O político, o homem e a razão cética.

abr 26, 2014 by

* João Rego

Recife, 22 de março de 2014.

Ao meu amigo David Hulak que teve parentes
incinerados nos fornos crematórios, durante o holocausto.

 

Peço licença aos leitores para apresentar algumas reflexões, que considero importantes, para aprofundarmos um pouco mais o nível da compreensão (e discussão) sobre o universo da política. A primeira é sobre a relação entre políticos e eleitores.

Esta é uma relação antiga que só a fome: sempre haverá aqueles que dominam e aqueles que são dominados. Antes do surgimento das instituições democráticas, as que temos atualmente, esta separação se dava na base da porrada mesmo. A história da humanidade, vista dessa ótica, é um enorme rio de sangue e crueldade que, incessantemente, verte sobre o domínio do tempo as guerras e as atrocidades do sujeito humano (?). Isto denuncia que nossa humanidade é uma visão idealizada, falsa, a qual, o processo civilizatório[1] tenta, de forma desesperada, domesticar, controlar ou, em alguns casos, empurrar para baixo do tapete.

Querem uma pequena e pungente amostra? Leiam É isto um homem? De Primo Levi, jovem engenheiro químico italiano que passou um ano em Auschwitz.

Penso aqui na neurose como um desses elementos que nos constitui como sujeito e que o processo civilizatório, necessariamente, empurra para baixo do tapete do nosso inconsciente.

Este é também um dos pontos mais forte da obra de Freud O mal-estar na Civilização: um conflito entre a pulsão e a civilização, duas vertentes que desde que surgiu o primeiro homem – aquele que se levantou, ergueu a coluna e saiu andando em pé, deixando seus irmãos primatas para trás- vem forjando nossa “humanidade”.

Pensem em duas cobras brigando embaixo de uma “toiceira” de aveloz, entrelaçadas numa luta feroz e interminável; assim a pulsão, aquilo que tem de mais primitivo em nós, em contraposição à civilização, este belíssimo esforço criativo da humanidade.

Estas duas serpentes estão lutando incessantemente, dentro de nós, com os nossos desejos interditados; estão na sociedade contidas pelos aparelhos de Estado que, com o uso da Lei tenta segurar a besta que é braba e se reproduz a cada ser humano que nasce. O rastro dessa luta pode ser visto por toda a história da humanidade, embora haja um esforço enorme em apagá-lo. Por quê? Dresden foi milimetricamente reconstruída depois do bombardeio na segunda guerra. Esta é a mesma de antes da guerra? Ou cada tijolo, cada pedra, carrega os traços de uma vergonha encobridora do trágico que é ser humano?

A Civilização, com sua produção tecnológica, suas formas modernas de administrar o poder, suas comoventes criações artísticas como a música, as artes visuais e a literatura; e a pulsão com suas guerras, com a perversidade do homem sobre outro homem. O mal, o horror. Este é o nosso indissolúvel mal estar.

O percurso que nos levou do tacape ao voto é uma construção de séculos. Devemos venerá-lo, pois há aí um duro aprendizado da humanidade. Um esforço gigantesco para chegarmos às modernas democracias ocidentais.

Mas, e por que sempre temos a impressão de que os políticos são falsos, enganadores, ladrões, etc., etc.? Primeiro porque estamos aprisionados em uma visão idealizada da política, assim, como da religião – outra parte importante dessas serpentes – e esperamos, sempre, por um pai bondoso e protetor (um líder carismático) que venha nos guiar por um caminho seguro, diante deste vale de lágrimas que nos foi dado viver.

Não há Pai. O Pai está morto.

Estamos sós com a nossa humanidade imperfeita, mas sempre cheia de esperanças e recomeços. Compreender isto é um importante passo para atuarmos como cidadãos diante do processo politico, sem chiar, sem reclamações infantis e desemparadas de qualquer maturidade política.

Mas, o que faz um político e um eleitor, um que busca conquistar o poder e exercê-lo, e outro que não se sente minimamente atraído por isso, satisfeito e completo que está com seu cotidiano?

Esta é uma pergunta complexa, que não cabe responder aqui neste pequeno espaço, nem sequer apontar alguns caminhos. Nem sei se é possível respondê-la de forma satisfatória. De uma maneira bem simplificada, pode-se dizer que são as circunstâncias históricas, sociais, e, a mais importante, as individuais. O desejo que forjou um não é mesmo que constituiu o outro. Quem estava de um lado quando jovem, hoje adulto ou velho se encontra do outro, feliz e acomodado; as gerações se sucedem, as ideologias – obsoletas, profundas ou superficiais – fazem a roda da política girar tentado imprimir algum sentido que seja minimamente digno de se inscrever como história.

***

 

[1] Usamos aqui o mesmo sentido de Kultur, utilizado por Freud em o Mal Estar na Civilização, tudo que criamos e que nos distingue dos animais.

 

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

Este texto foi publicado originalmente na Revista Será? onde se permite a discussão sobre o tema. Para ter acesso ao texto e suas críticas clique aqui >>>

 

As Ruínas de Dresden, 9 de dezembro de 1945 – após sofrer intenso bombardeio durante a segunda guerra mundial.

As Ruínas de Dresden, 9 de dezembro de 1945 – após sofrer intenso bombardeio durante a segunda guerra mundial.

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