Impressões de um viajante: Machu Picchu

abr 27, 2014 by

*João Rego

A visita a Machu Picchu, no que diz respeito à estrutura turística do Peru, é algo de se admirar, pela competência e organização. Cusco, cidade que foi centro do domínio Quéchua, cujo imperador foi o Inca, recebe trinta e cinco voos diários com turistas do mundo inteiro. É de Cusco, cidade de meio milhão de habitantes, que se parte, em um trecho de ônibus e outro de trem, para se chegar a Águas Calientes, a cidade ao pé de Machu Picchu.

Subimos em um pequeno ônibus num ziguezague de uma curta trilha até a entrada de Machu Picchu. Até ali nada de novo nem surpreendente. A surpresa foi quando, após andar uns duzentos metros, nos deparamos com a cidade de Machu Picchu. O cenário é estonteante e, dependendo da crença do viajante, todos os pensamentos explodem em nossas mentes. Para o místico, sente-se a energia de um lugar outrora sagrado. Para o trilheiro é apenas um ponto de chegada, após quatro exaustivos dias embrenhado no meio das montanhas da região. Para outros, apenas mais um lugar interessante para se dizer que foi e tirou belas fotografias.

No meu caso, inicialmente, veio a mim uma enorme sensação de insegurança, pois estava chuviscando, e as escadas de pedras irregulares com os abismos que nos cercam nos impõem  a exata limitação do homem diante de uma amplitude infinita.

Machu Picchu é uma plataforma que coloca o homem, pequeno e isolado, cara a cara com o enigma do universo.

Havia lido algo sobre as diversas e antigas culturas que existiram no que é hoje o Peru. A civilização Chavín, que existiu durante mil e quinhentos anos antes do império Inca, a Wari com sua arte bastante distinta, a cultura Nasca com suas intrigantes linhas no deserto só visíveis de um avião, denunciando uma complexa e rica tecnologia sobre astronomia, entre outras áreas do conhecimento.

Os Incas, ou a cultura Quéchua, tiveram o grande mérito de dominar, em apenas trezentos anos, toda a região que vai da Bolívia à Argentina, envolvendo sob seu domínio uma população de dez milhões de habitantes! Algo equivalente a ter, nos dias de hoje, um país com várias vezes o poderio bélico e cultural dos Estados Unidos, tudo concentrado no oeste do continente Sul Americano, espremido pela cordilheira dos Andes. Do lado de cá, incompreensivelmente, nossos nativos viviam alijados de tecnologias avançadas, sobrevivendo com raras e primitivas estratégias de sobrevivência.

Ao ouvir a guia – competente, como todos os outros guias de nossa viagem  – falar sobre como em Machu Picchu se praticava a religião, a ciência e a tecnologia, o sexo como ritual, a dominação e a morte, não  pude evitar de fazer comparação com nossas culturas ocidentais e modernas, ambas perdidas em busca de algo que dê sentido às suas existências, tamponando a angustiante sangria  da incerteza do não-sentido civilizatório com a religião ou a lei, sempre através  da força de uma elite dominante sobre a incauta e inculta  maioria, que somos nós, a população dominada.

Machu Picchu seria algo como a Igreja de São Pedro no Vaticano, tendo no mesmo espaço os modernos laboratórios da Nasa ou CERN na Suíça, associado a uma prática de dominação bélica, econômica e cultural, mais ou menos como Roma ou os Estados Unidos fizeram e fazem com as outras nações hoje, com uma pitadinha  da prática charlatã da Igreja Universal do Reino de Deus – os sacerdotes escolhiam as mais belas jovens de 12-13 anos para serem suas concubinas, entre outros privilégios –usando da autoridade mítica do poder para extrair bens e favores para si.

Enfim, trata-se de um microcosmo que a história nos oferece como exemplo do caminhar da humanidade sobre as trilhas do tempo: dominando o outro, criando e destruindo e recriando num movimento incessante da luta da cultura contra a pulsão.

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DITOS &ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

Este texto foi publicado originalmente na Revista Será? onde se permite a discussão sobre o tema. Para ter acesso ao texto e suas críticas clique aqui >>>

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