Morro de São Paulo, a Rua Caminho da Praia

maio 1, 2014 by

Impressões de um viajante: Morro de São Paulo, a Rua Caminho da Praia

*João Rego

Outubro de 2013

O Morro de São Paulo tem à noite, na Segunda Praia, a área de shows e bares, mais para quem gosta de som alto e misturado. Um dia antes tinha havido um show evangélico com caixas de sons enormes. Se estivéssemos em um dos hotéis da área teríamos fugido da ilha, a nado, noite adentro. Ou então teriam nos convertido.

Mas na Primeira Praia, aquela do atracadouro, tem a Rua Caminho da Praia. Lembra a Rua principal de Porto de Galinhas ou de Pipa, com uma enorme diferença: no seu final tem uma praça. Sim, a rua termina na Praça. E, para mim, que vivi minha infância na Praça Cel. Porto em Caruaru, foi uma prazerosa descoberta. Caminhar sem pressa, vendo as pessoas – todas leves e simpáticas -, os restaurantes e bares alinhados com as lojas de roupas para, no final da Rua, sentar em um banco de praça e pensar em nada. Se há uma grande perda na qualidade de vida de quem vive em grandes cidades, além do isolamento em seus apartamentos e do infernal trânsito, é a perda do hábito de sentar em uma praça à noite e jogar conversa fora com amigos e desconhecidos.

Aos poucos vamos conhecendo aqueles ricos personagens (e cada qual no seu canto, em cada canto uma dor – espero que Chico Buarque não venha me cobrar por citar parte da sua música.), como o garçom argentino Ale, extrovertido e apressado, que trabalha no Restaurante El Sítio, pertencente a um chileno. Ou o famoso pastel da Praça que fica numa barraca em frente ao Restaurante do chileno. O dono, com seus quarenta e poucos anos, não se envolve na produção nem na venda dos pasteis. Toca seu violão e canta os clássicos da MPB, Rock e outras músicas que atraem, sempre, um grupo de turistas em volta dele, cantando e dançando. No carrinho de pasteis, soube depois, tem um amigo dele (pelas barrigas pensei que fossem pai e filho) que fica trabalhando, sempre sem camisa e suando que só gota, por conta do calor do fogo da carroça. Pois bem, o pastel suado vende muito!

Mais adiante encontro um simpático pós-hippie e intelectual com enormes cabelos batendo na cintura com dreadlocks. Pelo sotaque vejo que é carioca. Tem seus 50 anos, é alto, magro e culto. Uma figura! O que faz? Vende livros usados espalhados pela calçada e, pelo que observei, o único que lê os seus livros é ele mesmo. Do outro lado da rua conhecemos a simpática Lúcia, italiana com seu excelente Restaurante Enoteca Mediterrâneo.

Encontramos uma barraca vendendo caipiroska de cacau. A baiana, muito simpática, preparava incansável seu coquetel com habilidade e o servia dentro da casca do cacau, fruto que tem belas cores e textura.

É lugar para não se pensar em trabalho ou qualquer outra fonte de estresse. Planeja-se cada dia de acordo com o nosso desejo imediato de fazer um passeio, ir a uma praia mais distante ou simplesmente ler um bom livro na rede com vista para o Farol da Ilha. Naquela rua caminha-se leve junto com a população local e turistas de várias nacionalidades, todos implicitamente pactuados em viverem os prazeres da ilha, aqui e agora.

No final da rua, em direção a nossa pousada, perto de uma ladeira, tem um simpático Café com crepes, doces e tudo de bom para se encerrar a noite. Todo de madeira, o Café tem uma atmosfera acolhedora. Apelidei-o do Café da Ladeira da Preguiça (Eita, essa é de Gil), pois, depois de jantar e beber, é com um passo lento que descemos aquela ladeira em direção à nossa pousada.

P.S. Na última crônica vou contar sobre o Capitão Pipoca e nossa “fuga” pelo ar.

 

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DITOS &ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

Este texto foi publicado originalmente na Revista Será? onde se permite a discussão sobre o tema. Para ter acesso ao texto e suas críticas clique aqui >>>

 

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