O impeachment, a horda e a morte do Pai.

nov 14, 2005 by

*João Rego.

Recife, 14 de novembro de 2005.

 

O fenômeno que funda a política é a estranha qualidade de um grupo de pessoas se identificarem com um líder, e nele, projetarem suas esperanças, agregando-lhes imaginariamente, qualidades que nos indivíduos normais estão ausentes.

Tem sido assim desde os primórdios.

As frustrações do cotidiano, a mesmice de uma vida medíocre que insiste em se repetir e a fragilidade da vida diante da morte, assim o exigem. É necessário termos algo em que possamos fincar, mesmo que imaginariamente, suportes para a nossa existência, que nos realimente de esperanças, nos possibilite criar e amar.

Aí entram a religião e o Estado. Ambos herdeiros da função do Pai primitivo, gênese das religiões totêmicas e, mais tarde, monoteístas.

O que nos perpassa nessa caminhada de líderes e liderados, é a subordinação do grupo ao líder marcada a ferro e fogo pela função deste como a de um pai mítico, que nos pune, nos protege e dá suporte a nossa existência.

É esse o papel do Estado moderno. E é nessa relação, queiramos ou não, que se funda a política. As ideologias, as formas de governo, os processo eleitorais, os rituais do poder, tudo são expressões da civilização que, ao longo da história vêm tentando aperfeiçoar esta forma primitiva que nos une em sociedade: uma tribo em torno de um Pai.

Os sentimentos de um grupo são sempre muitos simples e muito exagerados, de maneira que não se conhece a dúvida nem a incerteza. ( Freud, em Psicologias das Massas e análise do Eu.)

Foi assim também com Lula e o seu eleitorado. E olhe que estamos falando aqui de milhares de cidadãos comuns, intelectuais, artistas da importância de um Chico Buarque, de uma Fernanda Montenegro e políticos que lutaram bravamente contra o regime autoritário de 1964. Enfim, tudo aquilo que é considerado como a parte mais importante e mais esclarecida da cultura nacional.

Aí vieram as denúncias.

Começou com o filme do cara lá do correio, desembocou em Roberto Jefferson e por aí foi. As evidências de corrupção irrompem a cada passo dado pelas CPI’s. A descoberta da participação do Banco do Brasil como financiador do “esquema do mensalão”, aprofunda ainda mais a crise.

E quanto mais Lula tenta explicar, pior fica.

A horda primitiva está paralisada diante do Pai, que gradativamente é desinvestido dessa função. Eles estão a espera de algum milagre, fecham os ouvidos, tampam a visão, embotam o intelecto para não admitirem que este Pai é frágil. É insuportável reconhecer que as esperanças de várias gerações de luta e militância, estão fincadas em falsos suportes que deslizam, desastrosamente, ribanceira abaixo. O pior, a esquerda não se preparou para ter um Pai substituto, resta apenas à angústia de um vazio, do abandono e da iminente morte política desse Pai.

Daí, o silêncio nas ruas.

Os fatos que as investigações trouxeram a tona, por si só, já justificam que a questão do impeachment do presidente Lula seja posta, com serenidade e equilíbrio, na agenda política nacional.

Se as denúncias forem minimizadas para evitar que um impeachment venha a jogar a nação num mar de conflitos, isto porque se supõe que Lula ainda tem um apoio importante de parte do eleitorado, estaremos comprometendo seriamente a espinha dorsal da nossa recente democracia.

Assim, estaremos fadados a carregar para o futuro esse fantasma não resolvido, que terá sido empurrado, por receio ou oportunismo da classe política, para baixo do tapete da consciência nacional.

A história, essa implacável guardiã do tempo, irá nos cobrar depois, não de pessoas ou personagens políticos – esses, efêmeros agentes de um momento-, mas das instituições como um todo, que, em uma democracia, devem ser forjadas com transparência e integridade, para acolherem as futuras gerações.

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DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

إيروس وثانتوس

 

 

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