A Formação do Analista: por onde passa?

abr 28, 2014 by

João Rego, agosto de 1999. Texto apresentado na Jornada do Traço Freudiano Veredas Lacanianas – Escola de Psicanálise.

João Rego[1]

 

1.)Primeiro, um princípio: o psicanalista é autorizado apenas por si mesmo. Este princípio está inscrito nos textos originais da École, e decide sua posição

2.)Isto não exclui que a École garanta que um analista depende de sua formação. Ela pode fazê-la por si mesma.

3.)E o analista pode querer esta garantia, coisa que, a partir de então, deve necessariamente ir além: tornar-se responsável pelo progresso da Escola, tornar-se psicanalista de sua própria experiência (Jacques Lacan, in Proposição de 9 de outubro de 1967 – Sobre o Psicanalista da École)

O AUTORIZAR-SE

O primeiro parágrafo destacado acima é certamente o texto mais conhecido e polêmico de Lacan sobre a Formação do Analista. Este autorizar-se, porém, precisa ser necessariamente contextualizado historicamente a fim de evitar equívocos na sua interpretação. Recorremos a Elizabeth Roudinesco (cf. ROUDINESCO, 1989) para darmos um mergulho na compreensão dos fatos que provocaram a dissidência de Lacan com as instituições detentoras da herança deixada por Freud.

Quando Lacan, em sua Proposição, utiliza este autorizado apenas por si mesmo, está construindo uma via alternativa à Formação do Analista, até então de exclusiva responsabilidade e domínio da IPA e de suas instituições associadas. Estas, envolvidas com a sua gradativa burocratização, transformando à Formação em algo mais ligado ao campo da “eficiência”, tornado a instituição um campo estéril ao saber psicanalítico.

Deseja Lacan, uma via capaz de dar espaço institucional, para que os princípios fundantes da psicanálise desenvolvidos por Freud ressurjam com força seminal, fecundando com seus efeitos a teoria e a clínica psicanalítica. É interessante lembrar que a fundação da École foi em 1964, e a Proposição publicada em 1967. O processo de dissidência de Lacan com a IPA começou em 1953 e foram necessários 10 anos de gestação para ele romper com esta. Portanto, a via alternativa apresentada na Proposição é o resultado de um longo percurso transcorrido por Lacan e seus seguidores e não um gesto extemporâneo decorrido da ruptura.

Longe estar, este autorizar-se, da errônea interpretação de que para ser analista não precisa mais de todo aquele “esforço” pelo qual as instituições, burocraticamente, exigiam que o candidato se submetesse. Pelo contrário, entendemos este autorizar-se lacaniano como uma tentativa ousada de se descolar do poder institucionalizado e engessante da IPA, para ir buscar em Freud, com um “pouco” mais de liberdade e consistência teórica as raízes estruturantes do universo da psicanálise. Autorizar-se passa a ser, portanto, sinônimo de uma tarefa muito mais árdua, intelectual e afetivamente, do que cumprir, sem deixar margens para a compreensão desse desejo do analista, os ditames burocráticos e cerceadores exigidos por uma máquina administrativa.

Abordando agora este princípio da École sobre outro ângulo – até para não nos deixarmos capturar por uma visão idealizada da posição de Lacan nesta história toda -, não devemos desprezar a hipótese de que, por todo este percurso do conflito entre Lacan e a IPA/SPE, existe, subjacente as divergências teóricas, a questão do poder político das instituições sobre seus membros.

Deduzimos, portanto, que este autorizar-se é o resultado do efeito de dois vetores, os quais compõem os fundamentos do pensamento lacaniano sobre A Formação: o primeiro, teórico, inovador e ousado, cujo resultado foi à abertura da psicanálise para o mundo de uma forma mais profunda e libertária sobre a alma humana; o segundo, menos nobre, é o vetor da sobrevivência política da Lacan, que teve o objetivo de fugir das garras dos inquisidores da IPA, os quais incapazes de conviver com o inquieto e ameaçador pensamento de Lacan, o forçaram, em um primeiro momento, a uma espécie de excomunhãoque durou de 1954 a 1964, vindo finalmente desaguar em naquele ano, na ruptura com a IPA.

A INSTITUIÇÃO

Imediatamente após o autorizar-se, Lacan, creio eu, num gesto que intenta dar sustentação à ousada via alternativa da Formação, impõe a instituição como importante função da Formação do Analista. Ele, é bom observar, não abre mão do papel da instituição, destituída dos seus poderes de autorizar o analista, é verdade, mas ainda assim uma instituição.

Isto não exclui que a École garanta que um analista depende de sua formação. Ela pode fazê-la por si mesma.

Destacamos a palavra formação, inexistente no primeiro parágrafo da Proposição, dando margem a interpretação de que, mais do que uma forte contradição entre o autorizar-se apenas por si mesmo e o ter a garantia da instituição, Lacan está distinguindo, autorizar-se de formação. Estes são dois momentos, não necessariamente cronológicos, do percurso de um analisante em sua via do desejo a este devir da sua análise: a passagem de analisante para a de analista, como função.

Autorizar-se, compreendido, portanto, como efeito de um desejo que emerge das entranhas da análise pessoal do sujeito, enquanto que formação, situada no campo do estudo sobre a teoria psicanalítica, amarrada à escrita de Freud, Lacan e outros, mas radicalmente atravessada, esta prática de leitura, pela praxis analítica de cada um, o que normalmente ocorre em uma instituição.

Por instituição psicanalítica, entendemos todo grupo que, marcado por esta praxis, se reúne para ler, discutir e interpretar os textos fundamentais da Psicanálise, ou outros relacionados a estes, viabilizando o ambiente para a Formação. Não se trata, portanto, de alguma instância jurídica da qual o Estado tenha que a controlar, isto não sendo impedimento, porém para que estas venham a ter sua existência jurídica.

Se a psicanálise afirma ser a fonte do sofrimento humano o conflito estruturante e permanente entre desejo e civilização, esta não pode se subordinar, como outras áreas do conhecimento, aos rigores científicos e ordenadores de uma academia. Creio que uma das principais riquezas teórica da psicanálise reside nesta não aceitação de um modelo acabado de civilização, ou em estado de permanente aperfeiçoamento.

É necessário ser um pouco marginal, inquieto, para não ser capturado por uma ideologia adaptativa à cultura.

Este é talvez o maior desafio teórico para uma instituição.

Não queremos com isto colocar a psicanálise no campo das ideologias revolucionárias, esta é tarefa para outras teorias. Acho, entretanto, que se estamos falando de Formação de Analistas, de instituição e seu papel nesta formação, não se deve abrir mão do pensamento social da psicanálise. Digo isto me lembrando de obras como o Mal estar na CivilizaçãoO Futuro de uma Ilusão e outras.

Voltando a Proposição, vimos como uma prerrogativa da instituição a questão da Formação. O interessante a observar neste texto que guiou toda a prática da Formação na École, é que diferentemente de uma relação entre os membros de uma instituição com a mesma, na qual estes pagam e em troca recebem seus serviços, tal como na academia, por exemplo, na Proposição se convoca os membros da École a engajarem-se nas atividades da mesma.

“tornar-se responsável pelo progresso da Escola”

O DESEJO DO ANALISTA

Pode soar um pouco estranho, convocar alguém que demande à Formação, com seu envolvimento na instituição. Porque não apenas pagar e receber deixando que outros cuidem do progresso da Escola?

Aqui, vejo uma interessante tentativa de atenuar, naquilo que é possível atenuar, a inevitável tendência a oligarquização do poder dentro de qualquer aglomerado humano. Já se tinha a experiência dos efeitos nefastos da centralização burocrática da IPA, e por mais ousados e inovadores que fossem os membros da École, nada podia garantir que esta não viesse a sofrer do mesmo mal.

Quando se condiciona, em seu estatuto, que para fazer parte desta instituição psicanalítica e “sofrer” os efeitos da Formação, é fundamental engajar-se nas atividades da mesma, os outros somos nós. Ou seja, o núcleo do poder tende a se espraiar por toda a organização, priorizando o essencial em uma instituição dessa natureza: a transmissão da psicanálise.

Tornar-se psicanalista de sua própria experiência

Esta frase, muito forte e elucidativa, porque toca no veio central da função de uma análise, – e poderíamos utilizá-la como um excelente mote para se discutir fim de análise, mas este não é o propósito deste texto -, vem estranhamente associada ao “tornar-se responsável pelo progresso da Escola”.

Que tipo de associação Lacan estaria querendo fazer?

Que sentido tem em estabelecer uma relação entre uma análise, que é tão pessoal, íntima e intransferível com os destinos de uma instituição psicanalítica a que se pertence?

Para alguém que demanda uma análise, em busca apenas de tentar dar conta de seus sintomas, e em seguida a esta experiência retomar seu rumo na vida, à resposta é que realmente não faz nenhum sentido. Não é necessário saber a qual instituição seu psicanalista pertence, ou se pertence a alguma, ele está ali apenas pelo Sujeito Suposto Saber, o qual sustenta uma relação transferencial que move sua análise.

Para outros, entretanto, o percurso da análise, pode impor-se com a marca do desejo de ser analista, fazendo-o ir além de uma experiência pessoal e intransferível, movendo-o como que num desdobramento ético do sujeito, efeito de desvendamento de seus significantes, à Formação em uma instituição.

Após um período importante de análise, surge o desejo de ser analista, vem vindo também como uma saída para tentar tamponar a angústia, que com a fúria do sintoma, estilhaça o narcisismo que constitui o Eu.

Percebe-se a posteriori, esta angústia como combustível vital para a análise.

Um segundo momento é o encontro com a instituição. A busca de um saber, de uma teoria ou coisa que o valha para tentar organizar uma compreensão da experiência analítica. Diria que a Formação ocorre em sua intensidade plena quando o analisante tenta dar conta de seus sintomas, como um sonho de angústia que o acorda no meio da noite. É nesta luta com seus conflitos fantasmáticos, entre o Eu e o Isso, perpassada pela sua análise pessoal, quase sempre fazendo uso da escrita e da fala (em análise) que o analisante avança e estrutura sua formação analítica.

A prática de leitura e a prática clínica são importantes componentes que forjam este ser analista, mas tais componentes se subordinam a uma instância principal, essencial à Formação: sua análise pessoal e tudo que isto significa em termos de uma experiência que reestrutura o sujeito. Tal experiência, entretanto, não é sinônimo de cessação dos efeitos do inconsciente na trama dos desejos que constitui o sujeito. Isto é interminável, pois somos sujeitos originalmente constituídos pela falta e o Eu paira solene em sua ingênua alienação ao Isso.

Transformar o que vinha antes na aterrorizante forma de sintoma, em valiosa matéria prima para a Formação, pode ser, em parte, o que Lacan quer dizer com o “tornar-se psicanalista de sua própria experiência”.

***

BIBLIOGRAFIA

CADERNOS DO TRAÇO FREUDIANO No.01 ao No.10 Simpósio sobre A Formação do Analista Ed Traço Freudiano – Veredas Lacanianas,. Publicação interna da instituição , Recife 1996-1999.

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João Rego
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