Reflexões sobre a Instituição e seus vínculos.

abr 28, 2014 by

João Rego

Recife, 11 de agosto de 1998

Aos colegas do Traço:

Havia me comprometido a escrever minhas impressões sobre a decisão do Traço integrar Convergência. A finalidade do texto seria dar início a um outro mais formal que pudesse ser, digamos assim, o documento de formalização da entrado do Traço na Convergência. Apesar de me esforçar não encontrei tempo para fazê-lo, estou envolvido com duas mudanças (casa e consultório) que tem me impossibilitado parar para ler e escrever. Foi, entretanto, instigado pela mensagem de Teodora que na hora de responder saiu o texto que abaixo coloco para vocês. Com lapso e tudo.

CARTA DE TEODORA PARA PAULO COM CÓPIA PARA JOÃO

Paulo,

Gostaria de poder agora estar atendendo a essa demanda de pensar e registrar o pensado sobre a nossa participação na Convergência, ajudando na construção do documento necessário a ser enviado. Estou, contudo, um tanto quanto “perdida” com as três disciplinas que assumi na Universidade, misturando-as, requerendo que me organize mais e sem conseguir o tempo para dar conta disso além de estudar assunto das disciplinas e dos grupos de estudo do Traço. Daí porque disse a João que seria delírio pegar agora para transcrever as fitas da Jornada do Traço. Tenho que administrar melhor o meu tempo, então poderei dedicá-lo mais para as reflexões referidas. Espero que o João esteja estruturando um documento para subsidiar o avanço das nossas discussões e que possamos a partir dele construir o documento a ser enviado. Não sei como ser útil neste momento, pois estou deveras preocupada com o trabalho que assumi na Universidade, mais do que eu pressupus. Um abraço, Teodora.

CARTA DE JOÃO PARA TEODORA

Olá Teodora:

Compreendo perfeitamente o que é está sobrecarregado, tentarei redigir alguma coisa que possa subsidiar a elaboração do documento final que formalize a entrada do Traço na Convergência.

Algumas idéias têm vindo a minha mente, entretanto, por se tratar, creio eu, de uma instituição cujo leit motiv é a psicanálise, a coisa complica um pouco mais.

Explico porque: quando Lacan fez a famosa proposição “O analista não se autoriza, a não ser por si mesmo” criou-se o grande impasse para os lacanianos.

Um impasse fundante e estruturador de um pensamento e da sua transmissão. Se por um lado é uma ousada proposta de formação, na qual a pedra angular desta se encontra na própria análise do sujeito, tornado secundário, muito acertadamente, o papel da instituição, por outro coloca o “autorizar-se” na dimensão de uma permanente demanda por reconhecimento.

É por tentar preencher esta demanda que se produz e se cria teoria psicanalítica de qualidade (algumas nem tanto!), forçando a transmissão do pensamento freud-lacaniano.

É uma forma de criação profundamente enraizada no próprio percurso analítico do sujeito, e mais tarde na sua prática. Não se trata de algo que tento explicar lá, fora de mim, como um objeto a ser interpretado por alguma ciência, trata-se, antes de tudo, de ter meu ser ultrapassado, virado e revirado através de um discurso que muda radical e estruturalmente este sujeito (ao inconsciente) e sua relação com o mundo.

Onde entra, portanto, o papel de uma instituição nessa complexa e riquíssima aventura da lama (alma, lama) humana que é a psicanálise?

Eu diria que para a experiência psicanalítica do sujeito quanto menos esta puder influir melhor para o analisante e, portanto para a psicanálise como um todo.

Já imaginou como seria à instituição, se esta fosse a principal instância que dessa garantia da formação?

Teríamos instituições como se tem mercadorias com griffes, onde se generalizariam as avaliações: fulano fez uma análise melhor do que a de sicrano porque fez na instituição A, ou a análise de beltrano é muito duvidosa porque a fez em uma instituição B. Isto sem falar do insidioso controle daqueles que detêm o poder institucional sobre os outros.

Seríamos psicanalistas pré-moldados colocados em série nesse mercado das desilusões humanas. E o pior, sem direito a devolução. Assim, cabe a instituição a função de ser um espaço de trocas, práticas e teóricas, que através da experiência de cada um com a psicanálise, se constrói uma base para que a leitura dos textos de Freud ou de Lacan, – ou de qualquer outro que possa enriquecer a compreensão destes -, possa vir a fazer seus efeitos.

Se estar juntos, segundo Freud, em alguma ação humana, é estar submetido ao imperativo da pulsão de vida (Eros) e se pulsão de vida não se concebe sem o seu oposto, pulsão de morte, uma instituição é lugar para muita confraternização, aprendizado e brincadeiras, mas também para muito conflito, inveja e dissidências.

“O analista isolado é uma espécie de autista” (ouvi isto de Zuberman no Traço)

Pronto! Está preparado o terreno para o grande e insolúvel impasse que é termos que conviver e suportar a solitária aventura de uma análise e seu conseqüente desdobramento em um desejo de ser analista, dando de cara com este “não se autoriza a não ser por si mesmo” diante da necessidade de estar em grupo, (em uma instituição), que é uma condição necessária, mas não suficiente para que se dê à formação.

Isto não é nenhuma surpresa se pensarmos que todo o pensamento freudiano sempre foi cético a uma grande e definitiva solução para o que quer que fosse. Freud apresenta este seu ceticismo sobre a própria civilização em seu “Mal – Estar na Civilização”.

E a convergência, para que nos serve?

A resposta óbvia, automática, racional é dizer que será um excelente espaço para a troca teórica e prática da psicanálise, que instigará as nossas atividades intelectuais internas, nos elevando a um patamar de superior qualidade como instituição (o Traço).

Seremos um Traço globalizado!!!! (afinal já temos até web site)

Para mim, é mais importante nos debruçamos sobre as vicissitudes de Convergência. É aí que devemos mapear detalhadamente o que é Convergência, qual o custo que Traço tem que pagar para fazer parte dela, ou qual o risco que corre o Traço em não fazer parte dela, e se no balanço de perdas e danos haverá algum ganho.

A princípio, tenho impressão que haverá ganhos, e que haverá certos prejuízo se o Traço ficar de fora. Creio, entretanto, que temos que dominar esta demanda por reconhecimento através da pertença do Traço à Convergência, ou a Reunião Lacanoamericano ou a qualquer outra entidade que no futuro viermos a nos integrar, pela pura pertença em si.

Devemos enfatizar que a marca dessa relação Traço-Convergência deve ter o indelével traço da qualidade da produção (tudo que é dito e/ou escrito) decorrente da prática clínica e da prática de leitura que circula entre nós.

Abraços

João Rego

 

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DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

 

 

 

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