O Sujeito, o Desejo e a Política.

out 28, 2013 by

*João Rego

O conceito de sujeito, para a psicanálise, é o do sujeito constituído por uma falta que o funda como ser desejante. Essa é uma operação que ocorre em nossa alma e que tem sua origem no momento em que, como criança, viemos ao mundo. A princípio temos uma relação fusional com a mãe, ou seja, não somos constituídos ainda como sujeito. Nos confundimos e nos nutrimos desta fonte de vida original, que é o corpo da mãe. Com a interferência da figura paterna dá-se a interdição, que nos castra da mãe. A partir daí, seguimos a vida condenados a buscar, de forma incessante e sem êxito, o preenchimento desta falta.

É movido por esta falta que nos constituímos como sujeito, sentimos os limites do nosso corpo, criamos, amamos, e sofremos.

Sem ela cessaria o desejo, o que é a morte.

Atravessados pela linguagem acedemos à cultura, ou civilização.

As figuras parentais vão sendo substituídas por outros objetos: tios, professores, amigos, chefe, o Estado, a Religião, o Saber, etc.

Ansiamos sempre por reconhecimento, um reconhecimento que ajuda a lidar com a angústia que nos funda como seres incompletos e destinados à morte, essa desconhecida.

Mas, o que isto tudo tem a ver com política?

A ultrapassagem da humanidade de um estado de vida natural para a vida em sociedade, há milhares de anos, tem várias teorias: Hobbes, Rousseau, Freud e muitos outros como a religião e a ciência. Enfim, todos tentam explicar um momento mítico, onde o homem passa a diferir dos animais por uma lei que se instaura e, através da linguagem, funda a vida em sociedade.

O Estado, herdeiro direto das religiões totêmicas -mais primitivas- e monoteístas, se impõe como esse Pai que dá coesão a vida em sociedade. Sem ele voltaríamos à barbárie, cujo exemplo mais tênue que podemos imaginar são as guerras.

As democracias modernas são o resultado de um aperfeiçoamento extraordinário deste Estado que vêm regendo a vida da civilização por séculos.

Há no cerne deste ‘sistema’ duas instâncias que, logo de início, se impõem sobre todas as outras: a sociedade civil, que somos nós, cidadãos e cidadãs; e, a classe política, composta por alguns de nós que são sacados do nosso meio para administrar o Estado.

As eleições são os momentos periódicos de reprodução e renovação deste aparato estatal que rege as nossas vidas. Semelhante ao banquete totêmico, nos reunimos periodicamente para construirmos este Pai-Estado, que tem mais força e poder do que todos nós reunidos. Os deputados, senadores, juízes, presidentes, governadores e prefeitos são semelhantes aqueles pajés que, com suas máscaras, dançavam ao redor da fogueira invocando os deuses para nos punir ou proteger.

Ao invés da clava, a caneta; no lugar das danças e da fogueira os pomposos cerimoniais palacianos; no lugar dos sacrifícios das virgens (quem não lembra daquelas cenas no cinema mudo) a serem imoladas no altar pelo sumo sacerdote, imolam parte do nosso trabalho por meio da tributação sobre a riqueza que produzimos.

Assim, o voto, esta obrigação muitas vezes enfadonha, que nos rouba o tempo da praia e da cerveja no final de semana, é o momento fundante que opera as democracias modernas. Nós, sem termos muitas vezes consciência disto, somos responsáveis pela construção deste espantalho moderno, o Estado, senhor implacável que regula as nossas vidas, do momento em que nascemos até a morte e,…até depois dela.

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DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

 

 

Este texto foi publicado originalmente na Revista Será? onde se permite a discussão sobre o tema. Para ter acesso ao texto e suas críticas clique aqui >>>

 

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