Lisboa 2007 – O Músico no Mundo

maio 30, 2007 by

João Rego, 2007

Algumas pessoas quando viajam tentam reter suas melhores lembranças registrando com suas câmeras digitais os passeios; os museus; as ruas, praias, bares, etc… Enfim, tudo que de bom lhe marcou aquele lugar.

Eu também faço tudo isso, só que existe um evento que pelo seu poderoso efeito em mexer com as minhas emoções, se destaca de todos os outros: a música.

Com sua universalidade, a música é uma forma de linguagem que ultrapassa todas as barreiras culturais, territoriais e políticas nos perpassando através dos nossos sentidos, deixando um efeito, muitas vezes arrebatador na alma.

Uma obra de arte também tem este poder de lhe revolver os sentimentos, mas é através do olhar que ela faz este efeito na gente.

A música, além do olhar – a cena do músico ou músicos -, nos atinge pela audição. O som talvez seja a primeira impressão que absorvemos do mundo exterior, quando ainda estamos no útero da mãe, os órgãos internos, a batida do nosso coração, a voz da mãe e dos outros, tudo isso nos constitui como sujeito humano.

Lembro-me de quando estava no banho em meu hotel em Lisboa, com a janela aberta e ouvi um som que nunca tinha ouvido antes em toda a minha vida. Era um som cheio, primitivo, envolvente. Abri a janela e a despeito dos oito graus que faziam, fiquei ali seminu capturado pelo som que Dratso, um músico suíço que tocava na Rua Porta de Santo Antão, em Lisboa.

O instrumento era um Balafon (grafado aqui em Francês), uma espécie de xilofone construído com madeira e cabaças de Burkina Faso, um dos países mais pobres do mundo.

Dratso um jovem baterista de Zurique, uma das cidades mais rica do mundo, por alguma razão que desconheço, e acho que ele também, deixou seus pais em Zurique, onde pobre só existe empalhado em museus, e foi viver com uma família africana em Burkina Faso. O objetivo era absorver aquela cultura primitiva e aprender a tocar o instrumento. O resultado é que Dratso vive hoje pelas ruas da Europa, como uma espécie de pós- hippie vai levando aos ouvidos do primeiro mundo o grito primitivo e belo da África.

De tudo que ouvimos em forma de música, podemos interpretar o que quisermos, pois cada sujeito humano é um universo único, singular. Para mim, a música que vem da África é uma espécie de lamento e apelo à reflexão.

Como com tanta tecnologia e desenvolvimento ainda temos a brutal miséria humana na África?

Com é possível isto?

Vejam o vídeo de Dratso. São poucos minutos, gravados de forma amadora, porém perpassado pela minha emoção, que é afinal o objetivo desse blog.

Dratso e seu Balafon.

 

 

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DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

 

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