Cultura, Pulsão e psicanálise.

abr 28, 2014 by

*João Rego

Creio que o retorno aos textos freudianos, que foram objeto de meus ensinamentos nos últimos dois anos, deu-me a certeza cada vez maior de que não há apreensão mais ampla da realidade humana do que aquela que é feita pela experiência freudiana.(LACAN, Jacques in Le symbolique, l’imaginaire et le réel – Bulletin de l’Association freudienne, No. 1, nov, 1982)

 

Esta ‘experiência freudiana ’a qual o texto de Lacan se refere, define a dimensão da psicanálise em um contexto que situa o homem e seus desejos de forma antagônica a civilização. Esta última tem a função de interditar, através da lei, grande parte da realização destes desejos.

Em Totem e Tabu e no Mal Estar da Civilização, que definimos como as principais obras do pensamento social de Freud, este situa o homem fundado em um impasse insolúvel: o ser e suas pulsões – aquilo que tem de mais primitivo e essencial dentro da gente -, só vem garantir a passagem do estado de natureza para o estado de sociedade, através da interdição da realização desta pulsão.

A cultura (ou civilização), que é definida como tudo aquilo que nos distingue dos animais, envolve com seu manto interditor a pulsão, recalcando-a e nos condenando ao eterno dilema de que, para viver em sociedade, é necessário pagar o preço pela não realização dos desejos primitivos que fundam a nossa humanidade.

Trata-se de um entrelaçamento antagônico entre pulsão e civilização, que funda a existência da humanidade sobredeterminando-a ad eternum a este conflito insolúvel.

A neurose e as doenças da alma, (ou mental como classifica a nosografia médica) são o preço que se paga para viver em sociedade.

A psicanálise não é uma terapia adaptativa a este dilema. Situar o sujeito diante do seu sintoma, reconhecendo-o como parte integrante do seu ser e, através do percurso da sua análise recombiná-lo dando-lhe um novo sentido à sua angústia, esta é uma das funções da psicanálise.

Fundada por Freud há mais de cem anos, a psicanálise surge da investigação das suas pacientes histéricas que apresentavam, através dos seus sintomas, a brutal incompatibilidade do seu ser com as demandas da sua sexualidade. Seus corpos eram expressões físicas dos conflitos da alma, sua fala a chave de acesso para se compreender tais conflitos.

Com LACAN, que iniciou seus trabalhos ainda como psiquiatra, investigando a psicose, a psicanálise é envolvida pela filosofia (Spinoza, Husserl, Heidegger e Hegel), pela topologia e principalmente pela lingüística estrutural de Ferdinand Saussure.

Todo o trabalho de LACAN foi, revolver o saber freudiano reavivando-o em seu extraordinário potencial revolucionário para a compreensão do homem e seus destinos.

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DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

 

Este texto foi publicado originalmente na Revista Será? onde se permite a discussão sobre o tema. Para ter acesso ao texto e suas críticas clique aqui >>>

 

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