágica tivéssemos enganado nossos destinos, driblando a vida e a morte. Naquele instante, reconstruímos juntos, um passado de amizade interrompido pela força da roda da vida que nos separou. A sala estava repleta com nossas esposas, filhos, noras e netos, todos em confraternização, num clima de festa e reencontro. Tudo era muito intenso e feliz…acordei com a certeza de que era chegada a hora de escrever sobre ele.

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Murilinho e parte da sua família.

Recife, 5 de maio de 2016.

Artigo publicado na Revista Será?

 

João Rego
Ditos & Escritos
É engenheiro, consultor, mestre em ciência política com formação em psicanálise.
www.joaorego.com

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