Paulo e a transmissão da psicanálise

abr 28, 2014 by

Paulo e a transmissão da psicanálise ou Wo Es war, soll Ich werden.

*João Rego

“O discurso psicanalítico como efeito da destituição subjetiva, egóica, do sujeito ao inconsciente a partir do discurso histérico, deveria ser capaz, por si só, de assegurar a transmissão da psicanálise, guardando sua diferença na formação de psicanalistas em relação a outros discursos estruturados em torno do mestre e do universitário. Seu traço diferenciador se realiza na castração e subjetivação da morte.

Enfim, essas publicações endereçam-se, sobretudo, àqueles que, por fraqueza ou coragem, se submeteram ao divã de algum analista para falar das suas angústias, dos seus fantasmas, dos seus medos, de suas faltas e de sua incompletude, bem como àqueles que desejam acolher essas falas em sua escuta.” Paulo Medeiros ( apresentando as publicações do Traço)

 

Lembro muito de Lacan, quando disse que tudo que falou e escreveu foi na situação de analisante e não de analista.

É surpreendente esta afirmação, pois aponta para um saber que emerge direto, efeito do inconsciente, com a função de transmitir a psicanálise, herança (Maldita?? A peste?) deixada por Freud para aqueles que o seguiram.

Paulo, não fez outra coisa na vida com tanta intensidade, paixão e método do que transmitir esse saber, na clínica e nas instituições.

Havia um determinante nele, efeito de algum significante em sua estória que o impelia a isso. Era admirável, ele que já havia alcançado um patamar de erudição intelectual, ver a paciência com que acolhia o iniciante lendo a Interpretação dos Sonhos, como se fosse sua primeira vez. Eu, que fui algumas vezes censurado por ele pela minha pressa em avançar nos estudos de grupo – ele me chamava, com seu jeito brincalhão, de “lebre saltitante”- tamanha a minha inquietação em terminar logo os textos. Me dizia, em nossas conversas nas segunda sobre o site:

– Essa sua agonia vem de uma angústia de morte, calma, aprenda a lidar com isso.

Falar de Paulo, para mim, é muito trabalhoso e ao mesmo tempo intelectualmente instigante, pois a minha relação com ele sempre esteve pautada essencialmente nessa transmissão da psicanálise. Como admirador e analisante – fiz minha supervisão durante anos com ele, que dizia sempre “Supervisão para mim é uma outra análise”-, participei de grupos de estudos e me encarreguei da criação do site da instituição e da passagem do acervo do Traço para este universo web.

Sobre o site, ele era um entusiasta, pois sabia da imensa potencialidade de comunicação desse saber para o mundo todo.

Diante da morte de Paulo, procuro sempre me lembrar do que a psicanálise tem a dizer sobre isso. Afinal, o neurótico sofre – as vezes com intensidade mortal – seus sintomas como uma forma de morte em vida. Hélio Pelegrino dizia que a psicanálise e á luta da vida contra a morte, até a queda final.

 

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DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

 

 

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