A Casa Grande de Seu João do Rego e Dona Ernestina

jul 1, 2014 by

A Casa Grande de Seu João do Rego e Dona Ernestina – Meus avós paternos.

João Rego, junho de 2014.

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três….
(João e Maria – Chico Buarque)

 

A Casa Grande ficava na Praça Cel. Porto, 90, logo após o fim da Rua13 de Maio, que terminava na 312, minha casa. Esta casa, que nos parecia naturalmente eterna, era o símbolo do sucesso do empreendedor que foi Seu João do Rego, meu avô, como era conhecido. Aos dezesseis anos, vindo das bandas de Águas Belas-, chegou em Caruaru, junto com dois irmãos, com a corda e a cachorra, como se diz, e foi trabalhar de auxiliar de açougueiro lá no Mercado de Carne; isso, antes de 1900. Sair Águas Belas, terra da Tribo Fulni-ô, naquela época, era um ato de extrema coragem, pois era um lugar isolado do resto do mundo.

O desconhecido estava a poucos quilômetros, após a primeira montanha vista na linha do horizonte.

Em pouco tempo já tinha o seu próprio box e daí desenvolveu, ao longo dos anos, um importante patrimônio. Com grande habilidade para a negociação, articulação de parceiros e uma visão de futuro precisa, deixou, quando morreu aos 63 anos, um patrimônio de sete fazendas e cerca de cem casas. Como só teve a educação básica, não poupou esforços para dar aos filhos educação de mais alto nível. Um exemplo que me impressiona, foi em 1945, enviar seu filho mais velho, Mário, para fazer um estágio nos EUA! Outro filho, o caçula Milton Juarez, foi aviador e Comandante da Panair. Ou seja, nascer em Caruaru nos anos 20 e ter acesso a formação e conquistar empregos altamente qualificados era, guardando as devidas proporções, o mesmo que viabilizar para os filhos um curso no MIT ou Harvard.

Conta Dona Teresa, minha mãe que, em 1900, meu avô, na missa de Domingo da Igreja da Conceição, vê a mulher mais linda da sua vida e se apaixona. Era Dona Ernestina, minha vó. Se ele tinha biótipo de mameluco, meio negro, meio índio, Dona Ernestina fazia o tipo germânico, provavelmente de descendência holandesa. Na mistura, prevaleceu o DNA de Dona Ernestina.

A Casa Grande foi construída pelos dois, pegando na argamassa e no tijolo.

A Casa Grande

Construída no estilo colonial, olhava para a Praça Cel. Porto e havia um pé de Fícus Benjamim à sua frente. Era uma construção elevada, cerca de dois metros acima do nível da calçada, tinha dois terraços nas suas laterais e, no meio, o salão principal, com três janelões para a rua. Este Salão me impressionava, pois tinha, além das fotos dele e da minha vó em quadros enormes, um teto com desenho e pinturas, tudo de muito bom gosto.

Havia, em seu interior, um ar de Macondo, cenário de 100 Anos de Solidão de Gabriel Garcia Marques. Móveis antigos, impregnados das memórias dos mortos; quartos escuros sem janelas; cofre com botija; mesas enormes; e até, como no romance de Gabo, onde eles guardam uma avó em um guarda roupa e, durante duas gerações se esquecem dela e, até que alguém abre a porta e a velha sai vivinha e bulindo; na Casa Grande havia Tia Júlia, irmã de vovó Ernestina que, encarcerada em sua doença senil, chamávamos de caduquice, caminhava pelos corredores como um fantasma, sem a ninguém reconhecer, divagando em seus delírios. Ela tinha um hábito esquisito de roubar os copos da casa e esconder em seu baú no quarto. Lembro que a minha curiosidade me levou a abrir este baú e fui pego no flagra por ela; aí tempo esquentou, ela me puxando pela orelha e eu chorando e com medo – a loucura sempre nos mete mede – me levou até meus pais. Dona Teresa, minha mãe, não quis saber de caduquice e rodou a baiana “” que em filho meu ninguém bate” e foi aquela confusão, acalmada por vovó Ernestina e papai, que sempre tiveram natureza conciliadora. Dar um banho em Tia Júlia era muito parecido com as lutas de artes maciais de hoje, só que muito mais animada, ela se debatendo como se estivesse sendo levada para um incinerador, mamãe a segurando pelos pés, Tia Rosilda por um braço, Maria Dindinha em outro até chegar ao banheiro. Eu, pequeno, olhava e pensava que Tia Júlia já tinha vindo ao mundo assim, velha e desmiolada. Mais tarde, soube que sofreu uma desilusão amorosa que quebrou o espírito.

Era no terraço do lado direito, de quem olha a casa de frente, onde havia as comemorações de fim de ano. Todos os filhos, noras e netos vinham ao encontro do Casal para juntos celebrarem a família.

Tio Jú, o aviador, e Tia Maria Lúcia, que moravam em Belém, vinham com seus três filhos: Bebeto, Paulo Sérgio e Marcelinho. Tio Mário, casado com Tia Vitória Sansoni, que moravam na bela Rua Paul Redfern, com seu quintal dando para o Jardim de Alá, em Ipanema, vinham com Mário Heitor, Eliane e João Carlos.

A palavra aviador me remeteu para uma lembrança muito importante sobre Tio Jú. Ele foi contratado, depois que a Panair faliu, pelo bilionário americano Daniel Keith Ludwig, visionário e tão misterioso quanto o famoso Howard Hughes, retratado no filme de Martin Scorsese, O Aviador, com Leonardo di Caprio.

Daniel Keith Ludwig construiu no coração da Amazônia a Fábrica de Celulose Jari. Quando vinha ao Brasil para visitar seu empreendimento, Tio Jú era seu piloto particular e o levava de Belém ao Jari.

Seu João do Rego arremetera muito bem alguns dos seus filhos, os outros dois, Tio Murilo e papai, ficaram em Caruaru para dar suporte a administração das casas e das fazendas.

Tio Murilo mais envolvido com as fazendas; e papai, que havia feito o curso de edificações na Escola Técnica Federal em Recife, ficava no Derby, onde hoje é a FUNDAJ, apoiava vovô na construção, manutenção e gerenciamento dos alugueis das casas.

Grande parte da Rua 13 de Maio, partindo da Travessa 15 de Novembro e Rua João José do Rego (nome dado pela Câmara de Vereadores após sua morte) até a casa de Seu Luís Monteiro, a mansão comprada aos irmãos Souza do Curtume, foi construída pelo meu avô com a ajuda de meu pai.

O quintal da Casa Grande. 

Se a Casa Grande era o epicentro físico e símbolo da influência da família Rego no desenvolvimento urbano e rural de Caruaru daquela época, fazendo a junção da Rua 13 de Maio com a Praça Cel. Porto, o quintal, ou quintais, da Casa Grande formavam o universo mágico, onde nossa infância foi vivida com extremo e rico prazer.

O primeiro quintal era o que ladeava a Casa Grande, onde Tio Murilo construiu a Academia de Jiu Jitsu. Tio Murilo era faixa preta terceiro Dan em Jiu Jitsu e havia feito sua formação com Hélio Grace, o criador desta arte marcial. Tinha também uma enorme e estrondosa – para meus olhos e ouvidos de criança – Harley Davidson.

Por trás da Academia de Judô, como ficou conhecida e que seu aluno Waldir deu continuidade, havia pés de goiaba, figo, criadouro de pombos e uma parte das casas de abelhas de Tio Murilo. Foi nesse quintal, numa daquelas grandes ocasiões de encontro de família, que assisti aterrorizado, os empregados matarem um porco enorme que, pendurado pelos pés e guinchando, foi morto, sangrado, desossado e tratado para ir para o enorme fogão de lenha inglês, onde Dona Enedina, a cozinheira da Casa Grande, junto com Maria Dindinha, a babá de meu pai e de seus irmãos, iriam transformá-lo em lauto banquete.

A atração principal deste quintal era um frondoso pé de Umbú-Cajá onde passávamos horas, cada um em seu galho, imitando a Casa da Selva de Tarzan. Foi numa dessa brincadeira que César se estatelou lá de cima e quebrou uma costela. Sou capaz de me lembrar de todos os galhos e “seus caminhos” na árvore.

Um outro quintal era o que ficava por trás das casas que seguiam na direção a Rua Preta, logo após a Academia de Judô, e parava antes da Casa de Seu Luís Monteiro, na casa de seu Manoel Teixeira, pai de Paulo, Lú e Sandrinha. Este não tinha nenhum atrativo, exceto a adrenalina que despertava em nós por conta dos porcos de raça, aqueles com presas enormes de Javalis, que tio Murilo criava.

É importante destacar que todos os meninos da rua tinham uma grande habilidade para caminhar por cima dos muros e das telhas, levei muita pisa de papai por quebrar telhas, explorando os quintais da Casa Grande, que juntos ocupavam um quarteirão enorme. Uma coisa gozada, que me lembro agora era, que quando a turma se cansava de jogar bola de gude ou finca, alguém dava a ideia:

– Vamos roubar frutas no Quintal da Casa Grande? E eu, filho do dono, embarcava nessa, como se nem dono fosse.

O terceiro e maior quintal, é que me referi no texto do Circo Dublin. Era o que, de longe, mais nos atraía e que separava fisicamente os quintais da Rua 13 de Maio dos quintais das casas da João José do Rego. Em sua entrada havia três grandes pés de eucalipto, vizinho a estes, entre as inúmeras caixas com abelhas, havia uma construção muito interessante em forma de Oca, tendo erva cidreira como teto. Nela morava um belo casal de veados campeiros! Não se espantem por que Tio Murilo era um inovador inquieto e este quintal era seu laboratório, onde, além das abelhas – foi um dos introdutores da criação de abelhas italianas no estado – trouxe para lá cotias, um pequeno roedor, danado para se reproduzi e que infestou as casas; galinhas de raça enormes; belos coelhos chinchilas, , e, uma infinidade de árvores frutíferas: siriguela, azeitona preta, mamão, goiaba e, o que era muito raro em Caruaru, tinha um parreiral de uvas Izabel.

Ou seja, o que era para ele um pequeno laboratório para seus experimentos com suas criações e frutas, para nós era um vasto paraíso, onde nas tardes ociosas explorávamos, desfrutando-o (literalmente) com intensa curiosidade e prazer. Meu lugar preferido era um pé de azeitona preta que, na época de frutificar ficávamos (eu, Carlinhos e Santa) horas chupando aquelas deliciosas frutas. E não dava nem para esconder onde tínhamos estado, pois a língua ficava azul.

***

Estas memórias remontam aos meus quatro a seis anos, pois nasci em 1954 e lembro bem um dos empregados que cuidavam destes quintais cantando e dançando à minha frente “Eu vou prá Maracangalha, eu vou. Eu vou de chapéu de palha, eu vou!” Sucesso de Dorival Caymmi em 1956 e que, certamente tocava na rádio no final da década de cinquenta, começo dos anos sessenta.

Maracangalha era, para meu imaginário de criança, um lugar distante e bom, pois ele iria até sem Anália! Tão bom quanto foram os quintais da Casa Grande na minha infância.

***

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim.

 

Seu João do Rego e Dona Ernestina com filhos, genros e noras em frente a Casa Grande

Seu João do Rego e Dona Ernestina com filhos, genros e noras em frente a Casa Grande

Dona Ernestina, minha avó paterna.

Dona Ernestina, minha avó paterna.

 

 

Seu João do Rego, aos 63 anos, pouco antes de morrer

Seu João do Rego, aos 63 anos, pouco antes de morrer

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

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6 Comments

  1. Sóstenes Lennon Fonseca

    Meu pé de laranja lima…muito bom, que viagem lúdica, ao ponto de me transportar imaginando, maloqueiro dos bons que fui, o que teria feito nesse seu mundo maravilhoso e tão propício a criatividade dos anos 60.
    Voltando a realidade, fui aluno do Valdir na Academia, parceiro do Murilo (o pai) em algumas traquinagens e, seu inquilino na Pça. Cel. Porto.
    Não sei até hoje o que nos uniu, por conta da diferença de idade, mas, sentia o carinho e respeito que ele me dedicava, ao ponto de algum tempo depois, ter sido padrinho do meu primeiro casamento (acho que já comentei isso)…o que não revelei, é que ele me perguntou o que eu queria de presente e a minha resposta foi: sair da igreja com a noiva (esposa) na sua Harley-Davidson e ir até o hotel em Boa Viagem. Casei na igreja do Espinheiro.
    A resposta dele: “Azedo” se você quiser lhe dou uma casa de presente, mas, na moto você não vai, pois tomou todas antes da hora do casório. Resultado: como não tinha ainda o sonho da casa própria, fiquei sem os dois.
    Obrigado, Joãozinho, por esse retorno.

  2. José Tôrres

    Relembrar é voltar no tempo. Ainda mais quando se encontra um escritor do seu tipo. Por favor, continue nos deleitando com suas tão detalhada relembranças

  3. Monica Rego Dorowolski

    Amei as memorias .
    Ontem eu estava conversando com o Leon, o meu filho mais novo, sobre a minha experiencia de trabalhar com os mendigos .Minha preocupação é que ele não sabe muito de minha infância.Este artigo abre a porta de minhas memorias.
    Muito obrigada ..
    Eu me lembro andando de bicicleta monareta no corredor da casa grande.
    Dormindo na cama de vovó com ela a luz do candieiro.
    De repente muitas memorias começaram a acordar .
    Continue escrevendo .Beijos e meu amor.Monquinha

  4. Marco Aurélio de Oliveira.

    Lembro do pé de azeitona. Ficava bem no fundo a casa do sr. Henrique e Mercês Gomes. Certa noite na academia de judô acontecia uma luta importante, tanto que ficou lotada, não cabia mais ninguém. Tentei com outras pessoas asisstir pela fresta de uma porta improvisada quando escapou um cão bravo que ficava no quintal da casa grande. A correria foi tanta que derrubaram a tal porta por cima de mim e de alguns que estavam comigo. Pensei que fosse morrer esmagado com tanta gente fugindo por cima da porta.

    • João Rego

      Era Kid, o cachorro de Tio Murilo, brabo que só a gota! Já vi que tu não tinha sorte com os cães.

  5. Carlos Alberto Rêgo

    Joaozinho.
    Acabei de ler e me emocionei muito,foi como se pudesse sentir o pouco que vi e vivi neste lugar tão fantástico.
    Grande abraço.
    Beto.

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