É possível filosofar com Plano de Negócios?

abr 30, 2014 by

João Rego*

Recife, agosto de 2012.

Relendo a vasta e fragmentada literatura sobre como elaborar um bom Plano de Negócios me deparei com uma reflexão que remete ao conceito de percepção de empresa, ou seja, daquilo que percebemos como empreendedor o que é a nossa empresa, diferente de como o mercado a percebe, ou deveria perceber.

Em Peter Drucker  falei sobre a visão topológica de empresa dele, o dentro – onde na empresa só tem gastos – e o fora – o resultado e a entrega dos produtos e serviços na interação com o mercado. Recomendando ele, que se dê mais ênfase ao lado de fora que é o que viabiliza a empresa ao longo do tempo.

Bem, na psicanálise, principalmente depois de Lacan e seu inconsciente, o conceito de sujeito como uma caixa fechada com dois olhinhos vendo o mundo externo se acaba. Ele usa a Fita de Möbius onde o dentro e o fora não existe, e/ou existe ao mesmo tempo, dinamicamente estruturados.

Para a psicanálise o sujeito (ao inconsciente) tem uma relação semelhante com o “mundo externo” (esse é outro conceito destruído por Freud – um delírio é, naquele momento, o mundo externo do sujeito e está nele). Ou seja, aquilo que pensamos que somos como fruto acabado de um crescimento interior, somente nosso, é uma ilusão, aliás, o Eu, vulgarmente conhecido por Ego, é, para a psicanálise, o centro das ilusões. Somos, em nossa pré-história como humano, resultado dos desejos investidos pelas figuras parentais; já na vida adulta é a nossa interação – sempre afetiva – com o outro que nos irá constituir como sujeito humano desejante. Lacan, depois de vários Seminários – foram 33 anos falando – radicaliza: o inconsciente provém do outro….. nosso desejo é o desejo do outro.

O mesmo modelo pode ser, grosso modo, aplicado para uma empresa e seu Plano de Negócios, onde a empresa não é uma caixa fechada – com seus recursos, estrutura e estratégias – e olhos postos no mercado. O outro aí é cada cliente que se pretende conquistar e manter, formando-se uma relação estruturante de demandas e entregas que, ao final, percebe-se, a empresa é moldada pelo cliente, o mercado.

Assim, a recomendação de ter um Plano de Negócios para cada perfil de público-alvo é mais do que uma estratégia de marketing bem intencionada, é o modo operativo da empresa se estruturar criando e recriando suas próprias entranhas, na relação com este outro.

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* João Rego é engenheiro, mestre em ciência política e tem formação em psicanálise.
Atua como consultor empresarial com o foco na pesquisa e na práxis da administração estratégica, da inovação e da gestão do conhecimento.

É Diretor da Factta Consultoria, Estratégia e Competitividade.
É Editor da Revista Será? Opinião, crítica, artigos, ensaios e resenhas.
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