Caruaru, a feira e o pai.

abr 30, 2014 by

Crônica de um Sábado Chuvoso

João Rego

Recife, 04 de setembro de 1999

Hoje acordei e estava chovendo. Gosto muito da chuva, especialmente se ela ocorre pela manhã e é bem fraquinha. Não tenho dúvidas que isto me remete a um passado cheio de felicidade, que é o período da infância. As férias na Fazenda Vasante em Caruaru onde, junto com os primos e colegas acordávamos o mais cedo possível para avisar, aos gritos, que era o primeiro na fila do leite. Enchíamos as nossas canecas e copos de Toddy e açúcar, e partíamos para a cocheira que ficava a uns 300 m da casa da fazenda.

Lá já estavam, Zé Valentão e outros cuidando da ordenha das vacas. Mimosa, Pretinha, Malhada e outras, naquela procissão com seus bezerros. O período era junho, as férias do meio do ano, e nesta época sempre caia um neblina pela manhã. O cheiro do mato molhado mistura-se ao cheiro indefectível do cocô de vaca e revolve minha memória saborosamente.

Creio que Caruaru explode com toda força dentro de mim porque hoje às 10:00 horas estaremos recebendo a segunda e última parte do último pedaço de terra que sobrou após a epopéia de seu João do Rego e seus herdeiros. De todo o esforço de self-made man de vovô, que construiu um razoável patrimônio, considerando as proporções da economia caruaruense da época, o maior deles, e o que me resta é a memória de todos os momentos vividos por mim naquela cidade. Este patrimônio é tão fervorosamente guardado por mim, que bloqueia a minha ida a Caruaru, pois o medo de ver no mesmo local outra realidade transformada pelo tempo, o medo de ver um presente que nada lembra o passado que hoje vive apenas em mim, é algo que ainda não consigo dar conta.

A unidade da família nas festas de Natal, quando vinham tio Mário do Rio e Tio Jú de Belém. A Casa Grande na Praça Cel. Porto, universo da infância de várias gerações da família, que certamente Gabriel Garcia Marques a incluiria em sua Macondo, tivesse ele passado por lá. Ah! a Casa Grande ! Cenário de jogos e brincadeiras envolvidos por uma atmosfera de proteção pela presença dos avós, tios e pais onipresentes naquele lugar. Tudo parecia sólido, permanente. Era como se o tempo não existisse e nossa única preocupação, após as aulas, era ir para rua ver qual era a brincadeira da época: bola de gude, arco e flecha, finca, pião (como papai era cobra no pião, fazia umas manobras que me deixava boquiaberto, puxava a ponteira e o pião voava no ar, aí ele o apanhava na unha e o bicho ainda rodava que só a gota), espada, roda – sair pela rua com um pedaço de pau empurrando uma roda de borracha tirada de um pneu de carro, e muitas outras.

Me acordo, e sinto que preciso urgentemente ir ao mercado da Madalena, ou da Encruzilhada respirar aquela atmosfera do interior. Decidi pelo da Madalena, pois Ricardo precisa de um cadarço para o sapato. Chego, me molho na chuva, e começo a vagar pelo setor de passarinhos. Papai criava passarinhos, lembro-me bem de uma canária adestrada que ele abria a porta da gaiola, ela voava pelo quintal e depois de alguns minutos retornava para gaiola. Era uma emoção que me arrebatava, ver aquele vôo rasante pelas nossas cabeças e, desafiando todas as probabilidades, em vez de fugir ela voltava para nós.

Entro pela primeira ruela do mercado e me deparo com dezenas de gaiolas penduradas, algumas vazias, outras com os canários do império e outras aves africanas que só é o que a prefeitura permite comercializar. Ando como quem busca de forma desesperada uma passagem para o meu passado, ou seja,devagar e atento a tudo que me cerca. Em vão, tento me consolar com a visão e o cheiro que reativam lembranças encobertas pelo tempo. É um momento mágico, marcado pela cadência da chuva que insiste em fazer parte deste meu jogo.

Deparo-me com um box, onde tem apenas um homem e duas galinhas recém- abatidas em sua barraca, pego a primeira como quem apanha uma peça deste meu passado.

Quando digo que vou comprar e o homem começa a enrolar em pedaço de jornal, me vem aquele desejo: galinha a cabidela !

– Meu amigo tem o sangue da Galinha?

– Claro moço, o sangue é cortesia.

Ah! Ir a feira com papai! Andar no meio daquele labirinto de barracas.

Enquanto espero o sangue da galinha, o passado quase como um vômito irrompe de dentro de mim.

Começávamos, pelo Colégio das Freiras, subíamos até o mercado de Farinha, na Rua Duque de Caxias, lá também já havia vendedores de carne. Embora meu pai só comprasse a carne lá embaixo no Mercado de Carne que era o ponto final de todo o percurso. Nós fazíamos este percurso como um ritual mudo de parceria diante da vida. Pai e filho, guru e chela um ensinando ao outro a arte de ser caruaruense.

Ele parava, provava, cheirava, conversava com todos, contava piadas procurava saber da vida dos vendedores, enfim, degustava aquele momento como quem saboreia um bom vinho, com a alma e com calma absorvendo todos os aromas, todos sabores da vida.

Sem pressa, prazerosamente ele subia e descia as ruas, e se enfronhava naquele labirinto de barracas. Nos seguiam um ou dois moleques carregando um balaio sobre a rodia na cabeça. Ingá, coentro e cebolinho, carne verde, carne de sol, queijo de coalho, massa de mandioca. Igreja da Conceição, pega a direta para frutas e verdura que lá no final tem o mercado de carne. Prova o queijo de manteiga tira uma prosa e segue…..

…..volto para casa com a galinha e o sangue, um queijo de coalho e uma palma de banana comprida. Tenho a sensação de que carrego um pedaço do meu passado de volta para mim.

***

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

 

 

 

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