Sempre aos Domingos.

abr 30, 2014 by

Uma homenagem a Mário de Andrade, meu sogro.

João Rego – junho de 2001[1]

Sua generosidade, inicialmente para mim, se expressou através da carne-de-sol de porco, farinha e banana que trazia de Caruaru todas as semanas quando ia para a casa da praia, em Rio Doce, onde morávamos, eu, Elba sua filha e Maurílio, nosso primeiro filho, ainda na barriga da mãe.

Tinha a imagem de um pai que, de forma prematura, eu havia perdido aos 13 anos.

Ele ria sem se lembrar, quando eu o recordava que salvara a minha vida aos cinco anos quando fui atropelado por um caminhão e atendido na emergência do Hospital São Sebastião de Caruaru. Por coincidência era ele quem estava de plantão, e foi ele quem também me operou da fratura da clavícula. O anestesista foi Zé de Melo.

Sempre me impressionou sua habilidade para concertar as coisas da casa e do carro. Eu, absolutamente desprovido destas o invejava pelo jeito e prazer com que saía para comprar o reparo da bomba, ou algo que, com suas ferramentas e máquina de furar deixava tudo sempre impecavelmente novo.

Adorava ouvir suas estórias de caçadas ou de torneio de Tiro-ao-Prato em Caruaru.

Lá estavam suas espingardas espanholas que não o deixava mentir.

Impressionei-me muito com seu relato, de que no início da carreira médica ele chegou amputar a perna de um paciente anestesiando-a apenas com gelo. Descrevia isto e demonstrava como se estivesse me passando uma receita de bolo, tamanha a naturalidade.

E foi assim, naturalmente se instalado em mim aquela sensação de que mais que uma esposa eu havia também encontrado um pai.

Vieram os meus filhos, Maurílio, Ricardo e Guilherme, depois os de Fabiana e Tonho:Leonardo, Mário, e Vitor, e mais tarde os de Roberta e Felipe: Eduardo e Daniel.

A vida pulsando em seu ritmo frenético de criação e destruição, havia levado seu irmão Toinho, companheiro das infindáveis e repetidas discussões sobre a obra de Alexandre Dumas. Em contrapartida, o cercava de genros e netos, ao mesmo tempo em que, pela via natural, lhe tirava as forças e o debilitava.

O primeiro golpe foi à isquemia cerebral, que tirou parte da mobilidade do corpo, mais tarde recuperada, e atropelou sua fala, essa prejudicada até seus últimos dias.

Depois foi à queda no posto de gasolina quando o radiador estourou e ele caiu para trás se apoiando e fraturando os pulsos. Foram quarenta dias de cama, comprometeu um dos rins, e teve que extraí-lo.

Mais recentemente, suas quedas e fraturas, freqüentes e doloridas para ele e para quem o via naquele estado.

A dieta rigorosa que lhe tolhia o último dos prazeres possíveis: a mesa.

Tudo isso acontecendo, ao longo dos anos, e ele numa atitude impassível, como se aplicasse a consciência e a frieza de um médico que fora, agora sobre o destino do seu próprio corpo e da sua decadência biológica.

Aos domingos, nosso templo de encontro de toda a família, era o momento em que seus olhos brilhavam. Netos por todos os lados, vinho, violões, muita comida e conversa alta.

Era também a oportunidade de ouro de driblar a dieta a atacar os salgadinhos, apesar dos protestos das filhas.

Ele apenas ria.

Tentava, às vezes, estimular sua lembrança, tocando na gaita algumas músicas que sabia que ele se recordaria. “Chairmaine”, “Love letters” ou as “Bachianas no.5 de Villa Lobos”.

-Ah! Dessa eu me lembro! Dizia com um sorriso de menino que havia acertado a tarefa.

Riu muito quando cheguei e apertei o gesso no seu braço, que estava sob a camisa e fingi espanto.

-Dr. Mário que musculatura! Está em qual academia?

Chamei Guilherme para conferir e continuar a pantomina.

Ele ria muito. Este talvez tenha sido um dos presentes mais valiosos que á vida lhe deu: a facilidade de levar a vida senil sem reclamar. Estava com a família ao seu redor, estava feliz.

Externava sempre a saudade que sentira quando alguma das filhas faltava ao almoço de domingo.

E acho que havia um pacto implícito de todos nós para levar todos os filhos sempre aos Domingos para estarmos juntos, na casa do avô.

Por anos houve o ritual do filme no videocassete, logo depois do descanso do almoço. Ele era pura excitação. Há algum tempo ele já não tinha mais esse desejo. Talvez ficasse difícil de entender o roteiro.

Chegou o capítulo final do roteiro da vida dele. Crise, hospital e morte.

Cemitério, velório, enterro. Missa de sétimo dia. São os rituais que a igreja viabiliza para que a gente elabore a perda e o luto.

Resta a lembrança e a presença do seu ser em suas filhas e netos. Ah! Os narizes das filhas, marca registrada de Dr. Mário, quase como uma forma genética de carimbar sua posteridade.

Sua lembrança marcada a ferro e fogo em nossos espíritos. É a forma possível de imortalidade do ser. Não é pouco se, para nós o que fica é sua generosidade e amor a Norma, as filhas, genros e netos.

Vejo-o naquele Maverick dourado chegando de Caruaru e parando no portão da casa de praia, esperando que alguém fosse abrir (às vezes Xôxo, o caseiro já estava à espreita). Era felicidade plena em seu rosto, chegar naquela casa de tantas histórias. Lá encontraria a filha e o seu primeiro neto.

Será que tem Maverick no céu?

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DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

 

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