O Homem dos Lobos: reflexões sobre o Fantasma em Freud

abr 28, 2014 by

*João Rego

Responde-me! Não me atormentes com a ignorância! Deixa-me saber porque teus ossos abençoados, sepultos na morte, rasgaram assim a mortalha em que estavam? Por que teu sepulcro, no qual te vimos quietamente depositado, abriu suas pesadas mandíbulas marmóreas para jogar-te novamente para fora? Que significa, corpo defunto, novamente revestido de aço, tua nova visita aos pálidos fulgores da lua, enchendo a noite de pavor? E nós, pobres joguetes da natureza, precisamos contemplar nosso ser tão horrivelmente agitado com pensamentos além do alcance de nossas almas?  Hamlet, pela primeira vez, diante do espectro do pai – (HAMLET, PRÍNCIPE DA DINAMARCA – William Shakespeare – ato primeiro, cena IV)

 

O fantasma, ou fantasia[1], é identificado por Freud, notadamente no caso do Homem dos Lobos (FREUD: 1918[1914]) como marcas inconscientes da estrutura psíquica do sujeito, que se impõem em momentos da pré-história deste como formas de apreensão de uma realidade edípica que estrutura e funda o ser desejante. Diferente de outras formações do inconsciente, é dramaticamente indestrutível, moldando (se), desdobrando (se) e repetindo-se na história do sujeito, definindo sua organização genital, imprimindo sua marca na sexualidade, nas suas relações de objeto e está contido nos sintomas como o agente fantasmaticamente aterrorizante e interrogador do sujeito e de seu dilema de existir.

No caso do Homem dos Lobos, Freud desenvolve um extenso e profundo tratado sobre a teoria psicanalítica abordando pontos relevantes para a compreensão de como os mecanismos da relação analítica atuam no processo de reconstrução do sujeito e de sua história psíquica. Fica evidenciada a relevância dada por Freud ao fantasma constituído ao redor da cena primitiva, quer seja para a compreensão de todos os sintomas do analisante quer seja para o desenvolvimento de todo o percurso analítico. O intenso sofrimento neurótico (?)de Serguéi Pankejeff ao longo de toda sua vida tem seu núcleo no fantasma da cena primitiva que dialeticamente é realimentado através de processos regressivos determinando seus sintomas e desejos. 

Ouvia, entendia e não se interessava por coisa alguma. Sua inteligência clara estava como que seqüestrada pelas forças pulsionais que lhe regiam a conduta na pouca vida externa de que ainda era capaz. (FREUD 1918[1914]p.183[2]).

O quadro descrito por Freud é o que normalmente, com variações de intensidade relativa `à singularidade de cada sujeito, se costuma encontrar na vida daqueles que demandam uma análise: inibições, fobias, depressões, pensamentos obsessivos.

O estilo literário de Freud define de forma precisa o sofrimento do analisante diante de sintomas alheios à sua consciência.

São nos sonhos recorrentes do analisante que Freud vai buscar as pistas para a compreensão do fantasma, as fantasias incestuosas inconscientes, – vetores estruturantes da subjetividade humana -, interditadas, marcadas pela sua impossibilidade radical de serem realizadas.

É importante destacar que o fato que fez com que eclodissem os sintomas ainda na infância do analisante, não foi um trauma oriundo da realidade externa[3]sobre o sujeito, mas sim uma formação inconsciente, um sonho, que aos 4 anos tenta expressar um desejo que remete a cena primitiva que foi a visão do coito dos pais. Um sonho que aterroriza o sujeito e o inibe diante da vida. Na verdade o sonho de angústia é a representação do conflito edípico, um desejo pulsional, erótico em relação à figura paterna, insuportável de aceder à consciência e que encontra na fobia uma saída possível para o conflito.

Aqui os sintomas que emergem de forma substitutiva em sonhos de angústia, são vistos como mecanismos de defesa a uma realidade fantasmática, aterrorizante…a castração. A visão do órgão genital da mãe vem confirmar a possibilidade de castração. Esta compreensão, afirma Freud, não se dá no momento da cena primitiva mas tem as suas impressões e impulsos retroativamente elaborados por palavras e pensamentos da infância e culmina com a reelaboração através da análise aos vinte e poucos anos.

A concepção, portanto, que estamos colocando em discussão é a que se segue. Sustenta que cenas da primitiva infância, tais como as que são construídas por uma análise exaustiva das neuroses (como, por exemplo, no presente caso), não são reproduções de ocorrências reais, às quais seja possível atribuir uma influência sobre o curso da vida posterior do paciente e sobre a formação dos seus sintomas. Considera-as, antes, como produtos de fantasias que encontraram estímulo na vida madura, que pretendem servir como uma espécie de representação simbólica dos verdadeiros desejos e interesses e que devem a sua origem a uma tendência regressiva, a uma fuga das incumbências do presente. ( p.68)

Freud identifica que a cena primitiva não é um fato que realmente tenha ocorrido na história do sujeito, o que há é a predominância da fantasia como mito sobre o fato histórico em si. Ele não descarta inclusive a possibilidade da existência de uma componente filogenética na construção dessas fantasias. No caso de Serguei levanta a hipótese de que este poderia ter observado o coito entre cães pastores e projetado esta representação para os pais. É importante destacar também a forma de apreensão da realidade, por parte da criança, tomando por empréstimo representações de contos e mitos que fazem parte da cultura e do folclore para se construir e se posicionar em seu mundo. O conto dos lobos, contado pelo seu avô, fornece material para o sonho que o atormentaria, eclodindo a neurose. É desta dimensão que trata a psicanálise, o universo mítico fantasmático construído pela criança através das fantasias que forjam o adulto.

Se encontramos no texto a relevância fundamental que Freud dá à cena primitiva para a compreensão dos sintomas e o desenvolvimento da relação analítica, é no conceito de elaboração a posteriori[4] que o autor identifica um dos mais importante mecanismos da clínica psicanalítica. Passado e presente, causa e efeito, indução e conseqüência tudo está virado de cabeça prá baixo se formos comparar o universo da psicanálise com a ciência e a forma como esta tenta apreender o mundo fenomenológico. Para a psicanálise, é como se efeito e causa, presente e passado estivessem imbricados em uma complexa estrutura permanentemente ativa e dinâmica, onde retroatividade, condensação, deslocamento são terrenos por onde caminham e se formam o ser e seus desejos. 

Assim, pois, o indivíduo despertara subitamente e vira diante de si uma cena muito movimentada, que contemplara com viva atenção. No primeiro caso, consistira a deformação em troca de sujeito e objeto, atividade e passividade, ser contemplado em vez de contemplar, e no segundo uma transformação no oposto – imobilidade em vez de movimento (p.208)

Na interpretação do sonho de Serguei, Freud identifica um mecanismo de defesa deformante na tentativa de apreensão da cena primitiva que se apresentava ao sujeito. De sujeito passa a objeto, de uma cena com o movimento do coito se inscreve uma visão dos lobos parados. Aí o inconsciente, através do mecanismo da identificação, estrutura e insere o sujeito no universo edípico. 

A mulher tinha de tomar a posição que atribuímos à genitora na cena primitiva. (p.215)

Mais adiante, veremos que a cena primitiva deu origem não a uma única, mas sim a toda uma série de correntes sexuais, a uma verdadeira fragmentação da libido (pp.217,218)

O fantasma marca com sua indelével presença toda a organização genital do sujeito, seu corpo pulsional e sua forma de lidar com a libido A vida sexual do sujeito se realiza através da reprodução de traços da cena primitiva, esta, um dos aspectos mais relevantes da vida; a sexualidade, a libido, a seiva da vida como diz Freud, marcada em sua repetição de forma radical, alheia à sua vontade, por desejos incestuosos inconscientes.

O sintoma, libido que não encontra um fim genital, tem também no fantasma a sua marca de repetição ao longo da história do sujeito. Casos clínicos onde toda uma existência humana é marcada com a repetição de sintomas, como fobias, inibições, depressões são trabalhados na psicanálise através da relação transferencial, – materializada na fala do analisante e na escuta do analista -, como possibilidade de modificação da estrutura significante do sujeito dissolvendo, deslocando parte da original importância patológica do sintoma para outros fins, muitas vezes menos sofrido e mais criativo para um projeto de vida.

Freud, diferente de Hamlet que se assusta e se anula em seu pavor diante do fantasma do pai, persegue o fantasma como uma importante via para entender a natureza e a causa do sofrimento do analisante.

O que do caos dos traços de impressões inconscientes sofreu ativação naquela noite foi o quadro de um coito entre os pais do paciente, realizado em circunstâncias não muito habituais e especialmente favoráveis à observação…… A repetição daquele primeiro sonho durante o curso do tratamento em inúmeras variantes e novas edições, que foram sucessivamente sendo explicadas pela análise, permitiu-nos ir obtendo pouco a pouco respostas satisfatórias a todas as interrogações que se relacionavam com a dita cena. ( p. 210)

A interpretação dos sonhos recorrentes – insistência do fantasma que interroga o sujeito -, durante a análise é o roteiro e combustível com os quais a análise se viabiliza possibilitando o deslocamento da cadeia significante do sujeito, a recombinação de possibilidades infinitas de seus desejos, a (re)construção de sua história (uma teoria possível), e o reconhecer-se como ser desejante, carregando o exílio na sola dos seus próprios pés (Lacan) em busca de um objeto perdido inexistente.

 

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BIBLIOGRAFIA 

LAPLANCHE & PONTALIS, Vocabulário de Psicanálise (Vocabulaire de la Psychanalyse, Presses Universitaires de France, Paris, 1987) Livraria Martins Fontes Editora Ltda, São Paulo, 1982 (1995). 

FREUD, Sigmund História de uma Neurose Infantil (1918[1914]) Obras Completas de Sigmund Freud Vol XVI Editora DELTA)

LACAN, Jacques. Seminário sobre As Formações do Inconsciente 1957/58

OBHOLZER, Karin. Conversa com o Homem dos Lobos. Transmissão da Psicanálise.34 . Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro (1993)

 

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

[1] FANTASIA:= D.:Phantasie. – F.: fantasme Roteiro imaginário em que o sujeito está presente e que representa, de modo mais ou menos deformado pelos processos defensivos a realização de um desejo e, em última análise, de um desejo inconsciente. A fantasia apresenta-se sob diversas modalidades: fantasias conscientes ou sonhos diurnos; fantasias inconscientes como as que a análise revela, como estruturas subjacentes a um conteúdo manifesto; fantasia originárias. Em francês, o termo fantasme (fantasia) voltou a ser posto em uso pela psicanálise e, como tal, está mais carregado de ressonâncias psicanalíticas do que o seu homólogo alemão.(in LAPLANCHE & PONTALIS, 1995)  FANTASIAS ORIGINÁRIAS: Estruturas fantasísticas típicas (vida intra-uterina, cena originária, castração, sedução) que a psicanálise descobre como organizando a vida fantasística sejam quais forem as experiências pessoais dos sujeitos; a universalidade destas fantasias explica-se, segundo Freud, pelo fato de constituírem um patrimônio transmitido filogeneticamente.(in LAPLANCHE & PONTALIS, 1995)

 

[2] A partir dessa citação, para efeito de facilidade de leitura, toda referência da obra de Freud  História de uma Neurose Infantil, constará apenas o número da página.

[3] Se bem que para a psicanálise esta é a menos significante. O que é realidade externa que não tenha suas ligações com o psiquismo interno?

[4] A POSTERIORI d.: Nachträglichkeit (subst), nachträglich F.: aprés-coup. Termos freqüentemente utilizados por Freud com relação à sua concepção da temporalidade e da causalidade psíquica. Há experiências, impressões, traços mnésicos que são ulteriormente remodelados em função de experiências novas, do acesso a outro grau de desenvolvimento. Pode então ser-lhes conferida, além de um novo sentido, uma eficácia psíquica. in LAPLANCHE & PONTALIS, Vocabulário de Psicanálise (Vocabulaire de la Psychanalyse, Presses Universitaires de France, Paris, 1987) Livraria Martins Fontes Editora Ltda, São Paulo, 1982 (1995).

SHAKESPEARE, William HAMLET, PRÍNCIPE DA DINAMARCA in Obra Completa vol I Tragédias. Editora Companhia José Aguilar. Rio de Janeiro, GB 1969.

 

 

 

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