Introdução ao Módulo Psicanálise

jun 30, 2014 by

João Rego, junho de 2014

Creio que o retorno aos textos freudianos, que foram objeto de meus ensinamentos nos últimos dois anos, deu-me a certeza cada vez maior de que não há apreensão mais ampla da realidade humana do que aquela que é feita pela experiência freudiana.
LACAN, Jacques in Le symbolique, l’imaginaire et le réel – Bulletin de l’Association freudienne, No. 1, nov, 1982.

 

Sobre os Artigos

A psicanálise se impôs à minha vida como uma ajuda possível ao meu espirito quebrado, diante de tantas desconstruções de ideologias, — assim como da práxis política —, e certezas que havia “religiosamente” acreditado e vivido. Nada agora tinha mais validade, uma realidade histórica que, antes sólida, naquele momento, se desmanchava no ar, parafraseando Karl Marx.

Isso foi no período do fim da experiência “comunista” na União Soviética simbolizado em 1989 com a queda do Muro de Berlim.

Após ter perdido o pai biológico, aos treze anos, agora perdia os pais míticos, ou seja, ídolos e ideologias políticas que me sustentaram durante parte importante da minha vida. Estava eu com trinta e três anos quando, destroçado, demandei análise.

Foi na instituição Traço Freudiano, Veredas Lacanianas e, principalmente através da análise pessoal, que fiz minha formação psicanalítica. A prática clínica, veio como decorrência natural da apresentação de trabalhos em Seminários e encontros, possibilitando demandas de analisantes. Durante uma rica década, exerci a prática clínica da psicanálise, sempre associada a prática de leitura nas instituições (Um analista isolado é uma espécie de autista – José Zuberman). Foi um tempo de reconstrução e fortalecimento do meu universo afetivo; da ampliação da minha visão de mundo sobre o sujeito e a sociedade; assim como a compreensão da cultura como “um resto” deste conflito estruturante entre estas duas vertentes que move nossa humanidade: pulsão e civilização, sujeito e sociedade, ou se preferirem, Eros e Thanatos.

São textos, em sua grande maioria, datados—, ou seja, para lê-los é preciso o leitor se situar no momento em que foi escrito—, mas nem por isso os descarto sabendo da sua importância para construção da minha formação intelectual.

Sobre Registros de uma Análise.

Linguagem, memória e inconsciente.

A linguagem é o meio que nos constitui. Não há nada que exista no mundo que não seja por ela nomeado. Se não é nomeado, não tem nome, é por que não existe, ou existe mas não foi ainda descoberto pelos homens. Nosso nome, escolhido pelos pais ou parentes; as palavras da mãe, quando ainda estamos em seu útero; nosso idioma, carregado de história e cultura; são expressões da linguagem que vão preparando os trilhamentos da nossa existência, desde a vida pré-uterina – sim, quando ainda éramos puro desejos dos pais — até muito depois da nossa morte, quando seremos apenas lembranças, em fotos, vídeos e fragmentos nas memórias daqueles que amamos, odiamos, ou simplesmente aqueles que, ao longo desse caminhar da nossa existência conhecemos.

Não há sequer pensamento sem linguagem. Um sintoma psíquico é um afeto, algo ainda em estado bruto, se debatendo em nosso mar de angústia interior, demandando uma fala, uma escrita, para ser nomeado, libertando-se (e nos libertando) das primitivas amarras do inconsciente.

O inconsciente não dá, senão traços. ( J.Lacan)

Resgatar, através da escrita, reminiscências da infância, é uma forma de lidar com um passado que, no mundo real – onde o tempo é o senhor de todas as coisas, pois a ele nada resiste —já acabou. Buscamos dar sentido a afetos vivido e guardados em nosso espírito, quando não tínhamos ainda o acesso as palavras para expressá-los. Eles, estruturados como uma linguagem, estão latentes e, para sempre, fazendo efeito em nossa formação como sujeito.

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DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

 

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