O Socialismo e a Síndrome de Salieri

abr 28, 2012 by

*João Rego

No filme Amadeus de Peter Shaffer, dirigido por Milos Forman, se constrói uma relação de amor e ódio de Salieri por Mozart. A principal fonte do ódio de Salieri deve-se ao fato que este, desde pequeno, havia se oferecido celibatariamente a Deus, abrindo mão de todos os prazeres terrenos para que, em troca, Deus lhe desse o dom da música. E assim foi por certo tempo. Salieri acreditava ser o escolhido e estava muito bem instalado como diretor musical do Rei da Áustria, gozando de todos os privilégios, dentre os quais o reconhecimento e a fama. Até que…entra em cena Mozart, que já era conhecido como menino prodígio e, agora adulto, havia sido contrato para a mesma corte. Mozart é um personagem totalmente hedonista, sem nenhum limite quanto aos prazeres do sexo e da boemia. Entretanto, compunha uma música  que aos olhos (neste caso, ouvidos)de Salieri  era a máxima perfeição da expressão do divino na terra. Um ódio crescente e obsessivo se instala no espírito de Salieri passando a conviver, simultaneamente, com a paixão deste pela música de Mozart. O filme começa com Salieri em um manicômio, atormentado pela culpa de ter sido o responsável pela morte de Mozart. A um padre Salieri conta toda a história de amoródio dele em relação a Mozart. O grande mérito do diretor, acredito, onde reside a principal força do filme, foi colocar Salieri como um intermediário entre nós, o público, e a obra de Mozart; explicando de forma sublime e apaixonada a beleza da criação de Mozart.

E onde entra socialismo nesta estória toda? Eu, assim como muitos da minha geração, sofria da mesma paixão cega de Salierei, só que com relação ao socialismo. Há uma corrente histórica muito forte que vem seguindo há séculos esta Utopia. As comunidades dos primeiros cristãos, os socialistas utópicos -Robert Owen, Saint Simon e outros-, o socialismo científico teorizado por Marx e posto em prática por Lênin, todos sofrendo do mesmo mal: uma celibatária e cega “certeza religiosa” nas ideias socialistas e no determinismo histórico de que a humanidade, tão sangrenta de injustiças, enfim haveria de atingir a perfeição instalando uma sociedade socialista.

Acreditávamos sermos os escolhidos pela história, assim como Salieri acreditava ter sido escolhido por Deus para compor as mais belas e expressivas músicas que a humanidade jamais ouvira. O capitalismo evoluiu, ao longo deste período, movido pela amoral e infinita ambição humana em obter lucro e riqueza, explorando sem limites, o outro. Está aí o nosso Mozart! Como? O capitalismo, sem ter uma pauta humanitária em seus cânones teóricos, consegue construir a riqueza e avançar com força inovadora sobre a história, transformando nossas vidas e compondo as mais importantes composições que regem a economia e a sociedade, Destrói assim, de forma dolorosa, o narcisismo que sustentou gerações e gerações de Salieris por todo o mundo.

A queda do muro de Berlim, em 1989, descortinou a última base histórica e material que dava suporte ao imaginário das utopias socialistas. No final do filme, sai Salieri com um sorriso demente e, de forma melancólica, passeia com sua cadeira de rodas pelos corredores infectos e cheios de doentes mentais, acorrentados feito animais, se autoproclamando o rei dos medíocres. Foi esmagado, tragicamente, pela força criadora do gênio Mozart. Algo semelhante ocorre com o socialismo em relação ao capitalismo. Sucumbe, diante da poderosa força transformadora da realidade que o capitalismo possui, toda experiência histórica que demonstraria que nossa “cegueira religiosa” tinha, enfim, fundamento. É evidente que a ameaça, durante certo período da história, do socialismo, forçou a modernização do capitalismo. É muito forte também a convicção e o respeito por milhares de Salieris que se sacrificaram e se imolaram, alguns com a própria vida, outros com seu intelecto, em uma busca incessante de construir uma sociedade socialista. A estes, os salva o poeta luso “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, uma forma sublime de dizer que o sacrifício não foi em vão.

Mas, e hoje? Quando estamos vivendo os primórdios (pasmem) da sociedade da informação, onde o capitalismo se renova numa velocidade assustadora, impedindo até mesmo de teorizarmos sobre seus impactos transformadores em nossas vidas. O que cabe a nós, Salieris desse novo tempo? Sim, uma vez Salieri, sempre Salieri. Acho que é algo do DNA da história: não tem cura. Primeiro, saber lidar com esse narcisismo histórico ferido. Sair dos corredores pútridos que a história nos colocou. Alguns países e algumas mentes, jovens ainda, estão acorrentados neste manicômio do imaginário utópico do socialismo, onde a ração diária é o passado sem nenhum vestígio de razão, nem possibilidade de pensar o futuro. Segundo, é compreender que essas correntes históricas têm agora uma função crítica dos abusos do capitalismo; porém para isso se faz necessário um esforço razoável para se pensar onde inserir a Utopia humanitária nessa nova e célere sociedade da informação.

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DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

 

Este texto foi publicado originalmente na Revista Será? onde se permite a discussão sobre o tema. Para ter acesso ao texto e suas críticas clique aqui >>>

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