Europa 2007 – A chegada em Barcelona.

jun 27, 2014 by

Sexta-feira da paixão

João Rego, Barcelona 6 de abril de 2007.

A viagem de Lisboa para Barcelona é muito tranquila. Apenas uma hora de voo. Fomos por uma companhia, a Easy Jet, especializada em tarifas baratas. Como é apenas uma hora você não sente falta de comida. O chato é que fica o pessoal vendendo coisas para você, uma espécie de camelô do ar.

Quem comandava a equipe era um suíço que havia morado no Brasil, durante sua infância e adolescência, ou seja, era quase brasileiro. Ele foi muito simpático e seu português é impecável, tanto que eu tinha certeza que ele era brasileiro.

A queda e o susto

Chegando em Barcelona, o primeiro passo é logo comprar o ticket que nos dá direito a andar durante três dias em tudo quanto é de meio de transporte, sem falar ainda em vários teatros e casa noturnas que dão descontos. Como somos “jovens” e desenrolados, e como também vimos que o Hotel ficava a um passo do local do ônibus que faz o trajeto do aeroporto para o centro de Barcelona, decidimos ir de ônibus.

O problema do táxi, é que como estamos em um grupo de cinco pessoas, temos que alugar dois táxis, aí o custo vai lá pra cima.

Preferimos gastar estes euros em vinho, pães, jamon e queijo.

Quando o ônibus está chegando a Praça da Catalunha, que é praticamente o coração de Barcelona, pois fica de frente da principal Rambla, Norma pisa em falso e cai batendo com a costela na cadeira do outro lado. Fabiana ainda tenta segurá-la mais já tinha havido o impacto.

Recomposta, pois ela é dura na queda, ficou durante alguns dias com dores, mas decidiu não utilizar o seguro saúde. Filha de médico, ela raciocinava friamente: costela quebrada não tem o que fazer, é esperar. Na base do anti-inflamatório, não deixou de nos acompanhar nos percursos diários, a noite às vezes ficava descansando, mas muito raramente perdia a folia do vinho.

O Hotel Plaaaaazzzzzzzzaaaa!

Uma merda se comparado ao de Lisboa, mas era bem perto das Ramblas, depois eu falo sobre elas. No vídeo que filmo os quartos, não deixo de externar minha frustração, pois Lisboa era excepcional, com uma vista belíssima da cidade. Aqui eu teria que me conforma com umas janelas velhas, a dois metros de distância da minha, canos de esgoto e um cheiro que a princípio pensei que fosse do aquecedor, mais depois, quando o hotel foi enchendo de gente, para o meu desespero, era o cheiro de merda mesmo, que subia pelo respiradouro do hotel, onde minha janela teve o azar de dar nele.

A Procissão e Las Ramblas.

Bem, passado o impacto inicial do hotel, fomos todos correndo para Las Ramblas que são as famosas avenidas de Barcelona, belas e largas com uma multidão subindo e descendo e se espalhando pelas ruas vicinais a elas. É gente que só a gota! Bem, não deixa de ser interessante, pois à medida que você vai andando – ela tem 1,5 km- você vai vendo todo o tipo de artista: estátuas, um cara fantasiado de Ronaldinho fazendo embaixadas com uma bola, outro fantasiado de bruxo, que ficava parado e depois dava um grito aterrorizante.

Antes, porém, encontramos uma enorme procissão, com os fiéis vestidos com umas máscaras iguais às usadas pela Klu Klu Klan.

Sobre a procissão publico trecho de um e-mail que enviei a família.

“Chegamos em Barcelona na sexta-feira santa e fomos direto para a La Rambla, nunca vi tanta gente junta em uma rua só. A quinta avenida em Nova Yorque é a metade do fluxo de pessoas daqui, pelo menos em um feriado importante.
Assistimos a uma procissão com uma nossa senhora enorme, cheia de velas, carregada nas costas por alguns fieis. O povo bate palma, se emociona, chora. Tudo é acompanhado por uma banda tocando um tipo de música que lembra um cortejo militar. Depois li no jornal principal daqui, o El Pais, que no interior tem gente que sai batendo nas costas com um chicote, como os iranianos fazem naqueles eventos religiosos.
É incrível como a barbárie aliada à religião sobrevive aqui na Europa.”

Voltando a Las Ramblas.

Havia um cara gozado, deitado no chão dentro de uma caixa com a cabeça escondida na caixa e duas pernas falsas voltadas para cima. O que se via mesmo do corpo dele eram as mãos que ficavam arriadas, até quando alguém colocava uma moeda na lata que ficava a sua frente, aí ele se movimentava: botava a cabeça para fora, as pernas falsas balançavam, as mãos gesticulando freneticamente, tudo isso por alguns segundos, para depois, feito um peixe chupa-pedra voltar para a sua toca. O que me impressionou foi a babaquice do povo em colocar uma moeda para ver aquela cena. Era muito dinheiro que rolava. Uns poucos minutos que fiquei na frente, o cara não parou um minuto de fazer o seu show, com a cabeça para fora, fazia cara de besta, balançando as mãos e tum, tum, tome euro entrando na lata.

Mais adiante vi uma enorme multidão em volta de algo que, pela excitação da turba, devia ser um show de lascar. Sabe o que era? Um cara com uma cadela da raça labrador e seis filhotinhos mamando. E olhe que eu gosto de cachorro, mais ali comecei a construir uma teoria sobre o sucesso das Ramblas.

Uma cena interessante foi um tailandês com uma fantasia daqueles deuses deles, cheia de adereços, um negócio pesado mesmo. Tinha ele uma cobra de madeira na mão que balançava a cabeça de um lado para outro. Ele não podia se mover muito para não cair sua pesada fantasia. Aí vem um grupo de quatro jovens negros – ou afras descendentes, como queiram- e aí eles se postaram atrás do deus tailandês e começaram um rap zonando com a cara do deus. Eles eram muito bons, pois cada uma fazia os sons de batida com a boca e um deles cantava o rap. Não entendi bem o que dizia, mas sabia que era algo jocoso com cobra que o tailandês segurava na mão. O deus tailandês, vendo seu show ir par as cucuias, sem poder nem se virar para encarar os rappers, preso no peso da sua fantasia só fazia rir, e para tentar fazê-los parar mexia o braço tentando fazer com que a cobra de madeira, coitada, os alcançasse.

Todo mundo ria com a cena.

Dois dias depois, estávamos de volta as Ramblas e Elba, que tem um problema de dores nas costas quando anda muito, tem que alongar. Não é um alongamento discreto, é meio espalhafatoso. Ela se debruça e toca com as pontas dos dedos nos pés, e fica ali por alguns minutos, parada. Ou seja, quem passa por trás ver aquela cena de estranho contorcionismo. Como estávamos cansados, paramos eu, Norma e Fabiana para esperar Elba, olhando calados. De repente, um gringo que ia passando, parou e ficou ali esperando, junto com a gente, o show que Elba iria apresentar. Rimos muito, pois depois que se desfez o equívoco, o cara chispou.

Bem, minha teoria sobre o sucesso das Ramblas, é que é uma avenida como outra qualquer, só que criada para pedestres. As atrações não são nada demais, você encontra em qualquer esquina do mundo essas estátuas até na nossa Rua Bom Jesus, nos seus bons tempos. Lembram do mímico argentino? O principal motivo de sucesso somos nós, os turistas que, sem termos consciência disso, formamos aquela atraente multidão.

No fundo vamos lá para nos vê.

É assim mesmo o conceito de alienação de Karl Marx sobre a relação de alienação do operário com a mercadoria.

***

Como estávamos com fome, comemos um sanduíche caro que só, com umas fatias transparentes de queijo e presunto, acompanhado de uma garrafa de vinho.

Bem, no outro dia descobriríamos o Carrefour com seus vinhos maravilhosos de 3 euros. O Sangue de Touro é excelente.

Era quase meia noite e o movimento não dava nem sinais de que iria diminuir, voltamos andando para o hotel, que fica a poucos metros dela.

Fomos todos dormir pensando como Norma estaria no outro dia, quando a dor de uma pancada dada em um dia, vem com sua potência total no outro.

***

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

 

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