A Casa da Rua 13 de Maio, 312.

abr 30, 2014 by

João Rego, em 5 de novembro de 1993.

 

Foi nesta casa onde eu me vi construir como ser humano, portanto é também um dos principais cenários de grande parte dos meus sonhos. Ela era sinônima de segurança, era o abrigo do mundo exterior, o qual à medida que eu crescia ia ampliando os horizontes.

Creio que a nossa casa de infância representa tudo isto porque é nela que encontramos os nossos pais, estes que são verdadeiramente, passagens para o mundo exterior, pois inicialmente é através deles que conhecemos o mundo, aprendemos a amar e sentimos falta da sua presença quase como sentimos falta do ar para respirar.

Como crianças somos profundamente dependentes dos pais para viver.

A casa tinha um pequeno jardim na frente, que para mim era grande, pois passava horas brincando nele. Este jardim era bem modesto, havia algumas “Espadas de São Jorge” margeando uma pequena calçada na frente do quarto dos meus pais, e no centro um pé do coco (apenas como ornamento paisagístico, pois é sabido que no agreste pernambucano não nascem cocos).

Do pequeno portão de madeira, que era a entrada principal da casa, até um corredor lateral (lado esquerdo de quem olha de frente a casa), para o qual dava as janelas dos quartos de minhas irmãs e o meu, pois bem, neste percurso, havia atravessando o jardim, um sinuoso caminho de pedras-rachão.

No canto esquerdo do jardim já próximo ao muro que dava para a rua, havia numa altura de uns 15 cm do chão, uma torneira que sempre pingava, na qual às vezes eu bebia água no meio das brincadeiras para não perder tempo tendo que entrar em casa.

Logo que abria o portão principal, este era baixo, tinha uns 80 cm de altura, – era da mesma altura do muro vasado da frente da casa -, a pessoa tinha a sua esquerda o jardim, já descrito e a sua frente uma escada com uns vinte degraus – essa escada era enorme para mim, e creio que foi nela que quebrei a clavícula pela primeira vez. Esta escada conduzia para o pequeno terraço onde meu pai costumava lê o jornal de Domingo ou os gibis de Pimentinha e Príncipe Valente. Eu muitas vezes ficava “piruando” os gibis com os pés no ferro da cadeira enganchado por trás dos ombros do meu pai.

Do lado direito, subindo a escada, havia um muro separando a casa vizinha. O muro era em forma de “eles” (a letra do alfabeto), e eu costuma ficar lá sentado durante horas. Ali era o meu posto de observação do movimento na rua. Dali eu via os carros, o menino que vendia puxa-puxa, as pessoas que vinham com suas cestas carregadas da feira. Via também as solteironas Cessone e Yolanda na janela “vendo a vida passar”, as filhas de Sr. João Rosas – o dono da padaria, estas eu acho que tinham calo nos cotovelos de tanto tempo que eram capazes de passar na janela. A casa de Sr. João Rosas ficava bem em frente à nossa e era possível ver, mesmo que a contraluz o corredor da casa e as pessoas se movimentando na cozinha lá no fundo do corredor, e eu qual um personagem da “Alegoria da Caverna” de Platão ficava tentando adivinhar, pelas sombras das pessoas quem eram elas e o que faziam. Tinha ainda o cachorro chato e brabo do vizinho de Sr. João Rosas, ele era um vira-lata branco e pequeno que passava o dia correndo atrás dos carros (o coitado era todo fudido de cicatrizes, mais não desistia de correr atrás dos carros, que de quando em quando lhe atropelava. Acho que era a sina dele). Tudo isto era cotidianamente contemplado com aquela paz interior de uma criança feliz e extremamente curiosa. Eu sentia um enorme prazer em ver as pessoas que passavam em frente de casa, acho que era pela diversidade dos tipos.

Mas a principal causa da observação, era mesmo vê quais os amigos que estavam chegando à rua, para de um pulo partir para algum tipo de brincadeira.

Voltando a descrição da minha casa. O terraço que era pequeno, mas tinha espaço suficiente para duas cadeiras e um pequeno centro. Tinha na parede que dividia o terraço da sala principal da casa, o contador de luz, no teto, um lustre simples desses redondos comuns, que no inverno este se transformava em um verdadeiro festival para mim. Isto porque os insetos vinham em profusão, atraídos pela luz, realizar a sua dança aleatória em torno da luz, e eu ficava me distraindo sadicamente em ver as víboras comendo um por um. Ainda nessa parede, havia a porta que se abria em duas e uma pequena janela, que mais tarde com a chegada da “cadeira do papai” ficou desativada para o “uso” (entenda-se pular pela janela em vez de usar a porta como todo ser normal).

Na sala me recordo inicialmente do sofá azul, com curvas sinuosas, espuma fina ( o que o deixava um pouco duro) e pernas de ferro. É neste sofá que tenho talvez uma das mais remotas recordações da minha vida com meu pai.

Eu me lembro de papai recém-chegado de uma caçada deitado no sofá, sem camisa brincando comigo, pelo meu tamanho é possível imaginar que a minha idade era por volta de dois anos, no máximo três. Eu pulava brincando de cavalinho em seu peito forte e cheio de cabelos. Recordo-me da intensa alegria e da forte sensação de conforto e admiração por ter um pai tão forte e bom.

Tempos depois, esse sofá foi substituído por um conjunto de três cadeiras confortáveis separadas por duas tábuas, supostamente colocadas para servir de suporte para cinzeiro. Foram estas três cadeiras que nos acompanhou até Recife após a morte de papai.

A sala era grande, pois dava espaço para dois ambientes: o primeiro, composto pela cadeira do papai, que ficava posicionada num ângulo de 45 graus no canto da porta de entrada do quarto de meus pais, na parede que tinha a porta dos quartos ficava o sofá das três cadeiras, do outro lado, havia um móvel antigo que servia apenas de enfeite, tinha um espelho e em cima se colocava um abajur, de vidro fino, preto com desenhos dourados. Mais adiante, seguindo a parede conjugada com a casa vizinha se encontrava o aparelho de TV (marca TRANCHAN, era segundo mamãe a marca mais barata de televisão da época, e que meu comprou-a por pirangagem). Por algum tempo o sofá azul foi posicionado como divisor dos dois ambientes da sala, lembro que tiramos neste sofá uma foto de família na minha primeira comunhão, na qual papai está visivelmente irritado, tinha discutido com mamãe.

No segundo ambiente, que é possível perceber o piso delimitando-os (os azulejos do primeiro ambiente tinham forma geométricas distintas da do segundo), estavam os móveis de sucupira, que para mim eram sinônimos de fortaleza e perenidade. O que era uma simples ilusão de infância, pois com a morte de papai e na mudança para Recife, estes móveis foram “morrendo” e junto com eles morreram também as minhas certezas de infância, que aquele ambiente me transmitia, tornei-me adulto.

Havia a “enorme” mesa de sucupira, com seus pés trabalhados (sou capaz de lembrar de mim pequeno engatinhando embaixo da mesa) por trás da TV havia um móvel enorme, com duas portas largas divididas no meio por um espaço para guardar os “cristais”, cuja porta era de vidro e ao fundo tinha espelhos. Acima desta três portas havia 4 ou 5 pequenas gavetas onde se guardava os talheres finos, papéis ou documentos. Acima destas gavetas era o tampo do móvel, que num nível acima ainda tinha uma prateleira onde se arrumavam alguns “bisquis”.

O último móvel era o bar, que ficava próximo à porta do pequeno corredor que ligava a sala à área de serviço e no meio deste corredor era a porta de entrada do banheiro social. Deste bar eu me recordo que tinha os pés com desenhos irregulares (igual aos da mesa e do móvel), logo acima duas pequenas gavetas, onde se guardava os apetrechos do bar e acima das gavetas havia duas portinholas que quando se abriam tinha o bar propriamente dito, com suas prateleiras cheias de bebidas. O fundo do bar era todo de espelhos. Lembro-me, com muita clareza, de uma peça de metal que tinha a figura de um velho com uma cartola estendida. Creio que esta peça devia ser utilizada para colocar petiscos, há! não!, agora me lembro, era um cinzeiro, com um suporte para colocar uma maço de cigarros e uma caixa de fósforos (essa descrição é a descrição de minha percepção como criança, pois num adulto uma peça dessa jamais causaria esta impressão tão forte. Eu achava o velho misterioso com um sorriso enigmático).

Em cima do bar pairava imponente, autoritária e vigilante uma fotografia do meu avô João Rêgo, como se mesmo depois de morto ele cuidasse das nossas vidas. O grande patriarca responsável pela construção de todo o patrimônio da família, e de quem eu havia herdado, com um orgulho danado, o seu nome.

Ao longo da sala havia os três quartos, pela ordem: o de papai e mamãe, que tinha um guarda-roupa do lado da parede que dividia o quarto do terraço, a cama com o lado da cabeceira encostada na parede que dividia o quarto para o corredor externo, que ligava o jardim à porta de entrada da cozinha, esta bastante usada, pois era através dela que se tinha o acesso mais rápido para a Casa Grande. Voltando ao quarto de mamãe: entre a cama e a janela que dava para o jardim, havia um pequeno espaço que era o suficiente para a mesinha de cabeceira de papai -ele dormia do lado da janela -, e aos finais de semana ele ainda armava uma rede que ficava espremida numa posição que dela dava para vislumbrar a rua. Nesta rede eu ficava em cima de papai, ou dividia com ele o espaço, enquanto ele lia o jornal até cair no sono deixando-os espalhados pelo chão. Mamãe descansava na cama, ao lado.

O quarto deles, além da mesinha de cabeceira de mamãe, tinha um móvel com espelho – aquele onde ela tirou um foto com Monquinha pequenininha. Quando Luciano nasceu este móvel foi deslocado para o quarto das meninas (?), ao lado, e em seu lugar ficou o berço. Havia ainda na parede acima da cama um bonito crucifixo. Há! Na sala havia a tradicional figura do cristo (bonito com os seus cabelos longos) com uma luz vermelha permanentemente acesa (acho que essa luz tentava representar a fé cristã daqueles que viviam na casa) Nesse quadro o coração de cristo estava exposto e sangrava.

Havia uma porta de passagem do quarto de mamãe para o quarto das meninas.
O quarto das meninas tinha também uma porta que dava para a sala. As camas eram de um design moderno, possuindo dois gavetões em baixo que serviam para guardar os lençóis e os pijamas de flanela que nós usávamos no inverno (normalmente na Vazante).

Segunda-feira à noite.

Após escrever, com detalhes, sobre a casa da minha infância, logo que ia dormindo, as imagens da rua em que vivi emergiram em profusão. Acordei sobressaltado com imagens da Travessa 27 de Janeiro, local de agradáveis recordações, com os jogos de bola-de-gude por exemplo. O fato é, porém, que o meu estado de espírito era de um sobressalto acompanhado de uma inexplicável angústia.

A causa desta angústia, creio eu, talvez fosse pelo fato de não poder controlar ou estancar as imagens da memória de minha infância em Caruaru. Acho que este resgate deve ser lento e gradativo.

Levantei-me, chupei duas laranjas-cravo e em seguida li um pouco e consegui dormir.

***

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

 

 

 

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