Palocci, o Brasil e a corrupção.

abr 29, 2011 by

*João Rego.

Recife, 14 de junho de 2011.

 

No livro de João Ubaldo Ribeiro, Viva o Povo Brasileiro, que recomendo para compreendermos traços da formação da elite brasileira, lá no final há uma cena extraordinária: três ladrões pés-rapados, após a morte do general Patrício Macário, roubam da sua casa uma canastra, pequeno baú, e sem a chave um deles consegue forçar uma abertura no baú e para seu espanto consegue, espiando por uma fresta, vê o futuro.

Segue o diálogo:

“O parceiro do ladrão pergunta:

– Que é que você está vendo agora?

– Ladrão como corno! Ladrão pra dar de pau, ladrão e mentiroso por tudo quanto é lado!

– Muito ladrão aí?

– Chi!Chiiii! Nem me fale! E tudo muito bem trajado, uma finura!

– Trajado como, de terno, de duque, de colete e gravata?

-De duque de diagonal, terno de gabardine, gravata de seda, alfinetes de brilhantes, botoaduras de péurúlas, sapato de crocodilo, água de cheiro de subaco de vinte contos a gota! Isso quando é paisano!

– Tem ladrão fardado?

-Nimminfales! Jesus Cristo, ói cuma tem! Menino!

– Tudo entrando nas casas e metendo a mão em tudo dos outros?

– Que nada! Eles nem toca no dinheiro, tudo tem uns cartãozinho, o dinheiro não tem nome de dinheiro.

– Que nome tem o dinheiro?

– Todo tipo de nome. É verba, é dotação, é uma certa quantia, é age, é desage, é numerário, é honorário, é remoneração, é recursos alocado, é propriação de reculso, é comissão, é fis, é contisprestação, é desembolso, é crédio, é transferência, é vestimento, é tanto nome que se eu fosse dizer nunca acabava hoje e tem mais coisa para ver. Dinheiro mesmo é que ninguém fala, todo mundo tem vergonha de falar que quer dinheiro.”

Isso era o ano de 1939.

Há um traço perverso na formação da elite brasileira que perpassa muitas instâncias, dentre elas o universo da política, que se traduz pela apropriação sistemática, histórica do bem público. No caso de Palocci, o que mais me impressionou foram os “mentirosos” – senhores de toga inclusive – tentando acobertar o roubo de Palocci. Figuras como Sepúlveda Pertence jogando no lixo décadas de relevante biografia em entrevistas, na maior desfaçatez, tentando nos empurrar goela a dentro “que não há nada que denigra o eminente ministro”, ou o procurador geral da república, com sua suína e bajulatória expressão, por meio de uma lógica tortuosa, descriminalizando o enriquecimento ilícito de Palocci.

E os discursos de despedida! Elogios, abraços e afagos num deplorável jogo de cena para tentar encobrir algo que está muito evidente para todos os cidadãos.

Sou um otimista e acredito que o Brasil teve avanços importantes na estruturação da democracia, como acredito, pois os fatos o mostram, que o governo do PT fez investimentos sociais que impulsionou a redistribuição da renda.

Apenas creio que, no caso deste traço perverso da corrupção em nossa cultura política e social, a lei, instância criada para regular estes desvios, vem demonstrando-se ineficaz para dar conta deste sintoma.

Para que se mude o futuro visto pelo personagem de João Ubaldo Ribeiro é necessário ir mais fundo, nas entranhas do Estado mesmo e arrancar estes tumores que, como o câncer, insistem em reincidir.

A questão é: quem se habilita a fazer esta cirurgia?

 

***

 

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

 

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