A Morte de Zart,

abr 30, 2014 by

 

“Nu sai do ventre de minha mãe e nu voltarei a ela!”
Livro de Jó (antigo testamento)

Essa bela frase de Jó, quando descobre que perdeu tudo que tinha: ovelhas, camelos, todos os seus bens, seus filhos e suas filhas – isso tudo em um mesmo dia-, é uma expressão máxima da resignação do homem diante da inevitabilidade da morte.

Há aí uma bela metáfora sobre a mãe, a mãe terra, de onde tudo vem e para onde tudo vai, num fluxo incessante que, ao longo dos tempos, a natureza tece sua complexa e indecifrável malha; usando como fios a vida e a morte.

Zart se foi, voltou de onde veio, para a mãe terra. O que nos sobra nesse momento em que sentimos essa dor? É a dor da perda de um ser que nos enriqueceu a vida.

Com seu jeito alegre ao nos receber em casa, como sempre fazia, com uma meia que ele avidamente retirava do meu sapato, e nos levava como um presente, com o corpo todo abanando; ou quando eu estava lendo o jornal na rede, e ele sentava ao meu lado batendo com a pata no jornal para que eu parasse a leitura e lhe fizesse umas massagens nas suas ‘almofadas’. Eu dizia que era DO-IN, ou ainda, no seu silêncio, quieto como ficava ao lado da gente quando havia alguém doente.

E as caminhadas? Há as caminhadas! Desde novinho andávamos aos Sábados e Domingos na Praia de Boa Viagem. Elba, como sempre, ia à frente, com seu ritmo duracell (lembram daquela propaganda das baterias Duracell? Com os dois coelhinhos batendo o tambor?) e Zart logo atrás, com as orelhas tão grandes em relação ao seu corpo, que às vezes pisava nelas e tropeçava. Eu era o último. O sol, a contraluz, banhava de prata o mar, tornando minha felicidade ainda mais intensa. Era a mulher que eu amava acompanhada do meu cão. Era muito bonito tudo aquilo!

Não sei por que, mas se alguém me perguntar sobre uma cena de nossas vidas que defina um estado de êxtase interior, além daqueles que vivemos com a nossa sexualidade, eu escolheria esta cena. Elba caminhando, Zart atrás e o mar com a luz da manhã cedo, emoldurando todo esse movimento.

Nós, seres humanos, nos posicionamos diante do mundo construindo laços afetivos com o outro. Esse outro é o objeto do nosso amor.

Pode ser um filho, o parceiro, um animal, um quadro ou até mesmo uma idéia. O outro lado do amor é o sofrimento da perda desse objeto ou da ameaça dessa perda. Quando há a perda, fica o vazio, acompanhado algumas vezes da angústia, ferindo nosso ser, pois que nos sentimos incompletos. O tempo e a substituição do objeto são as formas de realizarmos o luto e seguirmos em frente.

Alfredo, um colega da Praça onde diariamente nos reuníamos com os nossos cães, – ele também tem um cocker spaniel, Jonnhy, muito parecido com Zart -, quando soube da morte de Zart comentou “Morreu com dez anos e vocês deram qualidade de vida a ele”.

Efetivamente cuidávamos dele com muito carinho e disciplina também, mas se formos fazer um balanço, acho que Zart foi quem nos concedeu, com a sua companhia e em uma proporção muito maior, uma melhor qualidade de vida à gente.

Este texto é uma forma de, primeiro: elaborar o meu luto, chorando através das palavras; e segundo: uma tentativa de retribuir, preservando sua memória, a intensa “qualidade de vida” que ele nos deu.

 

Recife, 19 de Abril de 2006

P.S Para conhecer Zart vá em www.zart.joaorego.com

 

***

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

 

Related Posts

Tags

Share This