Viva a diferença!

abr 26, 2014 by

*João Rego

 

Duas notícias recentes me chamaram a atenção esta semana: a primeira, na Rússia, com leis que punem as expressões de afetos homossexuais em público; a segunda, na França, assim como já ocorreu em vários países, discutem no parlamento a união entre pessoas do mesmo sexo, a esquerda é favorável e a direita conservadora contra. Vem-me uma questão inquietante: em que a sexualidade dos seus cidadãos é identificada pelo Estado como ameaça? Por que uma instituição, construída ao longo de séculos de processos civilizatórios fruto de guerras, revoluções, dominações imperialistas, avanços e recuos políticos e sociais se importa com aspectos íntimos da singularidade humana?

Duas pistas surgem: haveria um atávico mecanismo de controle do Estado no sentido de forçar a homogeneização da sociedade – quanto menos diversidade existir, de ideias, costumes e hábitos-, mais fácil seria a forma de dominação de uma elite politica (minoria organizada que detém o privilégio do uso da força) que controla o Estado sobre a grande maioria, a sociedade, esta esgarçada em seus desejos e organização política.

Neste sentido as minorias sempre foram perseguidas, marginalizadas e muitas vezes dizimadas. Judeus, ciganos, homossexuais e portadores de deficiências físicas e mental representaram para o Estado Nazista objetos fóbicos cuja diferença causava o horror a sua ideologia e visão de mundo  e precisavam ser destruídos para garantir a homogeneidade da “pura raça ariana”. Um detalhe escabroso, após o fim da segunda guerra mundial todas as leis que discriminavam judeus e outras minorias foram abolidas, exceto as leis contra os homossexuais. Alguns homossexuais foram obrigados a terminar a pena a que estavam condenados, durante o Governo Militar Aliado do pós-guerra na Alemanha.

A outra pista Freud apontou há muito. A formação da sexualidade humana tem sua origem psíquica na bissexualidade, a qual nos acompanha durante toda a vida adulta, atrofiada após a adolescência, predominando a heterossexualidade ou a homossexualidade. Alguns afirmam que é quase uma coincidência o alinhamento da sexualidade do psiquismo com o corpo biológico.

Não é algo que se escolha. É uma condição do homem que se instaura em seu ser tão grave e forte como é força da lei da gravidade sobre os corpos. Muitas e complexas são as malhas dos desejos parentais (inconscientes) e processos da estrutura psíquica que formam a sexualidade na criança. A mesma complexidade ocorre com a linguagem, que é a porta de passagem para aceder à civilização.

Não estaria aí uma outra causa da homofobia? O terror que ameaça a “certeza” da virilidade heterossexual em saber que um outro corpo igual ao meu tem “desvios” que fazem ruir as minhas certezas?

Voltando ao Estado, este herdeiro direto das religiões primitivas, e sua sede de homogeneização e dominação, podemos afirmar que quanto mais o Estado der espaço as diferenças, possibilitando as expressões produtivas e criativas do cidadão,  – isso sim é o que interessa -, mais próximo estará de uma situação ideal, uma sociedade onde o crime a ser coibido será o preconceito e a negação do outro, da diferença.

***

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

Este texto foi publicado originalmente na Revista Será? onde se permite a discussão sobre o tema. Para ter acesso ao texto e suas críticas clique aqui >>>

 

Triptych(1991) – Francis Bacon (British, born Ireland. 1909–1992)

Triptych(1991) – Francis Bacon (British, born Ireland. 1909–1992)

Related Posts

Share This

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *