O Pulso ainda pulsa….(Titãs)

abr 26, 2014 by

Reflexões sobre sociedade, internet e as manifestações sociais de julho de 2013.

 Para Marília que acabou de nascer. *João Rego

Tenho em minhas mãos a Revista Civilização Brasileira No. 16 de Novembro de 1967. Em sua a capa a foto de uma manifestação política, onde um jovem com óculos de intelectual carrega um cartaz que diz: NÃO SAIREMOS ENQUANTO NÃO FOREM LIBERTADOS ESTUDANTES E PADRES PRESOS! O conteúdo da revista, denso e instigante, tem artigos sobre marxismo, arte, desenvolvimento e pobreza, literatura, sindicalismo, inflação e ainda uma carta de Louis Altusser aos leitores brasileiros.

Eu tinha apenas dezessete anos quando esta revista chegou às minhas mãos e, por mais que eu tentasse ler e entender os artigos, ficava sempre barrado pela impossibilidade da sua compreensão plena. Faltavam-me leituras anteriores – ainda não tinha vivido o suficiente para isso-, principalmente sobre o pensamento marxista e suas correntes, que representavam o principal veio ideológico daquelas décadas. Esse não saber, entretanto, aguçava em mim uma enorme curiosidade, por perceber que aqueles artigos eram fonte de extrema ameaça para o poder político da época. Vivíamos em plena ditadura militar onde a  intelligentsia e seus portadores (os intelectuais), deveriam ser calados para que o manto autoritário do Estado nos envolvesse impedindo o pleno exercício da cidadania.

Ler era, por si só, um solitário ato de resistência. Participar ativamente de qualquer movimento político era um ato de bravura onde se colocava a própria vida em risco – e muitos tombaram ou penaram os anos da sua juventude presos – diante do aparelho repressor que, em 1968, com o AI-5, botou suas garras de fora.

Imaginem a vida de uma geração inteira recalcada, reprimida pelo autoritarismo de Estado que atuou por décadas em toda a América Latina, sufocando a criatividade e a livre expressão de pensamento. A resposta, ou reação, era resistir. E o principal combustível, além da revolta instintiva, era o marxismo a suas ideologias revolucionárias. Não havia outra opção se você fazia parte desse setor da sociedade inquieto e inconformado com a realidade. Quanto mais se lia, quanto mais se refletia e mais a inquietação crescia.

Revolução Russa (1917), o Estado Soviético, a Revolução Cubana (1959) e a Revolução Comunista na China (1949) eram horizontes balizadores que inspiravam a grande maioria dessa geração de militantes políticos a acreditarem que suas estratégias e ações tinham um sentido libertário e uma determinação histórica. A intelectualidade estava aprisionada pelas forças da história forçando-as a caminhar por um estreito e único corredor de pensamento manietado pela dicotomia do bem e do mal: esquerda bem, direita mal. Foram necessários sete décadas de  “experiência socialista”, guerra fria e milhares de mortes para compreendermos, com a queda do Muro de Berlim, em 1989, que a realidade entre Estado e Sociedade era muito mais complexa do que esse simples corredor da história por onde fluiu grande parte do século XX.

Paralelemente, e por causa disso, a atividade produtiva – o modo de produção capitalista – avançava célere com suas forças inovadoras construindo, destruindo e reconstruindo mercados e desejos de consumo nesse eterno e incessante ciclo schumpeteriano. O combustível ou a instância subjacente da produção, como cantara a pedra Adam Smith, David Ricardo e mais tarde Marx com a mais-valia, era a de força de trabalho do homem.

Com o fim da experiência da União Soviética, simbolizada com a queda do muro de Berlim, a esquerda se liberta dessa atroz dicotomia histórico-ideológica e entra numa explosão de correntes de pensamentos sempre instigada por esse não-saber, agora atravessada por uma orfandade perplexa, somente compreendida a posteriori, que suas ferramentas eram brinquedo de criança para tentar compreende – e mudar – a realidade.

Tudo que é sólido se desmancha no ar!

Com a sociedade complexa e o capitalismo se sofisticando – impossível ter um Karl Marx de hoje que tenha uma produção intelectual para construir uma cosmovisão do homem, da sociedade, do Estado e de seus fluxos contraditórios que forjam a história – entra-se na era da informação.

Agora foi que lascou tudo! (pensam os filósofos da nossa era)

Com a sociedade da informação e, principalmente com a internet e seus efeitos reestruturadores nas formas de comunicação, tudo é transformado: a economia, a sociedade, o Estado e o sujeito. Tudo se desprende, numa absurda velocidade, movido pela voraz força inovadora das tecnologias numa desubjetivação do sujeito nesse mar de informação difuso, com sentido errático, conduzindo-nos sempre, e cada vez mais, a atendermos às demandas de consumo desse capitalismo informacional, nutrindo nossa alienação num fluxo de narcísisico-voyerista-facebookeano onde a imagem se torna elemento predominante sobre o texto, a escrita e o pensamento.

Ou seja, vivemos paradoxalmente capturados pelo universo da alienação do sujeito que se funda num mar de conhecimento e informação. Se antes a fonte da alienação estava na inserção do sujeito na produção, agora esta força alienadora, com a internet, invadiu sua vida de maneira profunda e irreversível.

As manifestações sociais que inundaram as ruas do Brasil em Julho de 2013, organizadas pelo poder mobilizador das redes sociais, é um importante sintoma político que nos aponta um vigor da sociedade civil (o pulso ainda pulsa) contra o Estado. Contudo, não tentemos compreender depressa demais este fenômeno, nem sobre ele depositar exagerada confiança, pois falta-lhe consistência ideológica; falta-lhe uma weltanschauung direcionada à transformação das formas arcaicas de representação política – o político está se transformado em objeto obsoleto de representação da sociedade civil – que conduza estas instâncias, Estado e Sociedade, para um patamar histórico à altura das transformações tecnológicas.

Sem estas condições, as manifestações urbanas de julho de 2013 terão sido apenas um espasmo – importante, certamente – de um corpo em agonia pela eterna alienação do sujeito à instância do poder político que rege e molda nossas vidas.

 

***

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

Este texto foi publicado originalmente na Revista Será? onde se permite a discussão sobre o tema. Para ter acesso ao texto e suas críticas clique aqui >>>

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 O Pulso ainda pulsa (Titâs) 

 

ROMANIA. 1994. The Danube delta region. Location shooting of the film ‘Ulysse’s Gaze’, directed by Theo ANGELOPOULOS – Josef Koudelka

ROMANIA. 1994. The Danube delta region. Location shooting of the film ‘Ulysse’s Gaze’, directed by Theo ANGELOPOULOS – Josef Koudelka

 

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