Rua 13 de Maio, Caruaru – O Circo Dublin.

jul 1, 2014 by

João Rego, Recife 12 de junho de 2014.

Com a ajuda de César Rego, por telefone lá de Fortaleza.

 

O espaço onde aconteciam os espetáculos era um velho curral, por trás da Casa Grande, (Rua 13 de Maio, 90); o camarim, era uma pequena cocheira em desuso, pois construída por meu avô João do Rego, a Casa Grande era um conjunto de construções composto pela Casa Grande, construção principal; ao seu lado havia uma ladeira, que à esquerda encontrava o Escritório de papai; mais para cima, a Sala de Processamento de Mel de Tio Murilo, grande estudioso da apicultura no Estado; logo depois, do lado direito, havia o portão que nos levava ao pomar, na realidade, era um grande quintal que acompanhava toda a extensão da Rua João José do Rego. Essa rua foi construída por meu avô e fica ao “pé” do Morro Bom Jesus. À esquerda, havia uma construção que servia para armazenar o que era produzido nas fazendas: café, milho, feijão, enfim, um suporte para a logística de seu João do Rego. Dali, certamente, estes grãos eram comercializados. Bem vizinho, ainda subindo a ladeira, havia a oficina, que como toda oficina, tinha o piso sujo de óleo e peças e mais peças de tratores utilizados nas fazendas. Aí, logo depois da oficina era a entrada do Circo Dublin. Um portão alto com a bilheteria ao lado, escrito em letras vermelhas, bi-lhe-te-ria em forma de arco, acompanhando a forma do buraco feito na parede pelos meus primos, os idealizadores do Circo.

Estávamos todos entre 10 e 15 anos.

O apresentador sempre iniciava o espetáculo com toda a pompa de qualquer Circo de verdade: “Respeitááável público! ”, o público? Eram os outros meninos e meninas, e alguns pais, que pagavam a entrada para assistirem ao “fantástico” Circo Dublin da Rua 13 de Maio.

Lembro de Osmar, filho de Seu Jota, criança prodígio, tocando sanfona; Wilson no acordeom e Chiquinho, seu irmão, no pandeiro, tocavam entre uma apresentação e outra, imprimindo um clima amacordiano (Amacord, filme de Fellini) ao cenário. Havia os palhaços, e uma das cenas que me recordo bem, foi lá no camarim, o pau cantando entre o palhaço e o maquiador por que a pasta de dente, único material para a maquiagem, caíra no olho dele. Foi tapa prá lá, tapa prá cá, mas a turma do “Espetáculo deve continuar…” conseguiu apartar a briga.

Os “leões”, cachorros vira-latas atraídos da rua por pedaços de ossos amarrados em barbantes, eram capturados para serem exibidos à noite, horário nobre de qualquer circo que se preze.

Pedro, filho de Chora Menino (seu pai ganhou este apelido por que vendia pitombas e puxa-puxa e cantava o antigo pregão: Oi, chora menino pra comprá pitomba, Oi, chora menino pra comprá pitomba, atraindo sua freguesia), era o vendedor de bombons, que com um tabuleiro com alça de couro, ficava circulando entre o público sentado em uma arquibancada improvisada esperando, ansiosamente, a abertura do espetáculo.

É importante destacar que na época não havia televisão em Caruaru, havia apenas rumores de que estavam instalando uma antena no Morro Bom Jesus e, segundo César, a discussão que rolava na Praça Cel. Porto era se na televisão iria passar os filmes do Cinema Santino ou do Santa Rosa.

A atração principal era César, o trapezista, mas o número que mais criava comoção (Ohhhh!) era Monquinha, minha irmã, com três anos, vestida de bailarina e que, com os braços abertos, equilibrava-se nos ombros de César que andava, cau-te-lo-sa-mente, em volta do picadeiro. Esta apresentação, ao som de suspense do pandeiro de Chiquinho, emulando um rufar de tambores, eletrizava a todos.

A estrutura do trapézio eram dois pedaços de trilho de trem unidos por um cano, formando um U invertido fincado na terra. O trapézio mesmo, incialmente, era o de Napoleão, filho mais velho de Sr. Luiz Monteiro. Trapézio de responsa, profissional, comprado em “Récifi” dito em tom esnobe. Mas aí surgiu um problema de disputa de poder, como Napoleão era o dono do trapézio ele, igual ao dono da bola em jogo de futebol de rua, queria ser o trapezista no lugar de César. Formou-se a dissidência, devolveu-se o trapézio de Napoleão e ele ficou de fora.

O que fazer?

Encomendou-se um trapézio a Seu Miguel, cuja marcenaria ficava na Rua João José do Rego, vizinha a casa de Vovó Alaíde. Seu Miguel, que tinha um auxiliar surdo-mudo, caprichou e como todo bom artesão que se orgulha da profissão, superou em qualidade e estética o Trapézio de Recife de Napoleão, o expurgado.

Pronto! O Circo estava salvo, e por aí foi, aquela experiência mágica que nos levando a viajar, semana após semana, encantou a vida de todos da Rua 13 de Maio, até que um dia…..

O cascalho que ficava no picadeiro precisou ser trocado e fomos todos com Murilinho, meu primo e irmão de César, guiando a Charrete da fazenda – me lembro agora do nome do cavalo, era Manchete, como a revista Manchete –  para a Serralharia São Judas Tadeu, lááá depois da Rua Preta. Fomos comprar cascalho novo. Murilinho, que depois, na vida adulta, iria reproduzir um gosto incontrolável por velocidade quando guiando carro, se animou e fez de Manchete e da charrete sua biga, e tal e qual a Charleston Heston naquela cena famosa de Ben-Hur, baixou o chicote no lombo de Manchete e o bicho disparou descontroladamente.

Só que a Rua Preta não era o Coliseu, nem Manchete era aquela bela parelha de cavalos brancos do filme, resultado: na descida da rua, Manchete voava sem controle. Àquela altura, já sabíamos que iríamos parar somente quando batêssemos em alguma coisa sólida. A charrete se chocou com velocidade e forte impacto em um caminhão estacionado na frente da São Judas Tadeu, quebrando seus faróis e os dentes de Manchete.

Tio Murilo, que assumiria o prejuízo, decretou: acabem o circo!

E assim foi como o nosso Cinema Paradiso da Rua 13 de Maio se findou. O tempo, não sabíamos, se encarregaria de levar todos estes personagens para outros destinos; alguns com a ajuda da sua companheira inseparável, a morte; outros, atraídos pelos seus destinos deixaram Caruaru, como César, o trapezista, que se apaixonou por Fátima, a cearense, e hoje tem uma bela família lá; Monquinha, a pequena bailarina de louça, que o amor por Greg a capturou, foi viver no Canadá, perto do Alaska, e hoje, com seis filhos e quatro netos, vive feliz.

 

P.S Foi perceptível a emoção de César, hoje aos 63 anos, quando, por telefone, falei que queria detalhes sobre a experiência do Circo Dublin. Empresário, estava se dirigindo à uma reunião, parou para, com intensa alegria e emoção, falar deste passado. Intimou-me a ir em Fortaleza, passar um final de semana, só resgatando suas memórias da Rua 13 de Maio em Caruaru.

***

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

Esta crônica foi publicada originalmente na Revista Será? onde se permite a discussão e comentários sobre o texto. Para ter acesso ao texto e suas críticas clique aqui >>>

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