Pulsão e repetição: tecendo a vida e a morte.

abr 28, 2014 by

João Rego*

 Texto apresentado na X Jornada Freud Lacaniana, Recife 5 e 6 de novembro de 2004.

 A morte tece seu fio de vida feita ao avesso. (Desenredo. Dori Caymmi e Paulo Cezar Pinheiro)

Em seu Mais Além do Princípio do Prazer, Freud introduz o conceito da pulsão de morte. Até então havia em seu modelo do aparelho anímico[2] a predominância do principio do prazer como uma força constante na operação do inconsciente. O sujeito do inconsciente teria então como contrapeso a obediência da realização deste princípio, a realidade, ou seja, a cultura com suas leis e impedimentos à realização de tais desejos. É o que Freud chama da prova de realidade. Este prazer é percebido como a descarga de uma “tensão desagradável” que busca um objeto e um sentido para sua finalização. A pulsão seria o estágio mais primitivo do aparelho anímico, uma espécie de combustível, que de forma latente utiliza-se das instâncias do Eu, do supereu e do Isso para dar vazão a sua natureza, o princípio do prazer. É uma quantidade de energia que alimenta incessantemente a estrutura psíquica do sujeito. Parte dessa pulsão, entretanto, não encontra a possibilidade de satisfação, pois são recalcadas aos níveis inferiores do aparelho anímico. Este inconsciente recalcado esforça-se para, por outras vias, dar vazão à descarga pulsional que é sentida pelo Eu como desprazer. O mecanismo de satisfação desse recalcado é através da compulsão a repetição, uma forma possível de lidar com sentimentos e emoções oriundos dessa instância mais intima e primitiva do homem.

“Contudo, chegamos agora a um fato novo e digno de nota, a saber, que a compulsão a repetição também rememora do passado experiências que não incluem possibilidaode alguma de prazer e que nunca, mesmo há longo tempo, trouxeram satisfação, mesmo para impulso instituais que desde então foram recalcados.p.34 (FREUD, Sigmund 1920)”

 Estas experiências são identificadas por Freud, como experiências sexuais infantis frustradas pela realidade e pela cultura. São desejos incestuosos que fundam o sujeito, os quais são posteriormente, ao longo do seu desenvolvimento, frustrados pela prova de realidade deixando como saldo final marcas indeléveis na estrutura desejante do mesmo.   São estas marcas recalcadas que, através da compulsão a repetição atuam de forma paralela à pulsão sexual sobrepujando o princípio do prazer. Lembramos aqui que estes traços indestrutíveis se aproximam do conceito de fantasias sexuais inconscientes infantis[3], desenvolvido por Freud ao longo da sua obra e que em Lacan virá a ser o fantasma.   Assim, de forma incessante, o aparelho anímico se encontra sob o domínio dessa compulsão a  repetição, identificadas nas primeiras atividades psíquicas da criança e também na neurose do sujeito adulto, movida essencialmente pela necessidade de dar vazão a essa “energia”.

Seguindo sua investigação em Mais Além do Princípio do Prazer sobre essa pulsão que atua desconsiderando o princípio do prazer, e que mais adiante ele vai chamar de pulsão de morte, Freud utiliza-se de certos elementos da biologia para trabalhar a relação dual existente entre a pulsão sexual e a pulsão de morte. Haveria na pulsão de morte uma obediência a um imperativo de fazer com que toda a vida faça seu retorno ao estado original, primitivo da matéria, que é o inanimado, o inorgânico.   Assim a vida, seria o resultado da ação da pulsão de vida, ou pulsão sexual tentando construir desvios(detours) a este inevitável final, a morte, inexoravelmente trabalhada pela pulsão de morte.  

Não temos mais de levar em conta a enigmática determinação do organismo de manter sua própria existência frente a qualquer obstáculo. O que nos resta é a fato de que o organismo deseja morrer, apenas ao seu próprio modo. Assim, originalmente, esses guardiões da vida eram também os lacaios da morte. (op. cit p.57)

É importante destacar que a pulsão de morte, que tem na compulsão a repetição seu modo de operação, está fundada no recalque primitivo de sentimentos e desejos sexuais inconscientes e incompatíveis com a cultura. Somos sujeitos fundados como ser desejante pela falta primordial que estrutura nossa subjetividade, falta do objeto de amor primevo, função edípica.   Por toda a vida, até atingirmos o proposto final da existência, a morte, estamos destinados a construir nossos “desvios”, sempre marcados por estes traços indestrutíveis que determinam a forma do nosso relacionamento afetivo com o mundo.   Esta luta entre pulsão sexual e pulsão de morte está no combustível psíquico do aparelho anímico e, portanto, é fator determinando das formas de atuação dos sintomas e de todo os fenômenos patológicos de interesse da psicanálise. A fobia, lembra Freud nesse mesmo texto, é uma tentativa de fuga da satisfação de uma pulsão.

Freud desde o início da sua teoria das pulsões distingue a pulsão de morte, como a pulsão do eu e a pulsão sexual como a pulsão voltada para o objeto. Apesar de definir a relação entre estas duas pulsões como uma relação dual, admite também a fusão e ou separação destas em seus respectivos objetos que as distinguem, isto é, o Eu e o mundo exterior.

Desde o início identificamos a presença de um componente sádico na pulsão sexual. (op.cit, p74)

Aparentemente é uma contradição, uma ação sádica de destruição do objeto ser originada de Eros, o preservador da vida.Para Freud, o sadismo seria uma pulsão de morte que, sobre a influência da libido narcísica foi expulsa do Eu passando assim a atuar como uma componente da pulsão sexual (voltado ao objeto). A pulsão de morte estaria nesse caso ‘a serviço da função sexual’.   É esta impossibilidade de determinar de forma estanque a existência das pulsões de vida e morte, destinadas a dar vazão a suas satisfações no Eu e no objeto, que leva Freud a afirmar que amor e ódio são partes estruturantes da vida erótica.   É, entretanto em O Eu e o Isso (FREUD, Sigmund. 1923), obra classificada por James Strachey como o último dos grandes trabalhos teóricos de Freud, que Freud apresenta uma teoria das pulsões e suas relações com a estrutura anímica do sujeito de forma mais livre das bases biológicas que antes serviram para delinear a teoria das pulsões em Mais além do princípio do prazer.   Em As duas classes dos Instintos(pulsões), um capitulo do Eu e o Isso, Freud reafirma a relação dual entre pulsão de vida e pulsão de morte e utiliza o conceito de pulsão como a base para o funcionamento do seu modelo do aparelho anímico, a segunda tópica, onde são definidas as instâncias do eu, do supereu e do isso.

È natural que voltemos a indagar com interesse se não poderia haver vinculações instrutivas a serem traçadas entre, de um lado, as estruturas que presumimos existir – o eu, o supereu e o isso – e, de outro, as duas classes de pulsões….(op.cit, p.67).

Toda a complexa dinâmica da segunda tópica, onde mecanismos como identificação, transferência, catexia libidinal, ligação (bindung) e recalque só é possível ter sua viabilidade teórica graças ao conceito de pulsão. Ela atua como uma espécie de substrato material do aparelho anímico, através do qual o desejo e a linguagem inscrevem suas trajetórias na existência do sujeito.   Freud reconhece que este conceito de pulsão estaria mais próximo de um mito do que algo cientificamente definido, mas como extraordinário investigador, delimita as reservas desse mito, e segue adiante.   Sobre seu desconhecimento sobre este mito Freud diz:  

…desde logo o elemento mais importante e obscuro da pesquisa psicológica. (FRED, Sigmund in Mais Além do Princípio do prazer pp 51.)

Sobre o conceito de pulsão, encontramos em GARCIA –ROSA o seguinte:

Em primeiro lugar, e aceitando a indicação do próprio Freud, devemos considerá-la como uma ficção. A pulsão não é uma descoberta freudiana, mas uma produção teórica de Freud. Tal como os conceitos das demais ciências, o termo pulsão não designa uma realidade existente, mas um modo de falar de existentes; ele aponta para um conjunto de outros conceitos da própria teoria psicanalítica. No entanto não é um conceito como os demais, é portador de uma opacidade que lhe é essencial…Assim como aponta para a teoria, ele (o conceito de pulsão) aponta também para algo que se furta ao olhar conceitual. É por metáforas que falamos da pulsão. (GARCIA-ROSA, Luis Alfredo. 1986)

Finalizamos nossa breve exposição com uma interpretação de Lacan, no seminário de 1954-55 (Seminário livro 2) quando, junto com Hyppolite, Mannoni e outros, discutem o Mais Além do princípio do prazer. Diz Lacan sobre a pulsão de morte em Freud.

“Não é da morte que Freud nos fala quando se refere à pulsão de morte, mas da vida. É do vivido humano que a psicanálise trata, e se há algo nesse vivido que impele o homem a sair dos limites da vida, é ainda do vivido que estamos falando. (LACAN, Jacques. 1987)

***

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

***

Bibliografia

FREUD, Sigmund Além do Princípio do Prazer (1920), VOL XVIII Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud 2a. Edição IMAGO 1988.
FREUD, Sigmund. O Ego e o Id (1923) VOL XVII Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud 2a. Edição IMAGO 1988.
GAY, Peter.; Freud, uma vida para o nosso tempo. Companhia das Letras; 1989; Psicanálise. (pp.333-427).
GARCIA-ROSA, Luis Alfredo. Acaso e Repetição em psicanálise. Uma introdução à teoria das pulsões. ZAHAR 1986.
LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 2 O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. ZAHAR, 1987.
REGO, João. O Homem dos Lobos: reflexões sobre o fantasma em Freud. Texto apresentado na III Jornada Freud Lacaniana . Recife, novembro de 1997

 

[2] A primeira frase de Além do princípio do prazer nos fala de Seelenben, isto é da “atividade da alma” e não da atividade psíquica ou da atividade da mente; assim como é do Seelish apparat (aparelho anímico) que Freud fala e não de aparelho psíquico ou aparelho mental. ( GARCIA-ROSA, Luis Alfredo 1986. p 90)

[3] O fantasma, ou fantasia, é identificado por Freud, notadamente no caso do Homem dos Lobos (FREUD: 1918[1914]), como marcas inconscientes da estrutura psíquica do sujeito, que se impõem em momentos da pré-história deste como formas de apreensão de uma realidade edípica que estrutura e funda o ser desejante.   Diferente de outras formações do inconsciente, é dramaticamente indestrutível, moldando (se), desdobrando (se) e repetindo-se na história do sujeito, definindo sua organização genital, imprimindo sua marca na sexualidade, nas suas relações de objeto e está contido nos sintomas como o agente fantasmaticamente aterrorizante e interrogador do sujeito e de seu dilema de existir.(REGO, João in O Homem dos Lobos: reflexões sobre o fantasma em Freud.

 

Share This

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *