O Complexo de Castração e o percurso da análise

abr 28, 2014 by

O Complexo de Castração e o percurso da análise – anotações esparsas

João Rego[1]

Recife, maio de 1998

 Texto apresentado na II Jornada do Traço Freudiano Veredas Lacaniana

Recife 22/23 de maio de 1998

 

Em psicanálise, o conceito de “castração” não corresponde à acepção habitual de mutilação dos órgãos sexuais masculinos, mas designa uma experiência psíquica completa, inconscientemente vivida pela criança por volta dos cinco anos de idade, e decisiva para a assunção de sua futura identidade sexual. (…) o complexo de castração, que apresentaremos como uma etapa na evolução da sexualidade infantil, não se reduz a um simples momento cronológico. Ao contrário, a experiência inconsciente da castração é incessantemente renovada ao longo de toda a existência e particularmente recolocada em jogo na cura analítica do paciente adulto. Um dos objetivos da experiência analítica é, com efeito, possibilitar e reativar na vida adulta a experiência que atravessamos na infância: admitir com dor que os limites do corpo são mais estreitos do que os limites do desejo. (NASIO, J.D.p13 in Lições sobre os 7 Conceitos Cruciais da Psicanálise)

 

CASTRAÇÃO

O Complexo de Castração esta experiência psíquica que Nasio tão bem define, compõe com o Complexo de Édipo a base onde a estrutura dos desejos que funda e institui o sujeito em sua relação com o mundo, vem operar sua subjetividade. Reconhecer que os limites do corpo estão aquém dos seus desejos é admitir a quebra de um certo sentimento de onipotência que o Eu insiste em sustentar, em nossa relação imaginária com o outro. É a quebra de uma forma idealizada de ser no mundo.

Constituir-se sujeito desejante, em sua origem, através da ameaça da castração para o menino e da inveja do pênis para a menina é fincar os pés na existência tendo-a marcada pelo trauma que recalca o desejo incestuoso do objeto para sempre perdido, a mãe (função materna). É o peso do processo civilizatório, atuando através da estrutura edípica, que impõe ao sujeito humano o recalque das sua pulsões, constituindo-o como sujeito barrado.

 

A teoria sexual de Freud, ultrapassa a questão de que sexualidade infantil é um momento da evolução de uma possível maturidade do ser humano em seus primeiros anos de vida, para abranger todo o âmbito da sexualidade humana.(Cf GARCIA-ROZA, L.A 1995 p.32)

 

É desse infantil que trata sempre a psicanálise, que, aliás, sabemos todos, não é pouco.

O Complexo de Castração, assim como o de Édipo, opera em nossas escolhas objetais até o fim da nossa existência. É através da fantasia inconsciente (fantasma, em Lacan) de castração que o complexo encontra a sua principal via para estruturar o sujeito. É no terror da angustia inconsciente de castração que habita a gênese das manifestações neuróticas. Medos, fobias e sintomas diversos, que estão a nos interrogar no plano consciente, são apenas mecanismos de defesa contra a emergência desta angustia que nos funda e nos é insuportável.

A “castração” está permanentemente se repetindo, ao longo da vida do sujeito, denunciando, marcando a ferro e fogo, esta impossibilidade real de se apreender o mundo em suas relações afetivas através de um Eu – este apenas mais um objeto entre outros -, sujeito, alienado, alheio ao desejo inconsciente.

FOBIA

A Fobia, como foi o exemplo do caso do pequeno Hans, que possibilitou a Freud desenvolver a teoria do complexo de castração, surge como uma defesa possível contra a angústia de castração.

Diz Freud na análise do pequeno Hans:

 

No final o paciente pode ter-se livrado de toda ansiedade, mas somente ao preço de sujeitar-se a todos os tipos de inibições e restrições… nada lhe resta a não ser cortar o acesso a todo possível motivo que possa levar ao desenvolvimento de ansiedade, erigindo barreiras mentais da natureza de precauções ou proibições; e são essas estruturas protetoras que aparecem para nós sob a forma de fobias e que constituem aos nosso olhos a essência da doença. (FREUD, S 1909 pp.123,124)

Fobia não é causa é efeito de um conflito que se faz insuportável para o sujeito, libido transformada em ansiedade e projetada para um objeto externo. É na teorização da fobia, onde Freud encontra elementos para reverter o conceito de sujeito e realidade para à psicanálise, ampliando em muito a forma como interagimos com o mundo, a forma como temos as impressões “externas” absorvidas pelo aparelho psíquico.

Algo recalcado que insiste em emergir de “dentro” encontra como mecanismo de defesa a este gozo (descarga pulsional insuportável) um objeto que representa fantasmaticamente um dos elementos fundamentais (internos ) desse conflito. O “dentro” e “fora ” para o sujeito da psicanálise é mera idealização de um Eu capturado pelo imaginário.

No Caso do Pequeno Hans (FREUD, 1909) este tinha no cavalo o objeto fóbico representante das funções parentais onde o medo de que o cavalo caísse e morresse era uma representação substitutiva de seu desejo inconsciente (insuportável ) de morte contra o pai, figura paradoxalmente amada e admirada. Na fobia a realidade externa é transformada, apropriada pelo sujeito como peça fundamental dessa estrutura de desejos (castração/Édipo) que causa seu sofrimento neurótico.

DEMANDA/ANÁLISE

Demanda-se a uma análise quando esta quebra da onipotência egoíca é de uma dimensão insuportável para o sujeito, projetando-o em um patamar de sofrimento neurótico que o inibe, impossibilitando-o muitas vezes para a vida.

Encontramos em “A Histeria – Teoria e clínica  Psicanalítica de Nasio (NASIO,1990) ” no capítulo O tratamento Psicanalítico da Histeria e o Término da Análise, um desenvolvimento rico e claro do que representa para uma experiência analítica o complexo de castração. Demonstra Nasio que o percurso de uma analise é marcado pelo compromisso de se reviver esta experiência que está na origem do sujeito e que o estruturou. “…a análise reproduz a doença de que deve tratar”. A análise seria uma histeria artificial que analisante e analista teriam que resolver juntos.

Para que uma análise tenha seu efeito de fecundidade na vida do analisante é necessário que ele reproduza aspectos, traços, marcas psíquicas que estão operando em seu ser desde a sua mais remota pré-história. Não há nada de muito espantoso nisso, pois estes significantes operam, sem nenhum domínio do sujeito, muito menos a consciência da existência e da atuação deles em sua vida, mesmo fora da análise, no seu cotidiano. Em tese, é possível ser um fóbico durante toda a sua existência, limitando-se em seu espaço mínimo, agorafóbico, moldando sua vida e seus desejos obedecendo aos limites que “essas barreiras mentais” (FREUD, 1909) lhe impõem, sem jamais chegar a ter a consciência disso.

A diferença talvez esteja em que, com análise, pode se dar algum sentido a tudo isso, possibilitando a reorganização da estrutura significante do sujeito e de forma fecunda, criando condições para que alguma coisa mude, espera-se que para “melhor”.

É aí que contraditoriamente, a psicanálise envereda por um caminho que não tem paralelo com qualquer outra ciência que use o seu saber para impor, moldar o sujeito dentro de uma matriz moral, estética ou de qualquer outra categoria, que provenha daquele que sabe imposta sobre aquele que não sabe. Até porque em análise não há saber e sim o Sujeito Suposto Saber que possibilita a transferência na relação analítica. Há, não podemos deixar de perceber, uma reinvenção de uma ética, pois desse “melhor” o psicanalista deve ficar longe. Aliás, quanto mais longe, “melhor” para o analisante.

Freud , no Caso do Pequeno Hans:

 

Pois uma psicanálise não é uma investigação científica imparcial, mas uma medida terapêutica. Sua essência não é provar nada, mas simplesmente alterar alguma coisa (FREUD, 1909 p112)

O sucesso terapêutico, entretanto, não é o nosso objetivo primordial; nós nos empenhamos mais em capacitar o paciente a obter uma compreensão consciente dos seus desejos inconscientes (FREUD, 1909 p.127)

 

Voltando ao complexo de castração e seu efeitos operativos em uma análise, ou em outros termos: o que a análise opera através do complexo de castração, recorremos novamente ao Nasio para abordar a questão da repetição da angústia inconsciente de castração e como, ao longo da análise, o analisante tenta dar conta dessa angústia, ultrapassando momentos míticos, fantasmáticos da sua estrutura desejante.

 

(…)porque esse cenário, apesar de sua forma aparentemente obsoleta de imagem estereotipada, se renova ininterruptamente, numa infinidade de variações imaginárias que se sucedem no caminho da análise. Uma infinidade de imagens que se verificam continuamente no trabalho com nossos pacientes, como expressões fieis da fantasia de castração que se acha na origem do seu sofrimento (NASIO, 1990 pp79/80)

 

Mesmo sabendo da dificuldade de se apresentar um fragmento de uma análise de maneira que seja completamente compreendido, uma vez que sempre faltará informação sobre o que ocorre em uma relação analítica, apresentaremos, para finalizar, relato de um sonho de um analisante no qual percebe-se esse reencontro, essa reatualização da angústia de castração.

Quando menino, aos 5 anos, fora atropelado por um automóvel que quase o levara à morte. Esta experiência, sua análise mostrou a posteriori (Cf LAPLANCHE & PONTALIS, 1982), o marcou como uma representação psíquica da angústia inconsciente de castração e fator determinante para o desenvolvimento da fobia já na sua vida adulta.

O sonho:

Noto, de repente, que estas pessoas estão diferentes, são meio vivas e meio mortas, ou algo parecido com seres extraterrestres. Talvez seja no imaginário de uma criança a forma de representar pessoas mortas. Suas cabeças têm forma de pênis. Sem que eu tenha nenhum controle sobre os meus movimentosvou andando na direção das pessoas que me assustam (andando em direção a morte, como eu andei quando fui atravessar à rua e o caminhão me atropelou?). O medo vai se transformando em pânico. Tenho a certeza que é um sonho de angústia, entretanto o medo das pessoas e de me aproximar do local onde elas estão, o mesmo local onde fui atropelado, é enorme. A forma de atenuar o medo é dar um grito de pavor. Me vem à consciência, a impressão de que este grito no sonho é a representação de um grito que não foi dado na minha infância no momento em que fui atropelado. Faço esforço para gritar bem alto, e meio dormindo meio acordado dou um grito e, angustiado me acordo. A impressão é que acordei realmente gritando. O grito, entretanto, saiu baixo quase que emperrado.

(relato sobre a anotação do próprio analisante, logo após o sonho)

 

Na crise fóbica perde-se também o controle sobre os seus movimentos. O sujeito é capturado pela ameaça iminente de desvanecimento do ser. O pânico é o medo da morte, de extinguir-se diante da proximidade do objeto fóbico, fantasmático, estranhamente ameaçador, aterrador.

Este sonho pode ser uma representação de uma crise fóbica, idêntica as da vida em vigília, com a diferença de que é uma formação do inconsciente importante, ocorrida durante o sono. O sonho aqui substituiu o sintoma. É importante lembrar que as causas significantes são as mesmas da vida em vigília, o sofrimento que aflige o analisante é uma defesa contra a angústia inconsciente de castração, daí a importância para sua análise de se falar sobre este sonho. Este material onírico, não se sabe, talvez efeito de seu discurso (percurso) analítico, carrega em si a possibilidade de reorganizar a estrutura significante que determina o sujeito, aliás se atuaçãoanalítica (Cf LAPLANCHE & PONTALIS, (1982) ) já é a própria reorganização dessa em seu momento operativo.

O fim de uma análise estaria marcado por essa travessia da prova da angústia (Lacan, travessia do fantasma). Esta é uma experiência pessoal, singular, intransmissível, pois é resultado do percurso analítico do sujeito, único e intransferível como experiência humana.

Finalizo, com o poético texto de Nasio onde ele define a sua (dele) travessia

 

De minha parte, eu imaginaria assim. Aproximar-me lentamente da angústia, até a mais extrema proximidade, contê-la em sua tensão máxima e então atravessá-la. Atravessá-la como se cruza o batente de uma porta que, no instante exato da passagem, se reduza a uma fina lâmina de aço que nos atravesse pelo meio do corpo, deixando nele o traço umbilical de uma fenda límpida. Atravessar a angústia é ser atravessado por ela.

(NASIO, J.D 1990 p.95)

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BIBLIOGRAFIA

FREUD, Sigmund. (1909) Análise de uma Fobia em um Menino de Cinco anos(1909)[ Analyse der Phobie eines fünfjährigen Knaben (G.S.,8,264-5;e G.W.,13, 431-2) Trad. Inglês:’Analysis of a Phobia in a Five-Year-Old Boy’ (C.P.3,149-287; Standard Ed. 10, 3):Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud Vol.X. Rio de Janeiro. IMAGO 1977

FREUD, Sigmund.(1905) Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade(. [Drei Abhandlungen Zur Sexualtheorie (Viena, G,S., 5,3;G.W., 5,29)Trad. Inglês: Three Essays on the Theory of Sexuality (Londres, 1962; Standard Ed. 7, 125). Obras Completas de Sigmund Freud Vol.XI. Rio de Janeiro. Editora DELTA. 19?? . Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. VII. Imago Editora, 2ª edição.

GARCIA-ROZA, L.A. (1995) Introdução à Metapsicologia Freudiana vol.3. Artigos de Metapsicologia. Ed. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1995

LAPLANCHE & PONTALIS, (1982) Vocabulário de Psicanálise (Vocabulaire de la Psychanalyse, Presses Universitaires de France, Paris, 1987) Livraria Martins Fontes Editora Ltda, São Paulo, 1982 (1995).

NASIO, J.D. (1990) A Histeria – Teoria e Clínica Psicanalítica .( L’Histerie ou l’enfant magnifique de la psychanalyse. Editions Rivages, Paris France, 1990). Ed Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1990 (1995)Coleção Transmissão da Psicanálise no. 24

NASIO, Juan David.(1988) Lições sobre os 7 Conceitos Cruciais da Psicanálise. [Enseignement de 7 concepts cruciaux de la psichanalyse; Éditions Rivages, Paris. 1988]. Coleção Transmissão da Psicanálise No 11. Rio de Janeiro, Ed. Jorge Zahar Editor. 1989

 

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DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

 

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