A Vazante – fragmentos 1.

jul 26, 2014 by

João Rego.

Acordo no meio da noite e, desobedecendo a orientação da minha nutricionista, preparo um copo de leite com Nescau. Começo a sorvê-lo lenta e deliciosamente com um prazer infantil de quem faz uma trela…. às memórias vêm aos borbotões, como se o inconsciente estivesse de ressaca, vomitando em golfadas os afetos e lembranças recalcados da infância.

Alguém grita:

— Primeiro!!

Outro,

— Segundo!

Mais um,

— Eu já disse segundo antes de você.

— Mas ninguém ouviu, prove!

Estávamos em um dos quartos da Casa da Fazenda Vazante, a mais próxima de Caruaru, onde toda a família, juntos com primos e amigos passavam a invernada das férias de julho. A gritaria, neste quarto amplo e cheio de camas e beliches, ocorria todos os dias às cinco horas da manhã. O motivo?Ser o primeiro na fila do leite das vacas ordenhadas por José Valentão que, às 4:30 já estava na labuta separando os bezerros das vacas.

Nossas mães preparavam os copos com porções de Toddy e saíamos em fila indiana, alguns vestidos ainda de pijama de flanela, em direção a vacaria: Mimosa, Pretinha, Malhada e muitas outras, Zé Valentão as chamava pelos nomes e elas o obedeciam numa cumplicidade mágica para mim. O clima frio, o marmeleiro ainda com o orvalho cobrindo suas folhas, as cocheiras e os currais cheios de gado, o leite ainda quente, que devido aos jatos das tetas manuseadas com maestria por Zé valentão, vinha espumando — nem precisava mexer com a colher— era bebido com a mesma avidez com que bebíamos a vida na infância.

O indefectível e maravilhoso cheiro de bosta de boi coroava o cenário.

O dia estava apenas começando, onde as aventuras trançavam o tempo em momentos de excitação e prazer como a caça ao preá. O cachorro que pertencia a um dos moradores era rápido e certeiro e, por engenhosidade de alguém, deram-lhe o nome mais adequado que se poderia imaginar para um cão de caça: Vai. E Vai ia. A gente gritando vai Vai! vai Vai! no meio do capim elefante, correndo com dificuldades para alcançá-lo na beira do Rio Ipojuca. Vai pulava e desaparecia pelo meio daquele emaranhado e quase sempre saia com um preá na boca. Outra forma de caçar o delicioso rato do mato – sim, o comíamos assado no sal e brasa na casa de Seu Ireno, que sempre tinha paciência para nos receber e fazer o fogo com a lenha apanhada no terreiro — era preparar as aratacas, armadilhas rústicas, engenhosamente preparadas por nós. Trançadas com pequenos gravetos, as fazíamos, em formato retangular as tampas; depois saíamos, qual Sherlocks Holmes a investigar milimetricamente uma vasta área do cercado até identificar o caminho que as pequenas criaturas deixavam no seu vai e vem para se alimentar e caçar. Cavávamos um buraco no meio das minúsculas trilhas, era possível identificar os rastros pelas marcas dos pezinhos, e deixávamos, à noite, as armadilhas prontas para a captura. Um graveto apoiava a tampa aberta tendo, na outra extremidade, uma base de pedra; os preás, confiantes na segurança das suas trilhas, quando saiam à noite para se alimentarem, quase todos apressadinhos, batiam no pau que suportava a tampa e caiam no buraco, não muito profundo, mas suficiente para, com a tampa presa por cima, aprisioná-los. No outro dia fazíamos a coleta, metendo a mão na cumbuca e, rapidamente, torcendo-lhes o pescoço, para matá-los.

***

O Rio Ipojuca, que no inverno era uma beleza, serpenteando toda a extensão da Vazante, vinha lá das bandas de São Caetano e seguia atravessando toda a cidade. A pescaria tinha sempre um ritual, para muitos, nojento, que era apanhar as minhocas no leeiro de Zé Damião. Havia uma arte em enfiar a minhoca no anzol e, quase sempre, a paciência e o trabalho eram recompensados pelas piabas, traíras e acarás que pescávamos. Se déssemos sorte, podíamos pescar um muçum, espécie de enguia preta que vivias nas margens do rio, que assado no toicinho e servido com farinha, comíamos com sofreguidão, aos punhados.

Zé Damião tinha uma casa no extremo norte dos limites da Vazante e plantava coentro, alface, cebolinho, quiabo e tomate para vender na feira. Passava, com a regularidade de um relógio, montado em sua burrinha, coitada, espremida pelo peso dele que era gordo e careca e tinha um caso, soube depois, com Maria Dadá, minha babá. Pois bem, a jumenta com seu passo pinicado parecia os ponteiros de um relógio, com sua passada constante, levando Zé Damião para cidade de manhã e o trazendo a tardezinha, quase anoitecendo.

É muito viva em mim esta volta, por que era a Hora do Ângelus na Rádio Difusora, declamada em tom lacrimosamente solene por Alziro Zarur. Esta era também a hora do coaxar dos sapos; do cheiro de café feito por Dadá no velho coador de pano, que se espalhava e me alcançava na rede da varanda. Na frente da casa, um único poste de luz amarela e fraca preparava o cenário para a burrinha de Zé Damião passar. E lá vinha a dupla, ele com os pés quase arrastando no chão, a barriga enorme e a burrinha firme e forte sem alterar o ritmo do seu trote. Cumprimentava-nos à moda antiga, tirando o chapéu de palha, e seguia estrada adentro. Nesta estrada, 400 metros depois da Casa da Fazenda, tinha uma cova com uma cruz sinalizando que alguém morrera de morte matada. Todos respeitavam e se benziam quando passavam por lá, principalmente à noite.

Não lembro bem do texto da oração do Ângelus, sei que começava com a Ave Maria, mas sentia uma angústia gratuita de tanta culpa e perdão que se falava. Era como se fosse pecado existir e ser feliz, isto me acompanhou até a vida adulta. Não podia ouvir aquela oração que uma tristeza inexplicável mim invadia.

Lá em cima, a Vazante ficava num vale, passavam os caminhões de carga na pista (era como chamávamos a BR232), fazendo com que o barulho característico de seus motores, ampliados pelo eco do vale, nos envolvesse. Dormíamos embalados ao som destes motores ecoando pelo vale, que vinha bem baixinho das bandas do sertão, ia subindo, subindo, subindo… para depois, baixar, baixar, baixar… e desaparecer rumo a cidade. Após curto intervalo de um silêncio total, outro caminhão pegava o bastão, como se tivessem combinado, e começava tudo de novo.

 ***

Foi lá que aprendi, sozinho, a andar de bicicleta. Pegava a velha bicicleta Hércules de meu pai, subia empurrando ladeira acima, aprumava um dos pedais num degrau da casa de um morador que não lembro o nome, só me lembro que lá comia feijão em punhados com farinha, misturado com coentro, cebolinha e um pouquinho de pimenta. Tudo amassado com a mão e com a mão comíamos. Bem, meu método de aprender a andar de bicicleta era bastante eficaz, porém muito doloroso. A ladeira era um caminho que ia dar na entrada da Casa da Fazenda, dos dois lados as cercas de arame farpado e aveloz faziam um estreito corredor, eu munido de coragem e do desejo enorme de aprender a andar na magrela, impulsionava a bicicleta e me lançava ladeira abaixo. Só tinha duas opções: eu acertava no equilíbrio, e ia direto até a entrada da fazenda; ou me lascava nas cercas de arames farpados e aveloz, me estatelando no chão. Obviamente foram necessárias duas ou três tardes da segunda opção, caindo, levantando e empurrando a bicicleta ladeira acima, repetidas vezes até que, no terceiro dia entrei triunfalmente, todo lanhado, sob o olhar animado dos moradores, no pátio da Vazante.

A vida, mais tarde, me mostraria que as quedas e recomeços não eram privilégio da infância.

 Julho, 2014

***

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

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8 Comments

  1. Edileine bezerra lopes

    Lindo texto! Viajei no tempo como se lá tivesse vivido tb. O melhor de nós está no que vivemos um dia, isso não tem preço. Me identifiquei tb em alguns momentos, coisas da minha época, saudade do que vivi e do que deixei de viver. Parabéns, pela descrição, perfeita.

  2. Teresa Cristina Almeida

    Muito bom o texto. Recordei nossas férias na Vazante. Lembrei q até tia Teca pescou um muçum. Tb lembrei daquelas jangadas em q ficávamos nos equilibrando dentro do rio Ipojuca e, eu morta de medo pq n sabia nadar e ainda hj n sei. Lembrei tb q era a única menina q ficava deitada naquele quarto com um monte de camas entre vcs 5(Caísso, Murilinho, César , Gustinho e vc) e q n havia maldade nenhuma entre nós. Eu tinha namorico com Gustinho e de vez em qd saía uns beijinhos, q hj dizemos selinhos. Muito boas lembranças.

  3. Marluce Alves Florêncio Santos

    João quanta beleza em relatar historias vividas na sua infância. Imagino a saudade que bate dentro de VC. Continue firme .Recordar é viver.Parabéns!

  4. Mariluce Florêncio

    Estes seus escritos tem me emocionado demais,pois ao descrever… sua infancia eu faço minhas\as suas palavras,pois este é um retrato do meu passado ,que hoje revivo em um pedacinho de terra que cuido com toda amor junto aos meus filhos que trazem no Dna o amor por cavalos e bois…lá mantemos o fogão de lenha ,o galinheiro,a horta,,o carramanchão…onde a tardinha sentamos ao perfume das flores para conversar

  5. Clice Alencar

    Parabéns, João Rego esse escritor não tem nada que pareça com um Joãozinho que conheci, Mas me enche de orgulho. Um bj. no seu coração.

  6. José Tôrres

    Vai demorar a ser publicado, seu livro? São textos que merecem uma edição. Parabéns, João e continue nos brindando com
    Essas histórias.

  7. Luciano Rêgo

    Muito bom broda. Só fiquei uma vez para dormir, mas você, acho que pela dor de alguma saudade, não ia conosco a Caruaru e nem foi desta vez. Desta vez que fui, pesquei, tomei leite (confesso que o morno não me atrai), brinquei bastante e ouvi as histórias sobre papai, sobre o cavalo tal, etc.. Numa das vezes que fui com o Raul, caiu leite de aveloz no meu olho (Puta que o pariu – que dor!) – tive direito e leite de cabra e brasa nas vistas – não sei como não fiquei cego. Voltei várias vezes para mexer com as abelhas de Tio Murilo. E outras vezes sozinho com so amigos do pé do monte. Tudo num misto de coisas antigas, empoeiradas e a saudade inexplicável de um herói ausente nestas paragens com quem pouco convivi – nosso pai!

  8. Sóstenes Lennon Fonseca

    João, discordo de Clice, no texto você é o Joãozinho que nós conhecemos, hoje com bem menos cabelos, mas, com um talento literário que destamboca ladeira à baixo e vem parar dentro dos nossos corações, que nem sua velha bicicleta e, nos transborda as barragens das lembranças, tais quais as águas do Ipojuca nos tempos das enchentes.
    Que bom ler nos dias de tanta tragédia, relatos como esse.
    Abraço
    Sóstenes Lennon Fonseca

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