Entrevista a Revista Veja Online

abr 29, 2010 by

Entrevista a Revista Veja Online sobre a oposição no Brasil

*João Rego

 Recife, 28 de setembro de 2010.

 

Professor,

Vou fazer uma reportagem sobre a oposição no Brasil e quero entender como ela tem se comportado desde a redemocratização do país.

Enfim, não vamos fazer uma tese sobre o assunto, mas quero tentar mostrar para o leitor as diferenças de comportamento, o que esperar da oposição..

Muito obrigada,

Adriana Caitano
Repórter VEJA.com

Pergunta: As oposições que o Brasil já teve ou têm um comportamento padrão?

João Rego: Bem, durante o período autoritário havia valores e desafios que forçavam claramente uma clivagem entre governo e oposição, inclusive – percebemos a posteriori- cegando a todos os envolvidos, onde um visão dicotômica nos impedia de ver nuances do outro lado que apresentava uma diversidade política. Se você não fosse de esquerda era de direita e, portanto, estava dos lados dos militares. O outro lado via todos como comunistas.

Era um mundo fácil de se analisar – embora extremamente duro de se viver – e movido pelas paixões.

Para o eleitorado – as pesquisas assim demonstravam – havia uma clara identificação ideológica do voto.

João Rego: Com a transição para a democracia que foi de 1982 a 1990 com a volta das eleições diretas e a liberdade de imprensa, o que era dicotômico passou a ser algo mais difuso. O nepotismo e a corrupção que só havia do outro lado, começa a aparecer também como prática de governantes de esquerda que agora estavam no poder.

As relações de dominação que tanto se criticava, como por exemplo, um governador que coopta um prefeito do interior, independente do seu partido, práticas coronelistas principalmente em regiões mais atrasadas do país, hoje, jovens governadores a exercem com perfeição, como se um nefasto traço genético das gerações políticas passadas imprimissem sua marca em tais comportamentos.

A democracia enfim é dessacralizada, cai daquele trono que gerações inteiras lutaram para conquistá-la.

Pergunta: Há alguma característica específica em cada uma delas ou todas se repetem?

Assim como o ser humano é capturado pelo mecanismo da repetição – elemento central da psicanálise – as organizações partidárias também o são, principalmente se o ambiente exige que se repitam para garantir seus ganhos e conquistas. Mudanças no ambiente político, e aqui estou me referindo predominantemente a sociedade civil, é que podem demandar mudanças nas organizações partidárias, quebrando a repetição, para melhor ou para pior.

A única característica específica que perpassa todos os partidos políticos em uma democracia, é que eles precisam sobreviver. O que era antes – no período autoritário – o núcleo central da substância partidária, sua ideologia, é hoje apenas uma pálida expressão superficial trabalhada pelos marqueteiros de plantão, transformando um nobre produto em algo de baixo valor, o qual deve ser colocado nas prateleiras do mercado político em busca do primeiro consumidor que encontrar.

Pergunta: Qual é a função da oposição para a democracia?

É, além de exercer uma ação de controle sobre a gestão do governante, representar uma ameaça real de alternância doa poder. Com líderes carismáticos, como é o caso de Lula, esta ameaça se enfraquece, comprometendo a vitalidade das instituições democráticas. Mas, aqui não se pode culpar o governo e sim, tentar entender por que nossa sociedade é tão facilmente capturada por certos tipos de líderes. Há fenômenos sociais que, infelizmente, sua compreensão só se dará a posteriori, e serão objetos de estudo dos historiadores.

Pergunta: O senhor acha que as oposições aqui são baseadas em ideologias ou nenhum tem ideologia, só existe para se contrapor ao governo?

Para responder esta pergunta é necessário definir o conceito de ideologia, palavra tão gasta e usada indevidamente que seu significado é hoje difuso. Vamos dizer que ideologia está associada a visão de mundo de uma instituição partidária e que sobre esta visão, o partido define sua estratégia. Neste sentido, talvez seja possível – com algum esforço – identificar os traços ideológicos dos partidos, quer sejam de oposição ou de situação. Entretanto, se abstrairmos os símbolos, a história de cada partido e no concentramos, como disse Maquiavel, na verdade efetiva das coisas, ou seja, na prática de poder destes partidos, iremos perceber que a democracia, e a sociedade que a gera, exerce um enorme poder pasteurizador sobre a identidade ideológica destes.

Pergunta: Há uma maneira ideal como uma oposição deveria se comportar?

As atividades na arena política de uma nação não é feito uma cozinha, onde tem receita para tudo. Não há receita nem recomendação a se fazer.

O enorme complexo de interesses e desejos que envolvem a sociedade e a economia, os costumes, a história, a tradição e as leis, é que regem estes comportamentos.

Sempre torcemos pelo melhor e acreditamos em uma forma de avanço linear, o que é um erro. Democracia pode ser reversível e tem a imprevisibilidade como essência. É aí que reside a riqueza deste regime.

Pergunta: Antes da Constituição de 88, a oposição conseguiu ser representativa de alguma forma?

O período de 1988 era ainda marcado por fortes traços deste universo dicotômico, esquerda e forças democráticas de um lado, e as forças políticas que apoiaram o regime militar do outro. A oposição daquele momento era movida por uma missão histórica, nobre, de construir as bases para a consolidação da democracia. E cumpriram bem o seu papel.

A dificuldade é compreender que hoje, após tantos anos de democracia, o que se vive é algo repetitivo, muitas vezes medíocre – como é o cotidiano das pessoas – , ou seja, chegar a democracia não era como se imaginava, atingir o nirvana político, ou chegar a terra prometida, pelo contrário, é conviver com o inferno da incerteza onde as instituições, a sociedade e a economia são desafiadas a uma construção constante de nação, com suas profundas e insolúveis contradições.

Neste vasto mar, onde a força do capital com suas revoluções tecnológicas são os regentes do processo, sobredeterminando o político, o barquinho da oposição aderna ao sabor da cada onda.

***

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

 

Related Posts

Share This

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *