Os locais de bate-papo de Meu Pai.

jul 1, 2014 by

Rua 13 de maio e arredores – Os locais de bate-papo de Meu Pai.

 João Rego, Recife, 14 de Junho de 2013.

 

Maurílio Rego, Seu Lila, como era mais conhecido, como bom contador de estórias, causos e piadas, tinha o dom e o timing para isso. Juntava sempre amigos ao seu redor, ou então, depois do trabalho ia ao encontro dos mais diversos personagens da Rua 13 de maio e arredores; sapateiros, marceneiros; seleiros e, aos sábados, no Bar de Chaguinhas finalizava a semana.

Lembro que logo depois do DER, havia em uma casa no fim da Rua 13 de maio, já entrando na Rua Preta, bem na esquina, um sapateiro (não lembro seu nome), que a guisa de ir apanhar algum sapato levado para conserto, papai ficava um bom tempo sentado, contando e ouvindo estórias. Era aquela conversa improvisada, gostosa, sem se preocupar com o tema nem com compromissos. Recordo-me do sapateiro com tachas na boca, o sapato enfiado no formão de três pontas e conversando, batendo seu martelo, passando cola, sem deixar as tachas caírem.

Outro ponto era a oficina de Seu Miguel, o marceneiro, que antes funcionou na Rua 27 de Janeiro, aquela paralela a Rua 13 de Maio, que se iniciava na ladeira da Cadeia e terminava na Travessa 15 de Novembro; depois mudou-se para uma garagem na Rua João José do Rego. Seu Miguel me passava uma forte impressão de perfeccionista com seu trabalho, tamanho o zelo que deixava transparecer em seus movimentos, transformando com habilidade invejável, com seu formão, serras, colas, martelos e pregos, a madeira bruta em móveis e outros utensílios. Ele tinha um auxiliar surdo e mudo, jovem ainda, e ambos trabalhavam com camisetas brancas sem manga e usavam calças de caqui azul, como diz a música de Onildo Almeida “Calça de arvorada que é prú matuto não andar nú”, pois bem, até hoje nunca entendi a mágica que papai fazia para contar piadas e o auxiliar surdo e mudo de Seu Miguel entender e cair na risada.

Eu, pequeno, entre oito e dez anos, o acompanhava, sem nem imaginar que a vida teria, um dia, um ritmo muito diferente do ritmo agradável de conviver com as pessoas, com tempo para “jogar conversar fora”.

Ele tinha por hábito, diariamente, logo após o jantar, de ir para “seu” banco na Praça Cel. Porto. Fumando seu Hollywood sem filtro passava a noite (essa é uma expressão forte, pois se dormia às dez) contando piadas ou gozando com a cara dos outros. Juntava-se em torno dele os adolescentes, e tinha João Doido, um personagem típico em toda cidade do interior, um sem teto e alcoólatra que perambulava pelas ruas e, as vezes, dormia na Praça. João Doido se aproximava do grupo e se integrava para ouvir suas estórias. Acho que era o único momento leve da vida dele.

O Bar de Chaguinha, ficava na Djalma Dutra, aquela que corre por baixo da Praça Cel. Porto e vai descambar na frente do Colégio das Freiras, e lá, numa junção de ruas, qual uma fonte d’água, era onde nascia a famosa Feira de Caruaru. A Feira subia a Rua do Comércio se avolumando, envolvia a Igreja da Conceição indo findar-se no Mercado de Carne (o Açouge), lááá prás bandas do Lactário. Voltando ao Bar de Chaguinha (nunca descobri por que esse apelido), vizinho havia a barraca de bombons de Sorriso, uma construção de madeira em forma circular, na entrada de uma ladeira que ia dar no Rio Ipojuca. Bem atrás do Bar, já descendo a ladeira, num quartinho, havia um artesão-armeiro que fazia e concertava espingardas de soca-soca e outras armas. Esse era também outro personagem do circuito de bate papo de Seu Lila.

Na época não haviam Ibama nem consciência ecológica. Todos tinham suas espingardas e a caça era um dos “esportes” favoritos por aquelas bandas da Rua Preta. Começava-se pirralho com baleadeiras (badoque ou bodoque em outras regiões) matando sibitos e lagartixas pelo Morro Bom Jesus; depois, adolescente, caçava-se com espingarda de baixo calibre, a famosa Soca-Soca ou a 36, muito boa para rolinha e nhambú e, à medida que ia crescendo, tinha-se o aval paterno, sempre o pai!, para caças maiores: tatu, tejú e outros bichos. Aí usava-se a calibre 28 ou até mesmo a 24, de cartucho. Era muito comum, nas casas destes colegas caçadores terem cachorros perdigueiros treinados para localizarem a caça.

Assim, em Caruaru dos anos 50, começo dos 60, como tinha sapateiro e marceneiro, tinha também armeiro, e agora me lembro, tinha Seu Cabo Lúcio, que era seleiro. Sua oficina ficava por detrás da Praça Cel. Porto, uma selaria que fazia, além de selas, chapéu de couro e até roupa completa de vaqueiro, com seus famosos adornos.

Cada um desses fornecedores era seu amigo e, os filhos destes também, pois adolescentes curtiam seu Lila, era com ele, lá no Bar de Chaguinha ou em outras ocasiões, que eles se iniciavam na arte de beber cerveja e, em torno disso, conversar e nutrir amizades.

Lembro-me que, como eu era pirralho, papai dizia:

– Joãozinho, você só podes beber a espuma por que ainda és criança.

Sorvia com um prazer danado a espuma de cerveja do seu copo. Não sabia eu que, nestes poucos anos que convivi com ele, foram treze anos, sorvia de forma misteriosa, sem palavras, seu jeito valioso de fazer amigos e tratar as pessoas sem nenhuma distinção de classe social ou qualquer tipo de hierarquia.

Essa foi uma das heranças mais valiosas que ele, sem perceber, me legou. Passei para todos meus três filhos.

***

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

 

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